IPEA Estudo
mostra que não há
"inchaço" no serviço público
Por Marco Aurélio Weissheimer
Arte
Rodrigo Vizzotto/D3 Comunicação
Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea) divulgou em abril um estudo
que aponta que a participação do
emprego público é pequena no Brasil, ao
contrário do discurso que afirma um suposto
gigantismo do Estado brasileiro. Segundo
o estudo, o percentual de servidores
entre o total de ocupados não chega a 11%
e é inferior a 6% se comparado ao conjunto
da população.
Intitulado Emprego Público no Brasil:
Comparação Internacional e Evolução
Recente,
o levantamento sustenta que não há razão
para se afirmar que o Estado brasileiro
seja um Estado “inchado” por um suposto
excesso de funcionários públicos. Comparando-se
com o total de pessoas ocupadas,
o Brasil tem menos servidores que todos os
parceiros do Mercosul e fica atrás de países
como Estados Unidos, Espanha, Alemanha
e Austrália e muito atrás de Dinamarca,
Finlândia e Suécia.
Mesmo nos Estados Unidos, a mais importante
economia capitalista do planeta,
caracterizada por um caráter fortemente
privatista e por um elevado contingente
de postos de trabalho no setor privado, o
peso do emprego público chega a 15% dos
ocupados, revela o estudo. A maior proporção
do emprego público nos países desenvolvidos,
em comparação com o caso
brasileiro, aponta o estudo do Ipea, devese,
em grande medida, ao fato de que, “especialmente
ao longo do pós-segunda
guerra, consolidaram-se naqueles países
os chamados Estados de Bem-Estar Social,
que representaram o principal fator
responsável pela expansão do peso do
emprego público nos respectivos mercados
de trabalho destes países”. Não é por
acaso que os opositores deste modelo
são defensores das teorias do Estado
mínimo e suas variantes. São concepções
gêmeas.
A existência do Estado de Bem-Estar
Social nesses países, destaca ainda o documento,
caracteriza-se pela ampla oferta
de serviços públicos, baseados em políticas
sociais universalistas, que, para serem
executadas, necessitam de mão-deobra
empregada no setor público ou em
atividades a ele relacionado. Esta é a principal
razão pela qual, nos países desenvolvidos,
existe uma maior participação
de empregos no setor público do que nos
países pobres e subdesenvolvidos.
O
peso do emprego público na América Latina
Na comparação com os demais países
da América Latina, também não há um “inchaço” do serviço público.
O estudo do
Ipea toma como referência dados da Comissão
Econômica para a América Latina
e o Caribe (Cepal) de 2006. Entre 16 países
avaliados, em sete deles o peso do emprego
público é maior do que no Brasil. Em
vários outros casos, o peso do emprego público é
semelhante ao do Brasil, e somente
em países muito pobres do continente,
como Bolívia e Equador, assim como na
Colômbia, o peso do emprego público no
conjunto do mercado do trabalho é menor
do que no Brasil. Considerando-se os anos
mais recentes (desde 2000), percebe-se,
aponta o Ipea, que, estruturalmente, na
Argentina, na Costa Rica, no Panamá, no
Uruguai e na Venezuela o peso relativo do
emprego público é maior do que no Brasil.
Mais do que isso. O estudo mostra ainda
que o crescimento do emprego privado
vem sendo maior do que o do emprego
público. Em 2003, os empregados do setor
público representavam 27% do total de
ocupados do setor formal do mercado de
trabalho brasileiro e, em 2007, apenas 25%
(em 1995, essa proporção era bem maior:
32,7%). Dessa forma, conclui o documento,
a expansão do emprego público nos anos
mais recentes (especialmente entre 2003
e 2007) apenas acompanhou o dinamismo
da economia e seus efeitos positivos sobre
o mercado de trabalho brasileiro.
A
crise e o papel do setor público
Em suas conclusões, o estudo
do Ipea
defende que “no atual contexto de crise,
em especial, é justamente o momento
para se discutir o papel que pode assumir
o emprego público na sociedade brasileira.
Os indicadores não revelam nenhum
inchaço do Estado brasileiro,
quer seja sob o ponto de vista de sua
comparação com o tamanho da população
ou em relação ao mercado de trabalho
nacional”.
Existe espaço, sustenta ainda o instituto, “
para a criação de ocupações
emergenciais no setor público brasileiro,
especialmente nas áreas mais afetadas
pelo desemprego, ou seja, o emprego
público – mesmo que em atividades
temporárias – poderia servir como um
instrumento contracíclico (certamente
não suficiente para compensar todos os
postos de trabalho que serão eliminados
no setor privado) pelo menos enquanto
durarem os efeitos da retração
econômica mundial sobre a economia
brasileira”.
Os dados apontados pelo Ipea adquirem
renovada força no atual contexto
de crise econômica internacional.
Diante do desmoronamento do sistema
financeiro e do enxugamento de crédito,
os Estados passaram a ser a “tábua
de salvação” para banqueiros e
empresários à
beira da falência. Os mesmos
setores que sempre defenderam a diminuição
do Estado. O que é incrível notar é
que, mesmo com esse cenário de
extrema gravidade, os críticos do Estado e do
serviço público seguem repetindo
um discurso ideológico que tem
cada vez menos base na realidade.
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