Tempo político é curto
Sérgio
Haddad, 52 anos, doutor em educação e docente da PUC
de São Paulo, presidente da Abong (Associação
Brasileira de Organizações Não-Governamentais)
- entidade que reúne cerca de 250 entidades , é
integrante do Conselho de Desenvolvimento Social e Econômico
do governo Lula, além de ser um dos principais organizadores
do Fórum Social Mundial. No final de fevereiro, o professor
esteve em Porto Alegre para participar da Aula Inaugural do Sinpro/RS
e concedeu esta entrevista exclusiva ao Extra Classe, fala de conjuntura,
mercantilismo na educação e das dificuldades, desafios
e problemas de comunicação do Governo Federal.
César Fraga
Extra Classe Qual a importância das ONGs para os
projetos sociais do novo Governo? De que forma se daria a participação
delas?
Sérgio Haddad Tradicionalmente as ONGs têm
por objetivo fomentar a construção da cidadania. Isso
independe se é o governo Lula, Fernando Henrique ou qualquer
outro.O que importa é aprofundar a democracia que nós
temos através dessa relação. Agora, é
óbvio que existe uma coincidência de trajetórias
e identificação do novo governo com esse princípio.
Ou seja, os eventos que levaram Lula ao poder têm a ver com
a história recente dos movimentos sociais no Brasil e por
conseqüência das próprias ONGs. E, de certa forma,
o que se espera do Governo Lula é justamente um papel mais
relevante nesta lógica de promoção da cidadania
do que o de seus antecessores. Mas isso não quer dizer que
as ONGs sejam uma extensão do governo, o que mesmo assim
não impede ambos de atuarem em sintonia e complementação.
EC Quais serão os principais desafios deste governo
nas áreas sociais e de educação?
Haddad São justamente essas demandas que se colocam
diariamente a nossa frente. Erradicar a fome, oportunizar o ensino
a todas as pessoas, resolver os problemas de moradia e saúde.
Ou seja, são demandas herdadas, mas que devem ser tratadas
como problemas de natureza estrutural e para os quais urgem soluções.
Isso diz respeito diretamente a temas como reforma agrária,
geração de empregos, etc. Mas não podemos esquecer
que estamos tratando de projetos de longo prazo. Ao mesmo tempo
existe um certo constrangimento de natureza econômica que
faz com que os remédios ortodoxos tenham continuidade, é
o caso da elevação dos juros, é o caso do controle
da moeda, um aumento do superávit. Enfim, tudo isso reafirma
uma certa política conservadora em relação
ao modelo econômico e a forma como curar a estabilidade desse
modelo, numa conjuntura bastante difícil porque há
aumento de inflação, ameaça de guerra, dificuldade
em relação aos fluxos de capitais. Então vamos
dizer: o grande desafio é como fazer esse trânsito
entre uma política conservadora para uma política
que possa dar sinais de desenvolvimento.
EC Nesses primeiros meses, o que transparece pela imprensa
é uma certa inércia que contrasta com as promessas
da campanha. Até onde são precipitados os julgamentos
e quando a pressão da sociedade para que as coisas comecem
a acontecer seria apropriada (se é que já não
é)?
Haddad Como já havia dito, há todo um problema
conjuntural herdado dos governos passados que tinham uma política
mais conservadora. Além disso há um problema de comunicação
do próprio governo no sentido de apontar como esses recursos
permanentes, voltados a uma política mais conservadora, apontam
no futuro para uma nova política de natureza econômica
em que haja aumento de emprego, desenvolvimento etc. Então,
acho que há certa dificuldade nesse sentido. É preciso
saber informar como se faz para operar sobre questões de
natureza social, e por que, hoje, são tratadas sob ponto
um de vista mais direto, assistencial, como é o fome zero.
Essas questões devem ser vinculadas a mudanças estruturais
que dêem condições mais sustentáveis
para que as pessoas possam ter emprego, possam por elas mesmas comprar
comida e ter uma vida digna etc.
EC E o risco de instabilidade?
Haddad Temo que o tempo para realizar essas tarefas seja
muito longo em função das condições
econômicas que estão sendo colocadas hoje e que possa
a política num longo prazo perder esse apoio que a população
vêm dando. Acho que isso pode ser um grande perigo. O tempo
político é muitas vezes curto e Lula foi eleito com
uma expectativa de mudança muito grande e essas coisas todas
constituem uma dificuldade real.
EC Mesmo assim o senhor entende que o caminho está
correto?
