ULBRA Movimento de professores
está mudando a cara da Ulbra
Pressionado pela
mobilização de docentes,
funcionários e alunos,
que denunciaram à
opinião pública a
apropriação da Ulbra
por um grupo de dirigentes,
o pastor
Ruben Eugen Becker,
72 anos, apontado
como pivô da crise da
instituição, renunciou
no dia 17 de abril ao
cargo de reitor.
Foto:
Thaís Brandão
Fora
Becker: ato público no campus Canoas mobilizou alunos,
professores e funcionários
Por Gilson Camargo
om
a palavra de ordem “Sou
mais Ulbra – Fora Becker!” repetida em coro nas manifestações
e estampada em faixas,
folhetos e adesivos, a mobilização
dos professores, funcionários e alunos
tornou pública a crise de gestão
que comprometeu o funcionamento
da Ulbra. As assembleias
dos docentes, que entraram
em greve no dia 7 de abril, passaram
a ser alternadas com atos públicos
no campus Canoas, em frente
ao prédio da Celsp, mantenedora
da Ulbra, e em Porto Alegre.
A reivindicação da saída do
reitor foi formalizada em documento
protocolado junto ao Ministério
Público Federal e encaminhado às prefeituras
e Câmaras
de Vereadores dos municípios
que sediam unidades da
Ulbra, à Assembleia Legislativa
e às instâncias do Poder Judiciário.
A partir daí, a crise da maior
instituição de ensino privado do
estado e a terceira do país virou
pauta diária dos meios de comunicação.
Foto:
René Cabrales
Na quinta-feira, 16 de abril,
acossado por uma avalanche de
denúncias e declarações do Judiciário
e da promotoria à imprensa,
Becker viu ruir seu projeto
de continuar mandando na
Ulbra. Em meio à pressão da comunidade
acadêmica, o xequemate
veio do ministro da Educação,
Fernando Haddad, que após
reunião com parlamentares em
Brasília, sentenciou: qualquer
ajuda do governo federal à Ulbra
estaria condicionada à troca da
Reitoria. A situação do ex-reitor
ficou ainda mais insustentável e,
no dia seguinte, Becker acabou
enviando sua carta de renúncia à
Comunidade Evangélica
Luterana São Paulo (Celsp),
mantenedora da Universidade. “O imperador caiu”,
comemorava uma professora em frente ao
prédio da Celsp, no centro de
Canoas, minutos após a renúncia. “Ele
caiu porque nós nos indignamos,
entramos em greve e fizemos
a greve. Não há reitor que
resista ao grito de cinco mil pessoas”,
avalia Adair Busato, professor
da Pós-graduação em
Odontologia.
Manifestação
no centro
de Porto Alegre
Mas na sexta-feira, 17 de
abril, os bastidores da crise ainda
reservavam mais uma cartada
do ex-reitor, que na última hora
articulou a candidatura de um
aliado na tentativa de se manter
no comando da Ulbra, ainda que
fora da Reitoria.
Reitoria
lacrada pela PF
No dia da renúncia, Becker,
que até então
não falava à imprensa, aceitou dar
uma
entrevista ao jornalista Lasier Martins, da
rádio Gaúcha. Entre alegações
de que estaria
sendo vítima de conspiração,
argumentou
com seus mais de 30 anos dedicados à construção
da Ulbra e, pelas declarações,
deixou claro que continuaria mandando na
Universidade de uma ou de outra forma, inclusive
ressaltando que seu filho, o vice-reitor
Leandro Becker, ficaria na Ulbra.
Os passos do reitor e da sua família vinham
sendo monitorados pela Justiça Federal
nos dias que antecederam a renúncia.
Na noite de quinta-feira, 16, durante
assembleia de professores da Ulbra no Clube
Caixeiros Viajantes, em Porto
Alegre, vazaram informações
sobre os bastidores da
crise. A Celsp teria dado um
prazo para que Becker renunciasse.
A apreensão dos
passaportes do reitor e dos
familiares dele chegou a ser
cogitada para impedir uma
eventual fuga do país, o que
colocou o Judiciário em alerta.
Após as insinuações do ex-reitor
de que
sua renúncia seria apenas pró-forma,
o juiz
federal de Canoas Guilherme Pinho Machado,
titular das execuções fiscais da Fazenda
Nacional que cobram da Ulbra dívidas de R$2 bilhões,
expediu um mandado de busca e apreensão
de documentos pela
Polícia Federal no prédio
da Reitoria do campus
Canoas. No final da tarde
do dia 17, viaturas da PF
bloquearam a entrada da
Reitoria no campus. Os
agentes recolheram computadores
e lacraram as portas
laterais do prédio. Àquela altura, começava
a assembleia da Celsp para eleger o novo
reitor e já eram conhecidos os candidatos ao
cargo. Apesar das suas manobras, Becker seria
derrotado mais uma vez.
