ENVELHECIMENTO O
que é inevitável e
o que dá para escolher
“Envelhecer é inevitável, deteriorar é opcional”,
defende o médico Marcelo Blaya Perez, 84 anos, que
acaba de lançar
o Velhas e Velhos Anônimos, o Viva, um programa nos
moldes dos Alcoólicos Anônimos, com o objetivo
de encarar
melhor a velhice. São reuniões semanais para
falar desta fase da vida e evitar a decadência resultante
do sedentarismo,
alimentação desequilibrada e convivência
desarmônica consigo e com os outros.
Por Stela Pastore
psicanalista
criador do programa
é
prova da possibilidade
de estar muito vivo mesmo
numa etapa da vida considerada
menos ativa. Caminha todos
os dias, lê e escreve sistematicamente,
está sempre envolvido com
alguma atividade, cultiva diferentes
relacionamentos e se alimenta
com equilíbrio. No cotidiano, Marcelo
pode ser visto na companhia
de seus cinco pastores alemães andando
em seu sítio. E tem planos:
comemorar os cem anos acompanhado
de seus cães e compartindo
os dias com seus contemporâneos.
Há um número cada vez maior
de idosos no mundo. Avanços no
combate a doenças, melhora da
qualidade de vida em regiões
empobrecidas, redução da taxa de
natalidade contribuem para este
cenário. A alteração da estrutura
etária é um fenômeno sem precedentes
na história.
Justamente para aportar bem
nesta etapa da vida, Blaya propõe
o desafio da multiplicação de grupos
Viva, para estimular posturas
que garantam maior qualidade nesta
fase após os 60, nominada por
ele como a da descida da montanha,
onde aparece a maioria dos danos
produzidos pelo modo antinatural de
viver as décadas iniciais.
Há meio século Blaya foi pioneiro
no Brasil ao criar a Clínica
Pinel para tratar de pacientes com
doenças psíquicas e dependentes
químicos, estabelecendo a primeira
comunidade terapêutica, a primeira
residência para formação de
psiquiatras e a primeira pensão protegida.
Agora, frente a esta condição ímpar
de uma humanidade majoritariamente
madura, reflete sobre
a necessidade de práticas mais
sadias para esta jornada coletiva
mais longa antes da morte.
“Os meus pacientes me ensinaram
como lidar com o louco que
há em mim. Agora que tenho 84
espero que outros da mesma faixa
me ajudem a viver esses quem sabe
mais 20 ou 30 que tenho pela frente”,
declara.
Os passos do Viva
As reuniões ajudam a preparar um envelhecimento
onde
a catástrofe da decadência seja evitada
ou recuperada. O
início da dinâmica do trabalho no grupo é a
importância da
musculatura na saúde e dos exercícios
que liberam a endorfina
produzida que aguenta 24 horas no organismo; os cuidados
com a alimentação. Depois, a importância
do relacionamento
com o outro, a vida familiar e comunitária,
o entrosamento e
o respeito mútuo.
Sedentarismo
e suicídio
A previsão genética de vida para os humanos é de
110 anos
para o homem e 120 anos para a mulher. Morrer antes
dos 100
anos é suicídio pela não garantia
das condições do animal humano
de alcançar esse patamar. Uma pessoa que fuma,
bebe
ou se droga exageradamente só apresentará as
consequências
do mau trato décadas mais tarde. É um
suicídio a prazo, reflexo
da forma de viver autodestrutiva. A vida sedentária é uma
ameaça
tão séria à normalidade biológica
como o uso abusivo de
tabaco, álcool ou velocidade. A falta de exercício
traz danos
corporais gravíssimos, e uma porção
alarmante de pessoas é obesa.
O sedentarismo geralmente acompanhado da obesidade
leva à morte precoce.
Dependendo de como é encarada,
a aposentadoria
pode ser um risco. Na ativa, há uma rotina de
trabalho e
movimento, sair de casa, relacionar-se, integrar-se
com o meio.
Quando alguém se aposenta há uma possibilidade
de inércia
mais assassina que três maços de cigarro
por dia. Se juntar aposentadoria,
falta de exercício e obesidade, tá pedindo...
