EMIR SADER
A
América Latina é uma toupeira
O cientista político e filósofo
brasileiro usa em sua recente obra a figura da toupeira para descrever
a América Latina de
hoje, segundo ele, o elo mais fraco da cadeia neoliberal. “O
continente americano é o de maior grau de desigualdade no
mundo – e, portanto, de injustiça –, situação
que só se acentuou com a década neoliberal, mas os
duros golpes sofridos
pelo campo popular, tanto com as ditaduras quanto com as políticas
neoliberais, não faziam pressagiar uma mudança
tão rápida e profunda. Buscaremos compreender as
condições que permitiram uma virada tão radical
e transformaram
o paraíso neoliberal em oásis antineoliberal num
mundo ainda dominado
pelo modelo neoliberal, assim como o potencial e os limites
dessa virada, num marco continental e mundial”. O trecho
acima faz parte da mais recente obra do cientista político
Emir Sader A Nova Toupeira: os Caminhos da Esquerda
Latino-americana, lançada em janeiro deste ano pela
editora Boitempo. “Venho buscando entender o que
acontece hoje na América Latina e no Brasil, o que
são os processos de transformação profunda
da realidade
atualmente. Publicar um livro não é apenas definir
um tema, desenvolver as análises (...) Em suma, é superar
o bloqueio do silêncio com que se tenta afogar o
pensamento crítico e as ideias que buscam “outro mundo
possível”. Emir Sader é formado em Filosofia
pela Universidade
de São Paulo, onde também realizou mestrado
em Filosofia Política e doutorado em Ciência Política.
Foi ainda na USP que iniciou sua experiência
docente nos cursos de Filosofia e de Ciência
Política, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo
(FFLCH-USP). Atualmente é secretárioexecutivo
do Conselho Latino Americano
de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório
de Políticas
Públicas da Universidade Estadual do
Rio de Janeiro (Uerj). Em entrevista
especial para o Extra Classe, Emir
Sader fala de temas como a política
latino-americana e o conflito
palestino.
Por Jacira Cabral da Silveira
Extra Classe – Em seu livro A
nova toupeira: os caminhos da esquerda
latino-americana o senhor
afirma que a América Latina
irrompe o século 21 diante de um
novo dilema. Qual?
Emir Sader – O de construir
alternativas superadoras do
neoliberalismo, em um marco geral
conservador no mundo e com
herança de transformações econômicas,
sociais, políticas e ideológicas
regressivas profundas levadas
a cabo por governos neoliberais.
Mas qual a natureza do período que
vivemos? De que maneira se combinam
fatores tão negativos, em
escala global, como a passagem de
um mundo bipolar a um mundo
unipolar, e de um modelo
hegemônico regulador a um modelo
neoliberal e as forças
antineoliberais, concentradas na
América Latina? São essas as condições
que o livro analisa, pretendendo
ajudar a compreender o Brasil
de hoje, a América Latina de
hoje, o mundo de hoje, na perspectiva
da sua transformação em
um mundo mais humano, solidário,
democrático nos planos social,
econômico, cultural e político.
EC – Por que a figura da toupeira?
Sader – Porque é o bichinho
que o Marx e outros pensadores e
escritores usaram para falar de um
processo oculto, mas sempre persistente,
de amadurecimento de
contradições, que de repente apareceà
superfície, sempre surpreendendo,
seja pelo momento, seja
pela forma que ocorre. Como os
processos revolucionários. Da expressão “velha toupeira”,
tirei o título
do livro, para designar a América
Latina de hoje. No livro ele
serve para designar a esquerda
latinoamericana, que tem um novo
século surpreendente. A América
Latina passou de “paraíso
neoliberal” a “elo
mais fraco da cadeia
neoliberal”, de uma década a
outra. Justamente por ter sido o
berço do neoliberalismo e a região
onde ele mais se alastrou, vivemos
uma ressaca do neoliberalismo, em
que convive a maior quantidade de
governos progressistas na história do
continente.
EC – As esquerdas latino-americanas
levam ao poder lideranças
como Hugo Chaves, na Venezuela,
Néstor Kirchner, na Argentina e
Lula, no Brasil, entre outros. O que
isso representa e por que agora?
Sader – Porque a América Latina
foi o paraíso – ou o inferno – neoliberal, viveu e vive um
processo
de porre, de ressaca neoliberal e
elegeu a tantos governos que, de
formas distintas, expressam a rejeição
do neoliberalismo, transformando
a região no elo mais fraco da
cadeia neoliberal.
EC – O Brasil vem assumindo
que posição neste contexto da política
latino-americana?
Sader – O de participante desse
processo de construção de alternativas,
ainda com um governo contraditório,
que manteve elementos
herdados – como a política financeira,
a independência de fato do
Banco Central, a política do
agronegócio –, mas com rupturas – como a política exterior,
as políticas
sociais, o fortalecimento do Estado,
do trabalho formal.
