A leitura que vem do lixo
As
cidades de Porto Alegre e Montenegro contam com um serviço
que se poderia chamar de salva-livros. Recicladores
de lixo urbano, por iniciativa própria, montaram bibliotecas
com livros encontrados em suas garimpagens diárias, dando
acesso gratuito à leitura não só para si, mas
também para muitas pessoas que dificilmente teriam condições
de comprá-los. Tal qual mergulhadores que caçam tesouros
marítimos em meio a destroços de navios, eles resgatam
as palavras de dentro das lixeiras, trazendo-as novamente à
luz e colocando-as à disposição de quem as
queira. O fato nos faz lembrar da importância da separação
de dejetos. Mesmo assim, boa parte da população das
grandes cidades ainda não se convenceu da importância
da separação do lixo. Na capital, por exemplo, apenas
17% do lixo reciclável tem o destino devido, conforme dados
do DMLU (uma diminuição em relação aos
dados de 2000, que apontavam 25%). Ao todo são coletadas
diariamente 300 toneladas de lixo que poderia ser reaproveitado.
Deste total apenas 50 toneladas/dia seguem para os galpões
de reciclagem. (leia também Extra Classe edição
46 Out 2000)
Marcia Camarano

m
Montenegro, logo na entra da da casa de Paulo e Regina Gustafson,
na parte mais nobre, a sala, foi instalada a biblioteca reciclada
Flores no Amanhecer, inaugurada em agosto do ano passado,
somente com obras encontradas no lixo. Eles trabalham há
12 anos catando o que a sociedade joga fora para ser reaproveitado.
Muita coisa é transformada em dinheiro para sustentar a família.
Outras tantas são aproveitadas na própria residência
do casal, como móveis e decoração. O
material que temos aqui vem das ruas, mostra Regina.
Livros encontrados representam mais uma aquisição
para a biblioteca. Muitos chegam sujos, rasgados, em estado precário.
Paulo os arruma, um a um. Com cuidado e fita adesiva, ele faz com
que cada exemplar fique em condições de ser manuseado.
Sempre fui apaixonada por livros e escritores, e meu marido
gosta de ler. Para nós é um prazer esse trabalho,
conta Regina, que estudou até o quinto ano primário,
enquanto o marido tem ainda um ano menos.
São 30 anos de casamento. No começo, tinham profissão,
ele - motorista de táxi, ela - cozinheira. Com a idade avançando,
chegou também a falta de serviço e a alternativa encontrada
foi ir para as ruas, catar lixo. Ultimamente o filho e a nora têm
feito esse trabalho, pois Paulo, com problemas cardíacos,
agora passa os dias fazendo o que mais gosta: receber crianças
em sua biblioteca, que já conta com um acervo de 3.800 exemplares.
Ela está aberta para o montenegrense, especialmente
para os filhos de recicladores, informa Paulo.
Claro que a biblioteca chegou a esse número com a ajuda também
de particulares. Caso do escritor Ziraldo que, ao saber do projeto
do casal Gustafson, anunciou a doação de 1.600 exemplares
de sua obra e também de outros autores. O casal se encontrou
com Ziraldo em dezembro, em Porto Alegre, durante a entrega do Prêmio
Pandorga, da TVE. O ponto em comum, gostar de crianças, uniu-os
e o projeto de Paulo e Regina encantou o pai dO Menino Maluquinho.
RARIDADES Na biblioteca são encontrados os
mais variados temas e, incrível, raridades. Esses dias
um BM (policial militar) chegou aqui desesperado, ele tinha percorrido
várias bibliotecas para encontrar Espelho, de
Machado de Assis, para a sobrinha, que precisava dele para um trabalho
de faculdade. Achou aqui, orgulha-se Paulo. Temos praticamente
toda a coleção de Machado de Assis, ele diz.
Baú de Espantos, de Mário Quintana, também
está lá, para quem quiser conferir. Há O
Gaúcho, de José de Alencar, em edição
de 125 anos; e bíblias em todos os formatos, línguas,
tipos, inclusive uma em alemão. Uma partitura para violinos,
com 104 anos, é relíquia mostrada com muito carinho.
Para quem gosta de música, é um achado,
afirma Regina.
Como recompensa pelo trabalho, um conhecido presenteou os Gustafson
com uma raridade, uma coleção de fotografias de Roma
e Veneza, sob o título Roma R. Galleria Borghese
40 Tavole. Incrível é pensar que esse
material foi achado no lixo, colocado fora por alguém que
não viu nenhuma importância nele. Além dos livros,
há na casa objetos que revelam a capacidade de aproveitamento
do casal. Paulo e Regina dão vida a coisas que a sociedade
qualificou como sem serventia, colocando-as fora. Como o rádio
de carro, adaptado, e que agora toca as músicas favoritas
de Paulo enquanto ele recupera livros em estado precário.
Ou o ventilador que o refresca nas horas de trabalho, o relógio
colocado na parede, os enfeites da sala. Até um celular em
bom estado foi achado no lixo. Durante a conversa, Paulo revela
objetos guardados com carinho, como a faca de prata com bainha e
a coleção de moedas e cédulas. Tem até
uma moeda do tempo da Coroa, conta Regina.
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