SANTANA DO LIVRAMENTO A
história da imprensa brasileira
Museu Ivo Caggiani, que será aberto
neste mês de maio em Santana do
Livramento, possui em seu acervo
originais e cópias de quase todos os
jornais da região, desde o final do
século 19, além de 600 peças relacionadas à
vida política e militar do
município
Por Cleber Dioni Tentardini
município
de Santana do Livramento, na
fronteira-oeste do estado, dá um importante
passo este mês no resgate da memória
da imprensa brasileira com a inauguração
do Museu Ivo Caggiani, antigo Museu
da Folha Popular. Em seu acervo estão originais
e cópias de quase todos os jornais da
região da fronteira, desde o final do século
19, além de dezenas de livros e documentos.
O museu, que leva o nome de um dos mais
destacados historiadores gaúchos, falecido
em 2000, possui ainda mais de 600 peças relacionadas à
vida política e militar de Livramento,
além de fragmentos arqueológicos.
Uma área de 180 metros quadrados no
subsolo do Palácio do Comércio está sendo
reformada para receber as peças do museu,
que funcionava numa chácara no Cerro do
Registro. Está fechado já há alguns anos.
A Associação Comercial e Industrial do
município (Acil)
está à frente da
iniciativa. Em
2004, o então presidente
da entidade,
Vitor Hugo
Fialho, buscou
autorização da família de Caggiani e recursos
financeiros para transferir as peças do
museu.
A ideia inicial era construir um prédio
anexo ao do Comércio, as obras foram iniciadas,
mas pararam por falta de dinheiro. O
subsolo virou alternativa só depois do término
do contrato com um locatário. A entrada
principal será defronte à Praça Internacional.
A secretária-executiva da Acil, Maira
Araújo, se encarregou da catalogação do
acervo. “Nós procuramos a dona Jurema e
felizmente encontramos um museu muito
bem conservado”, explica.
Ela calcula que o total gasto com as reformas
gire em torno dos R$ 18 mil. “Depois de
recebermos um aval técnico de um arquiteto
para avaliar se o subsolo era apropriado,
fomos em busca dos recursos”, explica Maira.
Além dos associados, a Eletrosul se engajou
no projeto e disponibilizou R$ 7 mil como
apoio cultural. A Acil está bancando todo
material e o 7º Regimento de Cavalaria do
Exército disponibilizou a mão-de-obra para
as reformas.
Maira salienta, no entanto, que a Acil não
desistiu da construção do prédio. “O
espaço
aqui não comporta todo o acervo. Algumas
esculturas e material bélico poderiam ser melhor
aproveitados se tivéssemos um local maior
para abrigá-los”, destaca a secretária-executiva.
Ela lembra ainda que há o acervo literário
de Caggiani, guardado na casa da viúva.
Tem livros de sua autoria e de terceiros,
trabalhos científicos do historiador, exemplares
de diversos jornais e dos cadernos literários
escritos por Caggiani. “A proposta a
médio e longo prazos é digitalizar todo esse
material”, explica Maira.
Entre chimangos e maragatos
As peças começaram a ser catalogadas em dezembro
de 2005. “Calculo
que tenha mais de 600 peças”, diz Maira. Embora fosse
republicano, Caggiani
colecionou objetos de líderes maragatos como Honório
Lemes e Rafael
Cabeda.
Consta na relação do acervo fotos antigas da cidade
e de quase todos os
intendentes municipais, além de roupas, armas e objetos
pessoais de Caggiani
e outras personalidades, como a primeira máquina de escrever
usada no
jornal A Platéia, do jornalista Carlos Varella; um uniforme
e o chapéu usados
pelo general santanense José Antonio Flores da Cunha; objetos
do
general João Francisco Pereira de Souza, do jornalista,
líder federalista de
1893 e deputado federal Rafael Cabeda, e do poeta e jornalista
Manoel
Cabeda Perez, cópias de documentos relativos à fundação
de Livramento; e
cópias e originais de jornais que circularam em vários
municípios, como o
Correio do Sul, O Pallas, O Republicano, O
Popular (S. Livramento),
A
Thezoura (Jaguarão), A Grinalda, O Diógenes (Porto
Alegre), Aurora (São
Borja), A Lyra (Bagé), O Cidadão (Quaraí)
e O Porvir (Pelotas).
“O Caggiani tinha uns 20 anos quando
o seu professor, o historiador
Dante de Laytano, o incumbiu de três missões: escrever
a história da cidade,
criar um museu e escrever a biografia do Canabarro, mas ele fez
muito
mais pelos santanenses e pela própria cidade, não é?”,
afirma dona Jurema.
Jornalista
sofreu 27 prisões
Ivo Nicolás Caggiani, santanense, nasceu no
dia 27
de maio de 1932. Foi casado com Jurema Fernandes, e
teve uma filha, Ester. Exerceu cargos públicos
e foi membro
de instituições culturais. Dirigiu as
redações de O
Republicano, Diário do Sul, O
Anglicano e Folha
Popular,
todos em Livramento.
Na Folha Popular, cujo jornal Caggiani reabriu em fevereiro
de 1955, o jornalista enfrentou sérios problemas
com os militares a partir de 1961, quando ele criou
um
comitê de apoio ao Movimento da Legalidade, liderado
pelo então governador Leonel Brizola. O jornal
sofreu
várias intervenções e Caggiani
foi preso 27 vezes.
Dentre as 26 obras publicadas de sua autoria, mais
da
metade abordam fatos históricos de Livramento,
como
Vultos de Sant’Ana (1° e 2° vol), Sant’Ana
do Livramento –
150 anos de história, três volumes, e
O Poder Legislativo
em S. do Livramento. Dentre as biografias, destacam-se
Carlos Cavaco, Vitélio Gazapina, um Benemérito
de
Sant’Ana, João Francisco – A Hiena
do Cati, David
Canabarro, de Tenente a General, Flores da Cunha – Livro
Biográfico, e Rafael Cabeda – Símbolo
de Federalismo.
Caggiani faleceu em 19 de abril de 2000.
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