EC – Na sua avaliação, que papel
ocupa o Brasil tanto na realidade
regional (entre países vizinhos) e
no âmbito internacional?
Sader – O papel de um país de
grandes dimensões, mas com um
grau de desigualdade que ainda é o maior da região – que
por
sua vezé a mais desigual o mundo. Que
tem contribuído para os processos
de integração regional, mas que
precisa sair do modelo neoliberal
para contribuir e participar mais. O
Brasil nunca melhorou na redução
da desigualdade em tempos de democracia,
ditadura, expansão da
economia ou recessão. O governo
Lula é o primeiro em que o ponteiro
da desigualdade melhorou, ainda
pouco mas melhorou. O fato de
a chamada classe C ser maioria no
país não significa quer estamos em
um país de classe média, mas que
setores significativos do país passaram
a ter mobilidade social ascendente.
Nunca se fez absolutamente
nada significativo para melhorar
a situação do povo brasileiro.
EC – Como o senhor avalia a
consciência política do brasileiro?
Sader – Como uma consciência
que hoje, na média, produz um consenso
passivo ao governo Lula, isto é, sem entusiasmo, mas reconhecendo
as transformações sociais
positivas que o governo leva a cabo.
Com pouco interesse pela política,
seja pelo enfraquecimento dos partidos,
seja pelo pouco entusiasmo
que suscita a política tradicional.
E, atualmente, sem incluir o imperialismo
estadunidense, a direita
não consegue pensar a América
Latina. Como não consegue pensar
o nosso continente, tenta
descaracterizá-lo: não haveria uma
América Latina, como se as distâncias
entre o Equador e o Haiti,
o México e a Argentina, a
Guatemala e o Brasil fossem maiores
das que existem entre a Bélgica
e a Itália, Portugal e a Alemanha,
a Espanha e a Grécia.
EC – É comum encontrarmos
chilenos, uruguaios e outros vizinhos
que apresentam uma cultura
mais vasta do que a dos brasileiros.
Por que isso ocorre?
Sader – Porque eles tiveram
uma história com significados mais
fortes, nacionais e populares, desde
as revoluções de independência,
que expulsaram os colonizadores
espanhóis e decretaram o
fim da escravidão há dois séculos,
em processos integrados em termos
latino-americanos, passando por
experiências políticas de massa
marcantes, que o Brasil não teve,
a começar porque tivemos um
grande pacto de elite no lugar de
uma revolução de independência,
quando nem sequer se terminou
com a escravidão, o que fizemos por último em todo o continente.
EC – Está para ocorrer em
2010 a Conae (Conferência Nacional
de Educação), em Brasília.
Esse será um encontro que reunirá representantes desde a escola
infantil à universidade. Como o senhor
tem avaliado as ações do governo
Lula no setor da Educação? O que
podemos esperar de encontros como
a Conae num país como o Brasil e
sua história de Educação?
Sader – Como avanços positivos
em geral. Tomara que o encontro
assine e ponha em prática um
compromisso, comprometendo o
governo nisso, de terminar com o
analfabetismo no Brasil, como fizeram
Cuba, Venezuela e a Bolívia.
EC – Muitos têm seus livros em
suas mesas de cabeceira, que autores
ocupam atualmente sua mesa de
cabeceira? O que vem buscando
entender?
Sader – Venho buscando entender
o que acontece hoje na
América Latina e no Brasil, o que
são os processos de transformação
profunda da realidade atualmente.
Publicar um livro não é apenas
definir um tema, desenvolver as
análises, encontrar a melhor forma
de expor as ideias, encontrar
um editor etc. É também batalhar
pelo que se escreve, por aquilo em
que acreditamos, pelas ideias e
propostas contidas no livro. É parte
integrante do livro fazê-lo chegar
aos que se interessam pelos problemas
abordados, buscar resenhas,
participar de lançamentos,
de debates. Em suma, é superar o
bloqueio do silêncio com que se
tenta afogar o pensamento crítico
e as ideias que buscam “outro mundo
possível”.
EC – O senhor também tem se
ocupado com a questão Israel-Palestina.
Na sua opinião, que condições
seriam necessárias para uma resolução
da questão Palestina que
pudesse pacificar a região? Qual o
caráter explosivo do conflito?
Sader – O primeiro dos fatores
que explicam a natureza do conflito
e a dificuldade de sua resolução
está no caráter de aliado estratégico
que Israel tem em relação
aos Estados Unidos – a única
superpotência. O peso do lobby judaico
nos EUA garante que esse
vínculo estratégico se mantenha
ao longo das mudanças de governo.
