Ano 8 - nº 69
Março 2003



Luis Fernando Verissimo:
A alegação do deputado Pinheiro Landin de que não pode mais ser processado porque seu mandato agora é outro, o que significa que para todos os efeitos legais ele também é outro, não deve ter causado muito estranheza entre os seus pares.





Nei Lisboa:
Que maravilha ser pai, descubro. Chegou minha vez, já meio pra vovô, de escutar um “toma que o filho é teu”. São mesmo indescritíveis as emoções do parto e dos primeiros momentos de um ser humano fora da barriga da mãe.





Elisa Lucinda:

Por causa dela me criei transparente, corri riscos, briguei com grandes e defendi inocentes. Agite bastante , por ela, as porções de ingredientes do conhecimento antes de usar. Por ela, e em sua confiança, me lancei na estrada nebulosa e definida do sonho...







A leitura que vem do lixo

As cidades de Porto Alegre e Montenegro contam com um serviço que se poderia chamar de “salva-livros”. Recicladores de lixo urbano, por iniciativa própria, montaram bibliotecas com livros encontrados em suas garimpagens diárias, dando acesso gratuito à leitura não só para si, mas também para muitas pessoas que dificilmente teriam condições de comprá-los. Tal qual mergulhadores que caçam tesouros marítimos em meio a destroços de navios, eles resgatam as palavras de dentro das lixeiras, trazendo-as novamente à luz e colocando-as à disposição de quem as queira. O fato nos faz lembrar da importância da separação de dejetos. Mesmo assim, boa parte da população das grandes cidades ainda não se convenceu da importância da separação do lixo. Na capital, por exemplo, apenas 17% do lixo reciclável tem o destino devido, conforme dados do DMLU (uma diminuição em relação aos dados de 2000, que apontavam 25%). Ao todo são coletadas diariamente 300 toneladas de lixo que poderia ser reaproveitado. Deste total apenas 50 toneladas/dia seguem para os galpões de reciclagem. (leia também Extra Classe edição 46 – Out 2000)

Marcia Camarano

m Montenegro, logo na entra da da casa de Paulo e Regina Gustafson, na parte mais nobre, a sala, foi instalada a biblioteca reciclada “Flores no Amanhecer”, inaugurada em agosto do ano passado, somente com obras encontradas no lixo. Eles trabalham há 12 anos catando o que a sociedade joga fora para ser reaproveitado. Muita coisa é transformada em dinheiro para sustentar a família. Outras tantas são aproveitadas na própria residência do casal, como móveis e decoração. “O material que temos aqui vem das ruas”, mostra Regina.

Livros encontrados representam mais uma aquisição para a biblioteca. Muitos chegam sujos, rasgados, em estado precário. Paulo os arruma, um a um. Com cuidado e fita adesiva, ele faz com que cada exemplar fique em condições de ser manuseado. “Sempre fui apaixonada por livros e escritores, e meu marido gosta de ler. Para nós é um prazer esse trabalho”, conta Regina, que estudou até o quinto ano primário, enquanto o marido tem ainda um ano menos.

São 30 anos de casamento. No começo, tinham profissão, ele - motorista de táxi, ela - cozinheira. Com a idade avançando, chegou também a falta de serviço e a alternativa encontrada foi ir para as ruas, catar lixo. Ultimamente o filho e a nora têm feito esse trabalho, pois Paulo, com problemas cardíacos, agora passa os dias fazendo o que mais gosta: receber crianças em sua biblioteca, que já conta com um acervo de 3.800 exemplares. “Ela está aberta para o montenegrense, especialmente para os filhos de recicladores”, informa Paulo.

Claro que a biblioteca chegou a esse número com a ajuda também de particulares. Caso do escritor Ziraldo que, ao saber do projeto do casal Gustafson, anunciou a doação de 1.600 exemplares de sua obra e também de outros autores. O casal se encontrou com Ziraldo em dezembro, em Porto Alegre, durante a entrega do Prêmio Pandorga, da TVE. O ponto em comum, gostar de crianças, uniu-os e o projeto de Paulo e Regina encantou o pai d’O Menino Maluquinho.

RARIDADES – Na biblioteca são encontrados os mais variados temas e, incrível, raridades. “Esses dias um BM (policial militar) chegou aqui desesperado, ele tinha percorrido várias bibliotecas para encontrar “Espelho”, de Machado de Assis, para a sobrinha, que precisava dele para um trabalho de faculdade. Achou aqui”, orgulha-se Paulo. “Temos praticamente toda a coleção de Machado de Assis”, ele diz. “Baú de Espantos”, de Mário Quintana, também está lá, para quem quiser conferir. Há “O Gaúcho”, de José de Alencar, em edição de 125 anos; e bíblias em todos os formatos, línguas, tipos, inclusive uma em alemão. Uma partitura para violinos, com 104 anos, é relíquia mostrada com muito carinho. “Para quem gosta de música, é um achado”, afirma Regina.

Como recompensa pelo trabalho, um conhecido presenteou os Gustafson com uma raridade, uma coleção de fotografias de Roma e Veneza, sob o título “Roma – R. Galleria Borghese – 40 Tavole”. Incrível é pensar que esse material foi achado no lixo, colocado fora por alguém que não viu nenhuma importância nele. Além dos livros, há na casa objetos que revelam a capacidade de aproveitamento do casal. Paulo e Regina dão vida a coisas que a sociedade qualificou como sem serventia, colocando-as fora. Como o rádio de carro, adaptado, e que agora toca as músicas favoritas de Paulo enquanto ele recupera livros em estado precário. Ou o ventilador que o refresca nas horas de trabalho, o relógio colocado na parede, os enfeites da sala. Até um celular em bom estado foi achado no lixo. Durante a conversa, Paulo revela objetos guardados com carinho, como a faca de prata com bainha e a coleção de moedas e cédulas. “Tem até uma moeda do tempo da Coroa”, conta Regina.

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