Ano 8 - nº 69
Março 2003



Luis Fernando Verissimo:
A alegação do deputado Pinheiro Landin de que não pode mais ser processado porque seu mandato agora é outro, o que significa que para todos os efeitos legais ele também é outro, não deve ter causado muito estranheza entre os seus pares.





Nei Lisboa:
Que maravilha ser pai, descubro. Chegou minha vez, já meio pra vovô, de escutar um “toma que o filho é teu”. São mesmo indescritíveis as emoções do parto e dos primeiros momentos de um ser humano fora da barriga da mãe.





Elisa Lucinda:

Por causa dela me criei transparente, corri riscos, briguei com grandes e defendi inocentes. Agite bastante , por ela, as porções de ingredientes do conhecimento antes de usar. Por ela, e em sua confiança, me lancei na estrada nebulosa e definida do sonho...







Espaço maior ainda é um sonho

Com tudo isso, o casal ainda não está satisfeito. Regina e Paulo sonham com um espaço maior, para que as crianças possam estudar, usar a máquina de escrever manual (encontrada no lixo) e o computador, comprado por R$ 40,00 por mês, ao preço total de R$ 900,00. Mas a realidade do casal é bem diferente. A família e sua riqueza, a biblioteca, está abrigada em uma casa velha, com o chão tomado por cupins. “Algumas crianças entram para visitar a biblioteca, outras têm de ficar lá fora”, revela Paulo.

Sem dinheiro, os Gustafson (são oito filhos, cinco ainda em casa) têm passado fome. “Ontem, tínhamos só polenta para jantar e comemos isso no café da manhã. Não sei o que comeremos no almoço”, relatou Paulo no dia dessa entrevista. Quando revela isso, sente-se humilhado e chora. Mas o que mais o magoa é o descaso do poder público municipal, por não dar a devida atenção ao trabalho. Desiludido, ele visa estar disposto a se mudar para qualquer município que se interesse em abrigar sua biblioteca.

O contato mais direto com os livros, especialmente com os escritos de Olavo Bilac, estimularam Regina a escrever poesia. Ela se encantou com a “Vida Exuberante”, de Bilac. Encorajou-se e agora lançou seu próprio livro: “Flores no Amanhecer”, o mesmo nome da biblioteca que montou com o marido. Com pouco estudo, os erros de português são muitos, mas Regina perdeu o medo de transpor para o papel versos que sempre brotaram da boca de uma artista popular. “Escrevo não por saber, mas é algo natural, coloco no papel o que sinto”. Versos como esses: “Sou tímido, sou calado, silencioso. Sou como soneto, danço qualquer bailado, navego em altos e baixos...”.

Sim, o que para muita gente é lixo, para o casal é um tesouro, no sentido puro da palavra. Basta ver a pulseira de ouro que Regina usa, encontrada pelo marido em uma “garimpagem” pelos dejetos coletados. Mas, para eles, o maior tesouro são os livros. “Reciclando-os, devolvendo-os à condição de uso, foi a forma que encontramos de buscar nosso passado, de trazê-lo de volta”, diz Regina.

Livros na estante e comida na mesa

Iniciativa semelhante ocorre em Porto Alegre. Há seis anos funciona a Unidade de Reciclagem Cavalhada, que dá emprego para 46 pessoas. O grupo também teve a idéia de montar uma biblioteca para os trabalhadores e os meninos e meninas da comunidade com os livros encontrados no meio dos detritos jogados fora. Os trabalhadores também recuperam cadernos, lápis e todo o tipo de material escolar que são utilizados pelas crianças. Os beneficiados são filhos desses recicladores, que tiram o sustento da família do que vem do lixo.

O material reciclado é comercializado, indo para uma empresa intermediária. Cada sócio da Unidade de Reciclagem obtém uma média de R$ 350,00 a R$ 450,00 por mês. “Dividimos tudo em partes iguais, tentando fazer com que todos trabalhem”, informa Celoí da Rosa, presidente da Associação de Catadores da Cavalhada. Antes, a biblioteca funcionava no próprio galpão de reciclagem, pois o local também servia de sala de aula para os trabalhadores, que faziam parte de um programa de alfabetização da Secretaria Municipal de Educação. Mas há quatro meses o projeto foi interrompido no local e o acervo foi doado para a Escola Municipal de 1º Grau Neuza Brizola, que atende as crianças da comunidade. “O Movimento dos Catadores está negociando para que as aulas sejam retomadas, dentro do horário de trabalho porque, se não for dessa forma, vai ser impossível tocar o projeto, já que as pessoas têm casa e filhos para cuidar”, diz Celoí.

Depois da doação à escola, o grupo agora pensa em auxiliar a creche da comunidade, que atende crianças de até cinco anos, doando livros de histórias infantis e material para brincadeiras. “Pegamos material em ótimo estado, muitas escolas sabem que nós aproveitamos e já mandam tudo separado”, conta a líder comunitária. No trabalho de reciclagem de lixo, a biblioteca é só um exemplo de que tudo pode ser reaproveitado, não apenas os livros. O Clube de Mães da comunidade faz um trabalho igualmente importante, ensinando meninas adolescentes a reaproveitarem tecidos, retalhos e mesmo roupas. São feitos bordados e aplicações, tudo com material coletado. “Os produtos são lavados e, quando não dá para clarear, a gente dá um banho com chá da Índia”. Quem conta o segredo é a professora de Artesanato Cleusa Centeno. As meninas agora estão prontas para começar um novo aprendizado: bolsas e mochilas com cordão: um trabalho que começou com a dona-de-casa Grace Kelli Acunha. No início, ela queria dar ocupação e renda para as mães. “Mas quem participa mesmo é a gurizada”, constata Grace. Entre as meninas beneficiadas com o projeto está Márcia Gonçalves, de 11 anos, estudante da 6ª série da escola que recebeu os livros reciclados. Ela é usuária da biblioteca e diz preferir os livros de poesia.

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