A secretária de Estado, Hillary
Clinton, mesmo na perspectiva de
um governo israelense dirigido por
um representante de um partido
que não reconhece o direito ao
Estado palestino, reafirmou que
Israel terá sempre o apoio dos EUA,
qualquer que seja seu governo. Por
outro lado, os palestinos foram
grandes vítimas do fim do mundo
bipolar, com a desaparecimento da
URSS, aliado que se contrapunha à
ação norte-americana de apoio
a Israel. Isto contribuiu para
aprofundar sua orfandade política
internacional. Ao contrário de Israel,
não contam com nenhum
apoio significativo interno nos EUA. Muito pelo contrário, especialmente
depois
dos atentados de 11 de setembro, passaram
a ser diretamente criminalizados.
EC – O senhor menciona as “guerras infinitas” de Bush
quando
analisa a intervenção norte-americana nos países em conflito,
o governo
Obama seguirá este modelo?
Sader – Os EUA continuam a ser o único
país que toma iniciativas nos conflitos internacionais.
(A exceção é a América Latina que,
por meio da Unasul e do Conselho Sul-americano
de Defesa, tem desenvolvido intenso trabalho
de intermediação para a resolução pacífica
dos conflitos regionais.) O novo governo
dos EUA pode representar tentativas de negociação
de acordos de paz, porém suas limitações
já estão claras: o surgimento de um governo
abertamente direitista em Israel, liderado
por um partido que nem sequer reconhece
o direito à existência do Estado palestino; a
reafirmação do apoio dos EUA a qualquer governo
que tenha Israel; a negativa de reconhecimento
do Hamas como interlocutor político.
A isso se soma o antecedente dos acordos
de Oslo, cujos objetivos não incluíam o
Estado palestino, o que impede uma visão otimista
sobre os acordos de paz atualmente. A
certeza é que o tema do Estado palestino voltou
ao centro das preocupações mundiais, que
as forças palestinas se fortalecem internamente
e na solidariedade internacional e que o governo
Obama terá que colocar o tema na sua
agenda prioritária. O ataque a Gaza fecha um
período de relativo isolamento do tema palestino
e reabre nova fase na luta pelo reconhecimento
do direito dos palestinos de disporem
de um Estado soberano.
A
Nova Toupeira, os Caminhos da Esquerda Latino-americana – Ed.
Boitempo
–
São Paulo – 2009
Século XX – Uma biografia não-autorizada – Ed.
Fundação Perseu Abramo – 2000.
O Anjo
Torto (Esquerda e Direita no Brasil) – Ed. Brasiliense – São
Paulo – 1995
Estado
e Política em Marx – Ed. Cortez – São
Paulo
A transição no Brasil: da ditadura à democracia? – Ed.
Atual
Cuba,
Chile e Nicarágua: o socialismo na América
Latina – Ed. Atual
Que
Brasil é este? – Ed. Atual
O poder,
cadê o poder? – Ed. Boitempo – São
Paulo
A Revolução Cubana – Ed. Scritta
Democracia
e Ditadura no Chile – Ed. Brasiliense – São
Paulo
Governar
para todos – Ed. Scritta
Da
independência à redemocratização – Ed.
Brasiliense – São Paulo
Fidel
Castro (seleção e introdução) – Ed.
Atica – São Paulo – 1986
Fogo
no Pavilhão – Ed. Brasiliense – São
Paulo – 1987
Movimentos
sociais na transição democrática
(org.) – Cortez Editora – São Paulo – 1987
Constituinte
e democracia no Brasil hoje (org.) – Ed. Brasiliense – São
Paulo – 1985
E agora,
PT? (org.) – Ed. Brasiliense – São
Paulo – 1987
O socialismo
humanista do Che (org. e introdução) – Ed.
Vozes – Petrópolis –1990
Gramsci:
poder, política e partido – (org. e introdução) – Ed.
Brasiliense – São Paulo – 1990
Without
Fear of Being Happy – Ed. Verso – Londres – 1991
Chile
(1818-1990) – Da independência à redemocratização – Ed.
Brasiliense – São Paulo – 1991
Por
que Cuba? (org.) – Ed. Revan – Rio de Janeiro – 1992
Idéias
para uma alternativa de esquerda à crise
brasileira (org). Ed. Relume – Dumará – Rio
de Janeiro – 1993
Pós-neoliberalismo – As políticas sociais
no Brasil – Ed. Paz e Terra – São Paulo – 1995
O mundo
depois da queda (org.) – Ed. Paz e Terra – São
Paulo – 1995
Karl
Marx – Bibliografia (org.) – Programa de Pós-graduação
do Departamento de Sociologia – FFLCH – USP – São
Paulo – 1995
Vozes
do Século (org.) – Ed. Paz e Terra – São
Paulo – 1997
Cartas
a Che Guevara – O mundo trinta anos depois – Ed.
Paz e Terra – São Paulo – 1997
Nelson
Mandela (org) – Ed. Revan – 1998
A opção brasileira – (co-autor) – Ed.
Contraponto – Rio de Janeiro – 1998
Sem
perder a ternura – O livro de pensamentos de Che Guevara – organizador – Ed.
Record – 1999
Contraversões – com Frei Betto – Ed. Boitempo – São
Paulo – 1999
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