Cristovam Buarque: dobrando à esquerda
Uma
cena insólita num palco emblemático. Poderia ser definida
assim a palestra de abertura do 2º Fórum Mundial de
Educação (realizado de 21 a 23 de janeiro, em Porto
Alegre), proferida pelo ministro da Educação, Cristovam
Buarque. Insólita porque era a primeira vez em muitos anos
que uma multidão de educadores e estudantes aplaudia entusiasticamente
um ministro de Estado. Emblemático porque, no imaginário
dos gaúchos, o Gigantinho não deixa de remeter às
assembléias de professores denunciando exatamente as linhas
políticas do Ministério da Educação.
Jéferson Assunção

a
noite de 21 de janeiro, representantes de mais de cem países
acomodaram-se nas arquibancadas do ginásio para assistir
à palestra do ministro da Educação do governo
Lula. Sabiam de antemão que Buarque seria a grande estrela
do FME. Afinal ele é o responsável por comandar a
educação em um governo que atrai a atenção
do mundo todo, e que promete fazer uma revolução
também na educação. Pelo menos é essa
a tônica da retórica que tem chamado a atenção
de brasileiros e estrangeiros. Por isso, não foram poucos
os europeus, norte-americanos, latino-americanos etc. que se emocionaram
com a calorosa recepção a Buarque.
Antes da palestra, o ministro conversou com os jornalistas e antecipou
alguns dos temas que levaria à platéia do Fórum,
aprofundando alguns deles. Leia a seguir o conteúdo da entrevista,
agrupado pelos assuntos sobre os quais o ministro discorreu.
As metas Os três grandes eixos de propostas
que estão sendo analisadas neste momento pelo presidente
da República, compatíveis com o programa de governo,
são, em primeiro lugar, o grande programa nacional pela abolição
do analfabetismo em todo o País no prazo de quatro anos.
Em segundo lugar, a implantação de uma escola que
seja compatível com as necessidades deste século XXI.
Em terceiro lugar, a construção de uma nova universidade
no Brasil, que seja compatível com à realidade. Uma
universidade que seja capaz de acompanhar a velocidade como o conhecimento
é feito hoje e que também esteja sintonizada com as
exigências éticas de um mundo com tanta exclusão.
Tudo isso deve ser feito acompanhando as exigências emergenciais
de cada um dos setores da educação. No que se refere
à escola ideal para o ensino básico, com a realização
de reuniões com todos os secretários estaduais e com
1.100 dos secretários municipais. Aí, juntos, construiremos
essa escola. Não haverá a escola ideal se não
houver o envolvimento dos prefeitos e dos governadores. Também
estamos realizando encontros com os reitores das universidades federais
para discutir duas coisas. A primeira: o que a universidade brasileira
pode fazer para construir um novo Brasil? A segunda: o que o governo
tem que fazer pela universidade brasileira? A partir dessas reuniões
com os reitores, nós vamos chamar um grupo que formulará
o projeto todo e em outubro vamos fazer um grande encontro nacional,
com apoio da Unesco, para debatermos como será a universidade
do Brasil pelos próximos 30 anos. A última reforma
da universidade brasileira foi feita pelos militares, a Mec-Usaid.
Mas o mundo mudou muito de lá para cá e mudou sobretudo
o governo que dirige o Brasil. Está na hora de termos um
novo projeto para a universidade, sem deixar de lado os aspectos
emergenciais necessários ao atendimento imediato das carências
da rede federal.
Alfabetização A idéia
é falar com os que quiserem ser alfabetizadores, para um
trabalho não necessariamente voluntário. Quem quiser
se envolver por conta prórpia, pode. Se o universitário
quiser fazer, acho que vai ser ótimo para a formação
dele, mas os secundaristas também podem ser alfabetizadores.
E os professores da rede pública, que quiserem, poderão
ser alfabetizadores à noite. São hoje 1,5 milhão
de professores e três milhões de universitários
e professores universitários. O que quer dizer 4,5 milhões
de pessoas perfeitamente hábeis para serem alfabetizadoras.
E a gente só precisa de 72 mil pessoas ao longo de quatro
anos, para alfabetizar 20 milhões. Não é muito...
Tirar 70 mil de 4,5milhões não é muita gente.
Pagando um pouco, este pessoal virá.
Métodos de alfabetização O
método será absolutamente livre. Quem tiver o seu
método, use... Eu fui estudante de engenharia e era alfabetizador,
num programa organizado por Paulo Freire. Ele me convidou, não
pessoalmente, mas eu participei. E eu acho que ele continua sendo
uma referência, mas não só ele. Nós temos
de ser livres. Alfabetização visa à liberdade.
Ela não pode começar sob o signo do autoritarismo
de qualquer um dos métodos existentes. O método pedagógico?
A gente quer que se desenvolvam muitos. Se amanhã inventarem
uma injeção que alfabetiza, a gente vai comprar a
injeção.
Financiamento O Brasil abandonou a educação
porque começa discutindo como financiar. A gente tem de começar
discutindo o que fazer, depois como fazer, depois, os recursos de
que precisa, depois o dinheiro. Agora, mesmo sem nenhum recurso
de fora, o governo precisaria de R$ 1,5 bilhão por ano para
a alfabetização. E R$ 1,5 bilhão é 0,1%
da renda nacional. É um em cada mil reais que este país
produz. Será que o Brasil não está disposto
a pegar um em cada mil reais e usar para alfabetização?