Foto:
René Cabrales
Operação
da Polícia federal em Canoas
O candidato que veio do Uruguai
A mantenedora hesitou até o dos docentes último
momento em assumir uma
posição em relação à crise.
Ocorre
que o ex-reitor, a quem a comunidade
luterana atribui o feito de ter
transformado uma escola numa das
maiores universidades privadas do
país, pouco ou nada dava de satisfações
a quem quer que seja. Muito
menos ao Conselho Fiscal da
Celsp. Em fevereiro deste ano, a
mantenedora aprovou o balanço
patrimonial de 2008 que ostentava
um fictício superávit de R$ 76
milhões, enquanto era de conhecimento
público que a Ulbra fechara
o ano de 2008 à beira do
colapso, sem pagar salários, com as
contas bancárias bloqueadas pela
Justiça, servidores em greve e com
dívidas bilionárias.
Diante da resistência da Celsp
em assumir uma posição firme em
relação ao substituto de Becker,
um grupo de conselheiros resolveu
agir. Eles recorreram ao estatuto da
entidade e, com um quinto dos
votantes, conseguiram legitimar
uma assembleia para fazer a
eleição.
A instituição tem 1,8 mil
membros, dos quais 62 têm direito
a voto.
Foto:
René Cabrales
Novo
reitor da Ulbra,
Marcos Ziemer
“Já que a direção da Celsp não
havia buscado uma assembleia,
consultamos o estatuto e constatamos
que a decisão poderia ser
tomada se reuníssemos um quinto
dos membros aptos a votar. Não foi
um golpe. Estávamos preocupados
com o clamor público. Se não agíssemos,
alguém agiria por nós, pois
a eleição era a única saída viável”,
relata o professor de cultura religiosa,
coordenador do curso de Jornalismo
da Ulbra e membro votante da Celsp, Douglas Flor. “Quem
votou contra Marcos Ziemer o fez
não por uma questão pessoal, mas
por fidelidade ao ex-reitor”, avalia.
O pró-reitor adjunto de graduação
da Ulbra Canoas e ex-diretor
da unidade de Palmas (TO), Marcos
Ziemer, foi o candidato bancado
pelos conselheiros. Seu oponente,
Mauro Roll, diretor do colégio
uruguaio Liceo San Pablo da Ulbra
e candidato articulado pelo ex-reitor
na última hora, acabou derrotado
por 46 votos a 10. Seis conselheiros
se abstiveram de votar. A
assembleia na sede da mantenedora
foi acompanhada por uma
manifestação de professores, técnicos
e alunos da universidade. Às
23h, em coletiva para jornalistas,
Ziemer anunciava suas metas para
reestruturar a Ulbra e assegurava
que a prioridade seria resgatar as
relações institucionais, a transparência
e o foco na Educação. “Apostamos
muito na figura do Marcos
Ziemer, que é idôneo, ético e conhece
os princípios luteranos”, avalia
Douglas Flor.
Cultura de arrogância e apropriação
da Ulbra
“A saída do ex-reitor Ruben Becker, na avaliação
dos professores, não assegura o fim da cultura de arrogância
e da apropriação privada da instituição.
Por
isso, reivindicam a mudança de toda a equipe diretiva
comprometida com a antiga Reitoria”, informa Marcos
Fuhr.
Para o dirigente do Sindicato dos Professores, o
movimento pela saída de Becker começou em 2008. “Sempre
tivemos bem claro que a gestão sem foco,
centralizada na figura do reitor e a cultura de arrogância
que se disseminou na instituição eram a origem
da crise. Os professores vinham denunciando isso à
opinião pública desde o ano passado. Pela sua coragem,
os professores se credenciaram a protagonistas
de uma mudança histórica na Ulbra”, ressalta
Fuhr. “Na greve de 2008, a adesão atingiu
15% dos professores ao passo que a mobilização que
culminou com a saída do reitor chegou a 80% dos docentes
no conjunto da instituição”, compara.
Em outubro de 2008, o jornal Extra Classe obteve,
em entrevista exclusiva do advogado Reginaldo
Bacci, contratado pela Reitoria para administrar o
colapso que já se desenhava na Ulbra, publicou o
tamanho da crise com base em números fornecidos
pela própria instituição: as dívidas
da Universidade
somavam nada menos que R$ 2,3 bilhões.
Futuro pode ser diferente
Além da busca por salários
atrasados e da campanha
pela destituição
da antiga Reitoria, os
professores ressaltaram
durante as mobilizações
a defesa da Universidade
enquanto espaço de
ensino e de trabalho.