Haddad Eu acho que ele está no caminho possível
nesse momento. Eu faria algumas correções, sobre o
ponto de vista desta questão da comunicação,
como já disse, que poderia ser mais clara e que disesse a
que vem. Comunicação por parte do governo para que
se possa fazer a diferenciação sobre aquilo que hoje
é visto como uma continuidade em relação ao
modelo econômico e os constrangimentos apresentados por este
modelo. As soluções que são dadas como o aumento
de juros, ou o que possa vir no futuro, são o que são.
Trata-se de um momento de transição. A população
precisa saber o que se aponta lá na frente passado esse período
em que se diz que são necessárias tais medidas para
que se possa garantir estabilidade e apoio, inclusive para as reformas
que precisam ser feitas. Eu acho que essa é a dificuldade
nesse momento. Agora, há de se considerar, e acho que é
importante isso, que nós estamos há dois meses da
posse do novo governo. Há todo o reconhecimento de uma máquina,
toda uma equipe que muda. O governo assumiu, em condições
bastante delicadas, uma herança econômica muito ruim
sob o ponto de vista do crescimento da inflação do
escape de capitais e de uma conjuntura de guerra.
EC O senhor falou nas reformas necessárias. Na
posição de membro do Conselho de Desenvolvimento Social
e Econômico do Governo Federal, o senhor considera possível
que as votações das matérias referentes a essas
reformas ocorram ainda este ano? E qual a ingerência do CDSE
sobre esses temas?
Haddad Votar esse ano é necessário, antes
de mais nada. O assunto é de máxima urgência.
Se houver necessidade de votar essas reformas, que isso ocorra logo,
aproveitando esse alto índice de apoi que hoje o governo
tem. Por outro lado, como as forças políticas vão
se dando é sempre muito difícil saber como esse processo
se dará. No conselho a gente percebe que há forças
muito distintas.
EC Como esse processo de negociação finalmente
vai se dar?
Haddad Eu acho que depende muito também da força
que a sociedade terá para pressionar os parlamentares. O
conselho é só um eco. Ele não tem pretensões
de substituir o congresso, e nem é o caso. Simplesmente é
uma forma de consulta. É o Congresso Nacional que define,
e aí o que importa é a pressão social sobre
seus parlamentares para que as mudanças possam ocorrer.
EC Em sua visita a Porto Alegre para a Aula Inaugural
2003 do Sinpro/RS, o senhor abordou o tema Professor: Educador
ou prestador de serviço. Como o senhor resumiria sua
abordagem sobre a questão para os nossos leitores que não
tiveram chance de assisti-lo?
Haddad O tema diz respeito à questão de
como a Educação tem sido pressionada a entrar no âmbito
do mercado e como esta pressão, está vinculada, e
muito, ao movimento de globalização internacional.
EC
Quem exerce essa pressão?
Haddad Essa pressão é exercida pelos países
mais desenvolvidos, em particular pelos Estados Unidos, União
Européia, Canadá e Japão e que basicamente
têm buscado a abertura dos mercados de maneira incondicional.
Nesta abertura de mercado os serviços passam a estar incluídos
nas normas da Organização Mundial do Comércio
(OMC). A gente imagina que, quando se fala de comércio, em
geral se pensa em bens, matérias-primas, produtos acabados.
Na concepção da OMC este conceito é bem mais
amplo e os serviços estão sendo incluídos e
representam 20% de todo comércio mundial. Por conseguinte
a Educação passa a ser vista também como serviço
e passível desta normatização. Ou seja, a intenção
do mercado é incluir novos setores no seu arcabouço
de influência. A idéia que se coloca é liberalizar
o máximo possível o mercado para que serviços
fiquem dentro desse modelo mais global. A idéia é
que você possa então abrir o mercado justamente para
as grandes empresas internacionais, que são justamente as
multinacionais que têm interesse nessa lógica mais
geral. E a Educação está no meio disso tudo.
EC O senhor poderia nos dar um exemplo de como a Educação
pode sofrer neste contexto?
Haddad Se pensar em McDonalds ou em produtos de
vestuário de consumo geral, nós já temos os
bens duráveis: geladeira, televisores e coisas que o mercados
já há muitos anos comercializa. Mas com os serviços
é uma novidade. Hoje você tem um modelo de estilo fast
food em hotéis, por exemplo. Esse tipo de hotel no mundo
inteiro tem o mesmo tamanho, mesmo tipo de atendimento, decoração
e preço mais barato. Um dos riscos é ter um modelo
de prestação de serviços em Educação
com um tipo de padronização que não respeite
os aspectos regionais, locais, etc. A educação tem,
entre seus objetivos, a formação da cidadania e, portanto,
todos os aspectos constituintes da formação humana
sob o aspecto da cultura, que é construir a nação
dentro de uma perspectiva que respeite as peculiaridades regionais.