Custou mais caro erradicar a escravidão. E o povo brasileiro,
aliás a elite brasileira, em 1888, pagou para abolir a escravidão.
Será que não vamos pagar, agora, para abolir o analfabetismo?
É muito pouco o que vai custar isso.
Dobrar à esquerda O presidente Lula
tem dito que nós vamos governar dobrando à esquerda.
Isso tem sido dito há muitos anos pelo meu partido e significa
políticas sociais que consigam erradicar a exclusão
social no Brasil. Houve um tempo em que dobrar à esquerda
era construir a igualdade. Hoje a expressão é mais
modesta: dobrar à esquerda é não haver a exclusão.
Todos comerem, como é o programa fome zero. Todos concluírem
o segundo grau com qualidade. E só teremos isso com educação
mil. Termos um sistema de saúde que atenda de maneira muito
próxima a todos os brasileiros. Não como é
hoje. Alguns com excelentes sistemas de atendimento médico
e outros com péssimos. E todo mundo, sem exceção,
ter um lugar onde morar com água potável, coleta de
lixo e esgoto. Isso é dobrar à esquerda: fazer com
que todos os brasileiros tenham isso, mesmo que num prazo possível.
Bolsa-escola Primeiro, a idéia é
de R$ 65,00 mensais por família. Sendo que R$ 45,00 sairiam
do governo federal, mais dez reais do Estado e dez reais do município.
A diferença é de cinco vezes mais, em relação
aos R$ 15,00 atuais.
Enem e Provão Nós somos radicalmente
a favor da avaliação, tanto que queremos avaliar até
mesmo a avaliação. É preciso lembrar que o
ministro Paulo Renato deixou uma marca positiva ao instituir métodos
para isso, utilizando até mesmo um formato que eu próprio
usava quando era reitor da UnB, em 1986. E melhorou bastante. Ele
avançou nisso. Agora, nós vamos adiante. Estamos trabalhando.
Não vai haver interrupção do processo. O que
a gente fizer o será para melhor. Temos de avaliar mais rigorosamente,
mais amplamente, e de uma forma mais eficiente.
Vestibular Nunca se falou em eliminar instrumentos
de ingresso à universidade. Nunca a universidade será
capaz de receber todos os que terminam o segundo grau. É
até uma arrogância dos universitários achar
que todo mundo quer entrar na Educação Superior. Sempre
vai haver mecanismos de seleção. O que eu defendo
e que implantei, quando governador, e tentei, como reitor, é
metade dos alunos que entram na universidade serem escolhidos dentro
do ensino médio. Em Brasília, já há
sete anos, metade dos que ingressam na universidade passam graças
a notas que tiram em três provas que a universidade aplica
durante o ensino médio. Uma no final da primeira série,
outra no final da segunda e outra na terceira. Os alunos que tiverem
a maior média das três provas entram na universidade.
Com isso a gente consegue que os alunos estudem mais durante o ensino
médio e evita a tragédia da sorte de uma só
prova, de um só exame. E também facilita a integração
entre os ensinos médio e superior.
Vagas ociosas Vamos discutir com os reitores
das federais o problema das vagas ociosas e qual a forma de preenchê-las.
Essa é uma determinação que não saiu
do Ministério da Educação, mas do próprio
presidente da República. Ele me disse: eu não
quero vagas ociosas nas universidades federais brasileiras.
Eu, como ministro, vou levar adiante isso, obviamente respeitando
a autonomia das universidades.
Fies Estamos trabalhando para ter a proposta
clara para melhorar as condições de financiamento.
Esta é outra grande preocupação do presidente
Lula. Ele disse mais de uma vez que poucas coisas são mais
tristes do que ver um jovem que consegue passar no vestibular e
depois abandonar os estudos por falta de dinheiro. E nós
vamos querer resolver isso através do Fies.
Universidades privadas Se a gente avalia até
Coca-cola neste país, com um sistema sanitário, temos
de ter o sistema sanitário da educação,
que avalie tudo, que avalie inclusive o ensino universitário.
Ninguém é contra que uma pessoa invista seu capital
em uma instituição universitária. Eu prefiro
que os investimentos privados sejam para a educação
do que para os bingos. Agora, se é para ver universidade
como investimento, isso tem que ser feito com responsabilidade,
com seriedade, para que os alunos saiam competentes e satisfeitos
com aquilo que eles também investiram.
Ensino profissionalizante É preciso
dar ao ensino profissionalizante a dignidade de um ensino médio,
até porque, em alguns casos, ele é superior.
Educação no campo Nós
vamos incorporar, dentro dos grandes eixos da educação:
a criança, os jovens, o futuro, a qualidade, as mulheres,
a inclusão social, o fato de que há uma diferença
entre a educação na cidade e a educação
no campo. Houve nos últimos anos uma ditadura no sentido
de levar para o campo a cultura, os valores e a educação
característicos das cidades. Nós vamos trabalhar isso.
Ainda não temos a proposta feita, mas estamos trabalhando,
junto com um grupo do MST. Vamos procurar a Contag e formular um
eixo de educação voltado para o campo.
Situação de risco Precisamos
de uma política imediata para dois dos maiores problemas
de risco: as crianças que trabalham e a questão da
prostituição infantil e juvenil. E o programa é
simples. É uma bolsa-escola com um valor satisfatório
e um ambiente agradável. Se houver uma remuneração,
ela não vai precisar trabalhar. Se houver uma escola que
atraia, essa escola vai segurar as crianças e os jovens.
Aí nós vamos trabalhar nas duas frentes.