Dindinha
Por
causa dela me criei transparente, corri riscos ,briguei com grandes
e defendi inocentes. Agite bastante , por ela, as porções
de ingredientes do conhecimento antes de usar. Por ela, e em sua
confiança, me lancei na estrada nebulosa e definida do sonho;
estrada que a esperança constrói com inquebráveis
invisíveis estruturas, e fui de costas, de quatro, de peito,
de frente para o tal sonho. Desde pequena gostava de admirar o crepúsculo
- mesmo antes de haver em meu repertório a palavra crepúsculo
- gostava de reparar na boniteza das pessoas e descobrir muita variedade
de beleza nelas, nas vitrines, nas casas, nas flores, nas roupas,
nas tardes, e usava dela para exclamar, em alto e bom som, meu contentamento
com o mundo, meu descontentamento com o mesmo mundo , meu espanto
com suas novidades diárias e seus bordéis de cores
em tudo. Por irmandade com ela, topei viagens, fiz trocadilhos na
alta filosofia do humor, e ainda preservei a doce inquietude com
suspenses de boas vésperas no peitinho sonhador.
Por causa dela fui suspensa do colégio, apanhei uma vez de
meu pai, namorei escondido, levei profundos beliscões de
minha avó, brinquei de carrinho de rolimã, de boneca,
soltei pipa e desobedeci.
Por acreditar nela, me casei amando, tive filho , me separei, mudei
de estado, de profissão, viajei, me vesti como se fosse carnaval
para uso diário, me expus, falei coisa simples que todo mundo
vive mas finge que não. Pulei muros , regras, fiz bainhas
cada vez mais pra cima nas minhas saias.
Por causa dela lapidei dores, engoli uns sapos, cuspi rãs,
recusei, sorrindo de bom grado, propinas, mordomias e cargos, piscinas
e conchavos. Por ela fiz amigos livres e originais, iguais a todo
mundo e ao mesmo tempo não parecidos com ninguém.
Agarrada firme à sua mão, criei neologismos, inventei
atitude, expressão e moda. Por ir fundo nela, pintei o sete,
fiquei de castigo por fazer arte e saí do castigo pela mesma
arte. Em seu nome, tratei crianças como senhores, escritores,
repentistas, sábios e mentores, criei filho com alegria,
respeito, com sim e não mas sem opressão. Cantei alto
nas ruas urbanas sobre as bicicletas, assobiei alto dentro dos coletivos,
testando a afinação do bico, por causa dela me espelhei
nos passarinhos, me repararam muito e fui chamada de maluca moleca
irresponsável irrotulável puta pagã e poeta.
Por causa dela passei noites procurando o amor, errando e acertando
versos de amor, e por causa dela o amor me encontrou.Com ela desfrutei
de bonanças, compreendi e aceitei temporais. Com ela dei
musica à minha voz, fôlego aos meus princípios,
inícios aos meus finais.
Mas foi exatamente ela quem me ensinou a seguir enrolada como meus
cabelos ,resoluta como o vento, límpida como a estrada que
eu via e vejo, clara como as palavras que digo e escrevo, frágil
e forte como meus desejos.
Pois, de joelhos estou por ela, voando estou com ela, grata que
sou a ela... Porque quando tudo pareceu me faltar, a liberdade me
deu colo.
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