Saddam: de parceiro a inimigo
Houve um tempo em que EUA e Iraque eram, mais do que bons amigos,
parceiros no jogo político do Oriente Médio. Após
a revolução do aiatolá Khomeini no Irã,
que derrubou o Xá Reza Pahlevi, em 1979, os americanos passaram
a se preocupar seriamente com a expansão do fundamentalismo
xiita. Naquele momento, o governo iraniano era identificado como
o principal inimigo na região. Não por acaso, os EUA
viram com bons olhos a guerra entre Irã e Iraque, que começou
após um ataque de Saddam, recém-chegado ao poder através
de um golpe militar. Saddam pertence ao grupo islâmico sunita,
envolvido na disputa pelo poder no Iraque justamente contra os xiitas,
que compõem a maior parte da população do país.
Os iraquianos invadiram o Irã em setembro de 1980, a pretexto
de anexar uma área em torno do canal de Chat Al-Arab. A guerra
durou oito anos e deixou um saldo de 1 milhão de mortos,
quase 2 milhões de feridos e US$ 400 bilhões de prejuízos.
Nesta época, explica o professor da PUC-RJ, Luís Fernandes,
o governo dos EUA forneceu ao Iraque informações privilegiadas
de alvos e movimentos de tropas rivais. Além disso, ofereceu
bombas de fragmentação para atingir a chamada onda
humana, formada por fanáticos religiosos, que se constituía
na principal arma de defesa iraniana. Na verdade, os elementos cruciais
para o desenvolvimento do programa de armamento do ditador iraquiano
foram dados pelo governo americano inseticida para a produção
de bombas químicas e agentes que causam doenças, como
a peste bubônica, para as biológicas.
Por que Saddam se transformou em vilão? Durante quase 50
anos, os EUA viveram à sombra da guerra fria, sobressaltados
com a ameaça comunista do outro lado da Cortina de Ferro.
Desde 1989, com a queda do muro de Berlim e a derrocada soviética,
careciam de um inimigo invisível, anota a professora
Maria Aparecida, da USP. Em 1990, George H. Bush elegeu Saddam como
novo alvo. É verdade que o dirigente iraquiano deu o pretexto
ao invadir o Kuwait, tradicional aliado dos EUA no Golfo Pérsico.
O conflito dizia respeito a um litígio territorial histórico
entre dois vizinhos, numa região altamente explosiva. Após
receber tantos mimos, Saddam cometeu o erro de cálculo de
pensar que não haveria reação da Casa Branca.
Desde então, passou a encarnar o papel de inimigo número
1 do povo americano.
O professor Hillbrecht, da Ufrgs, apesar de justificar a operação
militar de Bush, admite que não há indícios
confiáveis de ligação do presidente iraquiano
com a Al Qaeda. A briga de Bin Laden não é só
com as democracias liberais do Ocidente. Ele odeia também
os regimes não-teocráticos do mundo islâmico,
dos quais o Iraque faz parte. Quanto ao argumento de que Saddam
detém armas de destruição em massa e, por isso,
precisa ser atacado de forma preventiva, Hillbrecht
lembra que Rússia e China também as possuem e, nem
por isso, encontram-se sob a mira dos americanos. O mais grave é
que, ao afrontar o Conselho de Segurança da ONU e insistir
na intervenção militar, custe o que custar, Bush põe
em risco o sistema internacional de segurança coletiva, materializado
há mais de meio século. É uma ação
desastrada que, em última instância, institucionaliza
o domínio pela força e abre perspectivas nefastas
para toda a humanidade, conclui o professor Luís Fernandes,
da PUC-RJ.
Brasil quer paz, mas é "figurante"
na cena internacional
O Brasil apóia a posição de França e
Alemanha, favoráveis a uma saída diplomática
para a crise entre EUA e Iraque. Em declaração conjunta
com os demais membros do Mercosul, em fevereiro, o país reiterou
o papel do Conselho de Segurança como o órgão
responsável pela manutenção da paz e da segurança
internacional, e o único com legitimidade para autorizar
o uso da força.
Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça,
o presidente Luís Inácio Lula da Silva fez um apelo
à paz. O discurso motivou críticas do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, para quem o país não pode
almejar uma postura de protagonista na cena internacional. Não
deixa de ser despeito de FHC, que era conhecido em grupos restritos
de intelectuais. Ao contrário, junto com Pelé, Ayrton
Senna e Guga, Lula é uma personalidade brasileira de renome
mundial, diz o professor Geraldo Cavagnari, da Unicamp. Entretanto,
ele ressalta que a notoriedade de Lula não se converte em
capital político para o Brasil, que ocupa uma posição
de assistente e figurante. As grandes potências fingem
que não ouvem.
Antes do embargo econômico, Brasil e Iraque mantiveram uma
relação comercial que movimentou US$ 4 bilhões
ao ano para as nossas exportações, entre 1972 e 1991.
Parte do petróleo importado era pago com automóveis,
máquinas agrícolas, caminhões, ônibus,
armas e produtos animais (sobretudo carne de frango) ou serviços
como obras rodoviárias e ferroviárias realizadas por
empresas brasileiras. A embaixada em Bagdá foi desativada
em 1991, durante a guerra. O Itamaraty informou ao EXTRA CLASSE
que apenas quatro brasileiros na realidade, cidadãos
nascidos em território iraquiano, com dupla nacionalidade
permanecem na terra de Saddam. São eles o zelador
do prédio da embaixada, Awni Al-Dairi, e seus familiares,
responsáveis pelo patrimônio que lá ficou.
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