Para muitos docentes,
alguns formados pela própria
instituição, a renúncia
do reitor representa
a possibilidade do
surgimento de “uma nova
Ulbra”, como já defendiam nas
assembleias e nos atos públicos.
No dia 20 de abril, foi realizada
reunião de uma comissão de
professores com o novo reitor para
apresentar a pauta de reivindicações
relativas à reestruturação
política, administrativa e acadêmica
da Ulbra. O encontro estabeleceu
o compromisso do novo
reitor com a transparência nas
relações da Reitoria com os docentes.
No dia 22, a assembleia
dos professores foi realizada no
campus Canoas. O encontro decidiu,
por maioria de votos, encerrar
a paralisação e manter o
movimento por mudanças estruturais
na instituição. “A eleição
do novo reitor é uma possibilidade
de mudança e ela só se concretizará se
os professores se mantiverem mobilizados. Não estamos
dando um cheque em branco ao
novo reitor, ele está preenchido
com as nossas reivindicações”,
resume o professor de História e
Pedagogia da Ulbra Guaíba,
Carlos Hees.
Foto:
René Cabrales
Assembléia
de professores foi realizada no Campus Canoas
“A grande mobilização
dos servidores
e professores do
complexo Ulbra foi
decisiva para que a
realidade sobre a
crise da Universidade
chegasse às ruas
e passasse a ser pauta
diária da imprensa
e interesse maior
dos parlamentares”,
avalia Hees. Para
ele, durante o processo
formou-se a convicção de
que “somente com a queda do
reitor seria possível vislumbrar um
futuro diferente para a Universidade,
que não fosse o caos”. “Agora,
com essa importante vitória da
comunidade universitária, temos
que nos manter mobilizados, unidos
e vigilantes para garantir que
a Ulbra efetivamente mude, tendo
uma gestão transparente,
focando-se na Educação e democratizando
suas relações internas”,
alerta.
Um
ano de mobilização dos docentes
A partir de março de 2008,
os salários dos professores começaram
a atrasar de forma sistemática.
A postura das chefias
e coordenações de cursos,
sempre marcada pelo desrespeito
e pouca consideração por
docentes e alunos, se deteriorou
de vez. Entre os professores,
a memória das mobilizações
não era das melhores, pois uma
das marcas do ex-reitor sempre
fora o desrespeito à liberdade
de manifestação e de organização
dos docentes. “Em 2001,
professores da Ulbra Canoas
que se manifestaram em uma
assembleia no Sinpro/RS foram
sumariamente demitidos”,
exemplifica Marcos Fuhr, diretor
do Sinpro/RS.
Apesar das condições desfavoráveis,
começava naquele
mês uma mobilização que mudaria
a história da Ulbra, com
a realização de assembleias de
professores e uma paralisação.
A crise, que para os docentes
era visível, assim como as suas
causas, passaram a ser denunciadas à opinião pública.
Em novembro, os professores
deflagraram uma greve que
duraria nove dias. Por meio de
ações judiciais do Sinpro/RS, as
contas bancárias da Ulbra foram
bloqueadas e os recursos
foram priorizados para pagar
salários atrasados. Após o recesso
dos alunos e as férias, com
3,3 folhas em aberto, os docentes
aprovaram em assembleia
uma proposta de parcelamento
feita pela própria instituição e
que acabou não sendo cumprida.
O acordo salarial foi denunciado
na Justiça do Trabalho e
está em execução judicial.
Com o atraso do salário de março,
os professores entraram novamente
em greve, juntandose
aos técnico-administrativos
e funcionários da área da saúde.
Além dos salários, passaram
a exigir o afastamento de Ruben
Becker e de toda sua equipe.
NOVA REITORIA – Em coletiva à imprensa,
o reitor Marcos Ziemer anunciou os
nomes do Comitê Gestor da Crise: José Luiz
Duizith,gestor educacional e especialista em informática;
Erivaldo de Brito,economista; Jonas Dietrich, advogado;
e Augusto Ernesto Timm Neto, contabilista.
Foram nomeados ainda o vice-reitor
Valter Kuchenbecker e os pró-reitores
Ricardo Müller (Administração),
Ricardo Prates Macedo (Graduação),
Erwin Francisco Tochtrop Júnior (Pesquisa
e Pós-graduação)
e Ricardo Willy Rieth (Extensão).
Segundo Ziemer, a auditoria do Comitê Gestor
da Crise poderá indicar outras mudanças
na instituição e a substituição
de
direções das unidades de Educação
Básica
não estaria descartada, dependendo
do diagnóstico. No final de abril foram
afastados pelo menos dez membros da
Reitoria e de setores ligados à administração
do campus Canoas.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br