Essas são questões claramente definidas. Mas também
se pode pensar em modelos em que o professor se torna um prestador
de serviços nesta lógica comercial na medida em que
você tem um pacote, um modelo específico de educação
a ser dado como instrução ( talvez a gente nem possa
dizer educação, mas de instrução).
EC Correríamos o risco de termos uma Educação
mais voltada para aspectos funcionais, dentro de um ótica
utilitarista?
Haddad Exato, neste modelo que descrevi, o professor
simplesmente passa a ter aspectos funcionais e todo o resto já
está montado, formatado como são os modelos de teleeducação
por exemplo, como são alguns dos modelos de e-learning. Muito
da arrecadação das instituições que
trabalham com educação é destinado ao salário
do professor e, num mercado mais competitivo, você tem que
diminuir custos; para diminuir custos, você tem que afetar
diretamente o trabalho do professor que é aumentar o número
de alunos por classe ou você ter aulas duplas que possam fazer
com que o professor atenda duas classes ao mesmo tempo, e até
mesmo substituir grande parte do trabalho do professor por emissões
de aulas que são gravadas. Mas, é óbvio, estamos
trabalhando no campo das hipóteses.
EC Que setores da Educação seriam mais atingidos?
Haddad Particularmente o ensino universitário
que já é em grande parte privado e também o
ensino tecnológico, de línguas (que se apresenta em
grandes cadeias internacionais, com o mesmo modelo de aprendizagem,
espalhadas em diversos países). Então acho que isso
pode ter uma conseqüência muito grave. A pressão
para que a educação se enquadre nesses moldes é
muito grande. O aspecto da legislação internacional
do comérico é muito interessante e dramático.
Se a Educação, enquanto serviço, passa a ser
considerada como uma linha de investimento e o investidor tem de
ter direitos iguais do ponto de vista meramente econômico,
então há uma pressão também para que
o segmento seja reconhecido como serviço e como investimento.
E, no caso do Brasil, onde o modelo vigente apresenta ensino privado
como um complemento à rede pública, surge uma situação
estranha às leis de mercado. No meio de um acordo comercial,
por exemplo, o país poderia ser acusado de subsidiar a concorrência
das escolas públicas em detrimento das privadas e até
de ser processado conforme as regras da OMC.
EC Qual a situação legal hoje?
Haddad Por um lado, no Brasil se reconhece historicamente
o ensino privado como um ensino complementar ao ensino público.
Por outro é de direito que o ensino privado internacional
também possa entrar. Isso já cria as condições
necessárias dentro da legislação de comércio
para a hipótese levantada. Há legislação
específica que diz que o investidor possa se sentir prejudicado
porque há subsídios no caso do ensino público,
então você pode chegar a uma loucura em que o estado
é processado sob o ponto de vista que ele está prejudicando
o investimento de empresas privadas no ramo da educação.
EC Mas isso não é um pouco de exagero?
Haddad O importante é que abre o precedente legal
e político. Nós podemos tratar isso muito sob o ponto
de vista da utopia, dizendo que loucura, mas a verdade
é que esse modelo de globalização vem rapidamente
entrando e consumindo de maneira muito forte mercados que até
então jamais imaginaríamos.
EC Como a Constituição brasileira vê
a designação de serviço?
Haddad Costumo exemplificar com a tese do jurista Dalmo
Dallari. Ele defende que constitucionalmente o termo serviço
é entendido como a ação humana ou ação
para o desenvolvimento humano, diferente e quase se opondo ao sentido
comercial do termo, que é aquilo que a ALCA e a OMC propõem.
Eu acho que esse é o sentido importante que deveria ser levado
em consideração. Muitas vezes, a gente, quando pensa
em serviço, pensa sempre sob o ponto de vista de um olhar
mercadológico e não é isso que a nossa Constituição
tradicionalmente entende.
EC Qual a influência desses modelos mercantilistas
de Educação na cultura?
Haddad A força de comunicação desses
modelos é muito grande e muito atraente. Então é
a coisa do McDonalds, a população é levada
a consumir determinadas coisas mesmo que não precise delas,
assim como ela usa determinadas coisas porque isto vem agregado
como cultura, vem através dos meios de comunicação
de massa, vem de todo mecanismo que acaba impondo um modelo cultural
e conseqüentemente um modelo de consumo.