Prevenir catástrofes
corporais
O corpo tem a capacidade extraordinária
de curar-se, quando
estimulado de modo certo.
Um modus vivendi sadio nos proporcionará um
envelhecimento livre da decadência, que traz o mau
envelhecer. Cuidados com o corpo evitam catástrofes como
enfartes, acidentes vasculares
cerebrais, câncer, tendinites,
artropatias, Alzheimer, Parkinson,
etc. O corpo tem um processo
de destruição e de reconstrução
contínuo. O corpo não
mente. É preciso encarar o que
fazemos conosco. A verdade é dura de saída,
mas a longo prazo
se tira proveito.
Velho é quem
para de sonhar
O aniversário não é mais um, é menos
um. É como
um cesto de jabuticabas: cada uma que como é menos
uma no cesto. O envelhecimento cronológico é inevitável.
Mas há um outro muito mais sério,
que é o envelhecimento da decadência.
Quando a pessoa
para de sonhar, quando começa a imaginar que a
morte é uma desgraça, quando perde o prazer de acordar
de manhã e dizer: ‘ai que bom que tá chovendo
hoje’... Quando perde as fantasias, as ilusões, todo
esse prazer de estar vivo, tá velho! E pode perder
isso com 20, 30, 40, com 50, 60. Por isso digo que o
grupo é aberto a todos os velhos a partir dos 18 anos.
Gostar
de si
Visitei duas vezes o Ivo Pitangui na Ilha dos Porcos, no
Rio de Janeiro. Ele falou de uma pessoa que fez 30 plásticas
e ele se recusou a fazer mais uma. A cirurgia plástica
tem uma função reabilitadora para consertar um estrago,
um acidente, algo assim. E tem outra função encobridora.
Se tu não gostares das tuas rugas, do cabelo branco, podes
remodelar com plástica, tinta... Mas lá dentro, se
tu não
gostares de ver que teus sonhos, as fantasias vão ficando
cada vez mais longe, não tem como fazer plástica
pra isso.
Ou aprendes a conviver e a gostar disto que tu já não
tens
e aproveitar o que tu ainda tens, ou tu vais ser muito infeliz.
Este envelhecimento é triste, pobre, mau, que é o
de
não poder sonhar e viver.
Sexo e comida
Na vida há duas coisas muito valorizadas:
comida e sexo. Não precisa parar
com nenhuma. A pele é o grande órgão
sexual do corpo humano. Se eu me
massageio no banho é um prazer grande.
Se eu estou com o braço fora do
lençol e a minha cadela me lambe quando
eu acordo, é uma grande satisfação.
O prazer do corpo é indescritível. As
pessoas pensam que transar é só o ato
em si. De vez em quando até que é bom,
mas depois dos 70, 80, 90, não vai atrás
disso. Provavelmente o animal dentro
de ti não tenha a mesma capacidade.
Pobreza
e velhice
Duas coisas são trágicas.
Não ter dinheiro suficiente
para as coisas mais elementares.
Pobreza é isso. Ou ter
tanto dinheiro que não seja
capaz de viver tranquilo.
Uma coisa é ter que ir pra
um asilo e ficar dependendo.
Mas se tem dinheiro para
comprar roupa, remédio, comida, é
do que se precisa.
Escolas
para velhos
O novo cenário mundial
com número crescente de
velhos exige um reaprendizado
social, uma nova cultura
de convivência. Nestes
dois grupos iniciais do Viva
tem quatro mães e quatro
filhas. Interessante constatar
que as gerações ficam muito
próximas na medida que
envelhecem. Nós não tínhamos
essa experiência há 50 anos. Também não tínhamos
a tradição de mandar
crianças pra escola. Isto
tem pouco mais cem anos.
E a escola trouxe uma nova
cultura.
Agora estamos precisando
muito de escolas para os
velhos. Por exemplo, é preciso
de mais cursos para ensinar
informática para pessoas
com mais de 60 anos.
Possivelmente estas pessoas
que estão em casas geriátricas
aproveitariam muito se
tivessem conhecimento para
usar o computador. De manhã,
após minha caminhada,
vou ver no email quantos se
lembraram de mim.
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