
Censo
verbográfico

ão
se sabe como a ONU e a OMS, duas instituições reconhecidas
por idealizarem o mundo em que vivemos (uma
através do impossível apaziguamento universal e outra
por
meio de uma inalcançável saúde
mundial), ainda não cogitaram, juntas,
de um censo daquilo que mais
usam em seus teimosos propósitos: as
palavras.
Antes que o projeto pareça delírio,
melhor justificar a ideia: se viéssemos
a saber a dimensão dos estoques
de vocabulário em todas as línguas
e dialetos, talvez se conseguisse
melhorar as chances dessas empreitadas
linguísticas pelo bem da humanidade.
Parta do princípio que estamos todos
perdidos numa mesmice, um
emaranhado de palavras desgastadas,
chavões impostores, clichês
imprestáveis. Há muito as palavras de
ordem se desordenaram, perderam
tanto o sentido quanto a eficácia.
Daí o fracasso dos discursos de incentivo à
paz e da fraqueza da orientação
ao modo de vida saudável. E
fica-se nesse redemoinho sem fim, sem reparar nos milhões
de palavras
ainda nem tentadas nessas negociações utópicas.
Por isso urge uma contagem das palavras disponíveis no planeta.
Seria a esperança de se encontrar termos invictos e verbetes
convictos, livres dos cacoetes, fora das conversas-fiadas, distantes das
ladainhas. Palavras virgens em seu potencial argumentativo, com
impacto para influir, convencer e decidir. Avalie a riqueza
oculta em centenas de idiomas: quantas palavras não anseiam
uma
oportunidade para expor a força da
sua loquacidade por uma causa
nobre? Temos que ir atrás delas e
verificar sua habilidade verbal, sua
energia expressiva.
Para este monumental levantamento,
não basta, porém, burocratizar
a busca. Senão, bastaria reunir
todos os dicionários e enciclopédias
já publicados e contabilizar
o imensurável volume de palavras
catalogadas. Não. Este censo precisa
ir de boca em boca, coletar
palavras insabidas, impronunciadas,
indisseminadas.
Seria um esforço descomunal,
onde equipes espalhadas pelo mundo
iriam conferir quantas palavras
cada um dos 7 bilhões de falantes
dispõe. No final, a totalização dos
acervos individuais nos mostraria o
real tesouro vocabular. Imagine a
contribuição de um simples dialeto,
com uma única palavra, de serventia exata, que conclame
sem
apelar para lemas. Calcule o benefício de um só monossílabo
de
sinceridade avassaladora. O que este censo pode obter é um
novo
senso de linguagem.
Ah, a proposta parece inviável? Sei, só utilizei
palavras manjadas.
