Espaço maior ainda é um sonho

Com
tudo isso, o casal ainda não está satisfeito. Regina
e Paulo sonham com um espaço maior, para que as crianças
possam estudar, usar a máquina de escrever manual (encontrada
no lixo) e o computador, comprado por R$ 40,00 por mês, ao
preço total de R$ 900,00. Mas a realidade do casal é
bem diferente. A família e sua riqueza, a biblioteca, está
abrigada em uma casa velha, com o chão tomado por cupins.
Algumas crianças entram para visitar a biblioteca,
outras têm de ficar lá fora, revela Paulo.
Sem dinheiro, os Gustafson (são oito filhos, cinco ainda
em casa) têm passado fome. Ontem, tínhamos só
polenta para jantar e comemos isso no café da manhã.
Não sei o que comeremos no almoço, relatou Paulo
no dia dessa entrevista. Quando revela isso, sente-se humilhado
e chora. Mas o que mais o magoa é o descaso do poder público
municipal, por não dar a devida atenção ao
trabalho. Desiludido, ele visa estar disposto a se mudar para qualquer
município que se interesse em abrigar sua biblioteca.
O contato mais direto com os livros, especialmente com os escritos
de Olavo Bilac, estimularam Regina a escrever poesia. Ela se encantou
com a Vida Exuberante, de Bilac. Encorajou-se e agora
lançou seu próprio livro: Flores no Amanhecer,
o mesmo nome da biblioteca que montou com o marido. Com pouco estudo,
os erros de português são muitos, mas Regina perdeu
o medo de transpor para o papel versos que sempre brotaram da boca
de uma artista popular. Escrevo não por saber, mas
é algo natural, coloco no papel o que sinto. Versos
como esses: Sou tímido, sou calado, silencioso. Sou
como soneto, danço qualquer bailado, navego em altos e baixos....
Sim, o que para muita gente é lixo, para o casal é
um tesouro, no sentido puro da palavra. Basta ver a pulseira de
ouro que Regina usa, encontrada pelo marido em uma garimpagem
pelos dejetos coletados. Mas, para eles, o maior tesouro são
os livros. Reciclando-os, devolvendo-os à condição
de uso, foi a forma que encontramos de buscar nosso passado, de
trazê-lo de volta, diz Regina.
Livros na estante e comida na mesa
Iniciativa semelhante ocorre em Porto Alegre. Há seis anos
funciona a Unidade de Reciclagem Cavalhada, que dá emprego
para 46 pessoas. O grupo também teve a idéia de montar
uma biblioteca para os trabalhadores e os meninos e meninas da comunidade
com os livros encontrados no meio dos detritos jogados fora. Os
trabalhadores também recuperam cadernos, lápis e todo
o tipo de material escolar que são utilizados pelas crianças.
Os beneficiados são filhos desses recicladores, que tiram
o sustento da família do que vem do lixo.
O material reciclado é comercializado, indo para uma empresa
intermediária. Cada sócio da Unidade de Reciclagem
obtém uma média de R$ 350,00 a R$ 450,00 por mês.
Dividimos tudo em partes iguais, tentando fazer com que todos
trabalhem, informa Celoí da Rosa, presidente da Associação
de Catadores da Cavalhada. Antes, a biblioteca funcionava no próprio
galpão de reciclagem, pois o local também servia de
sala de aula para os trabalhadores, que faziam parte de um programa
de alfabetização da Secretaria Municipal de Educação.
Mas há quatro meses o projeto foi interrompido no local e
o acervo foi doado para a Escola Municipal de 1º Grau Neuza
Brizola, que atende as crianças da comunidade. O Movimento
dos Catadores está negociando para que as aulas sejam retomadas,
dentro do horário de trabalho porque, se não for dessa
forma, vai ser impossível tocar o projeto, já que
as pessoas têm casa e filhos para cuidar, diz Celoí.
Depois da doação à escola, o grupo agora pensa
em auxiliar a creche da comunidade, que atende crianças de
até cinco anos, doando livros de histórias infantis
e material para brincadeiras. Pegamos material em ótimo
estado, muitas escolas sabem que nós aproveitamos e já
mandam tudo separado, conta a líder comunitária.
No trabalho de reciclagem de lixo, a biblioteca é só
um exemplo de que tudo pode ser reaproveitado, não apenas
os livros. O Clube de Mães da comunidade faz um trabalho
igualmente importante, ensinando meninas adolescentes a reaproveitarem
tecidos, retalhos e mesmo roupas. São feitos bordados e aplicações,
tudo com material coletado. Os produtos são lavados
e, quando não dá para clarear, a gente dá um
banho com chá da Índia. Quem conta o segredo
é a professora de Artesanato Cleusa Centeno. As meninas agora
estão prontas para começar um novo aprendizado: bolsas
e mochilas com cordão: um trabalho que começou com
a dona-de-casa Grace Kelli Acunha. No início, ela queria
dar ocupação e renda para as mães. Mas
quem participa mesmo é a gurizada, constata Grace.
Entre as meninas beneficiadas com o projeto está Márcia
Gonçalves, de 11 anos, estudante da 6ª série
da escola que recebeu os livros reciclados. Ela é usuária
da biblioteca e diz preferir os livros de poesia.
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