Ano 8 - nº 69
Março 2003



Luis Fernando Verissimo:
A alegação do deputado Pinheiro Landin de que não pode mais ser processado porque seu mandato agora é outro, o que significa que para todos os efeitos legais ele também é outro, não deve ter causado muito estranheza entre os seus pares.





Nei Lisboa:
Que maravilha ser pai, descubro. Chegou minha vez, já meio pra vovô, de escutar um “toma que o filho é teu”. São mesmo indescritíveis as emoções do parto e dos primeiros momentos de um ser humano fora da barriga da mãe.





Elisa Lucinda:

Por causa dela me criei transparente, corri riscos, briguei com grandes e defendi inocentes. Agite bastante , por ela, as porções de ingredientes do conhecimento antes de usar. Por ela, e em sua confiança, me lancei na estrada nebulosa e definida do sonho...







Saddam: de parceiro a inimigo

Houve um tempo em que EUA e Iraque eram, mais do que bons amigos, parceiros no jogo político do Oriente Médio. Após a revolução do aiatolá Khomeini no Irã, que derrubou o Xá Reza Pahlevi, em 1979, os americanos passaram a se preocupar seriamente com a expansão do fundamentalismo xiita. Naquele momento, o governo iraniano era identificado como o principal inimigo na região. Não por acaso, os EUA viram com bons olhos a guerra entre Irã e Iraque, que começou após um ataque de Saddam, recém-chegado ao poder através de um golpe militar. Saddam pertence ao grupo islâmico sunita, envolvido na disputa pelo poder no Iraque justamente contra os xiitas, que compõem a maior parte da população do país. Os iraquianos invadiram o Irã em setembro de 1980, a pretexto de anexar uma área em torno do canal de Chat Al-Arab. A guerra durou oito anos e deixou um saldo de 1 milhão de mortos, quase 2 milhões de feridos e US$ 400 bilhões de prejuízos.

Nesta época, explica o professor da PUC-RJ, Luís Fernandes, o governo dos EUA forneceu ao Iraque informações privilegiadas de alvos e movimentos de tropas rivais. Além disso, ofereceu bombas de fragmentação para atingir a chamada “onda humana”, formada por fanáticos religiosos, que se constituía na principal arma de defesa iraniana. Na verdade, os elementos cruciais para o desenvolvimento do programa de armamento do ditador iraquiano foram dados pelo governo americano – inseticida para a produção de bombas químicas e agentes que causam doenças, como a peste bubônica, para as biológicas.

Por que Saddam se transformou em vilão? Durante quase 50 anos, os EUA viveram à sombra da guerra fria, sobressaltados com a ameaça comunista do outro lado da Cortina de Ferro. Desde 1989, com a queda do muro de Berlim e a derrocada soviética, careciam de um “inimigo invisível”, anota a professora Maria Aparecida, da USP. Em 1990, George H. Bush elegeu Saddam como novo alvo. É verdade que o dirigente iraquiano deu o pretexto ao invadir o Kuwait, tradicional aliado dos EUA no Golfo Pérsico. O conflito dizia respeito a um litígio territorial histórico entre dois vizinhos, numa região altamente explosiva. Após receber tantos mimos, Saddam cometeu o erro de cálculo de pensar que não haveria reação da Casa Branca. Desde então, passou a encarnar o papel de inimigo número 1 do povo americano.

O professor Hillbrecht, da Ufrgs, apesar de justificar a operação militar de Bush, admite que não há indícios confiáveis de ligação do presidente iraquiano com a Al Qaeda. “A briga de Bin Laden não é só com as democracias liberais do Ocidente. Ele odeia também os regimes não-teocráticos do mundo islâmico, dos quais o Iraque faz parte.” Quanto ao argumento de que Saddam detém armas de destruição em massa e, por isso, precisa ser atacado de forma “preventiva”, Hillbrecht lembra que Rússia e China também as possuem e, nem por isso, encontram-se sob a mira dos americanos. O mais grave é que, ao afrontar o Conselho de Segurança da ONU e insistir na intervenção militar, custe o que custar, Bush põe em risco o sistema internacional de segurança coletiva, materializado há mais de meio século. “É uma ação desastrada que, em última instância, institucionaliza o domínio pela força e abre perspectivas nefastas para toda a humanidade”, conclui o professor Luís Fernandes, da PUC-RJ.

Brasil quer paz, mas é "figurante" na cena internacional

O Brasil apóia a posição de França e Alemanha, favoráveis a uma saída diplomática para a crise entre EUA e Iraque. Em declaração conjunta com os demais membros do Mercosul, em fevereiro, o país reiterou o papel do Conselho de Segurança como “o órgão responsável pela manutenção da paz e da segurança internacional, e o único com legitimidade para autorizar o uso da força.”

Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o presidente Luís Inácio Lula da Silva fez um apelo à paz. O discurso motivou críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para quem o país não pode almejar uma postura de protagonista na cena internacional. “Não deixa de ser despeito de FHC, que era conhecido em grupos restritos de intelectuais. Ao contrário, junto com Pelé, Ayrton Senna e Guga, Lula é uma personalidade brasileira de renome mundial”, diz o professor Geraldo Cavagnari, da Unicamp. Entretanto, ele ressalta que a notoriedade de Lula não se converte em capital político para o Brasil, que ocupa uma posição de assistente e figurante. “As grandes potências fingem que não ouvem.”

Antes do embargo econômico, Brasil e Iraque mantiveram uma relação comercial que movimentou US$ 4 bilhões ao ano para as nossas exportações, entre 1972 e 1991. Parte do petróleo importado era pago com automóveis, máquinas agrícolas, caminhões, ônibus, armas e produtos animais (sobretudo carne de frango) ou serviços como obras rodoviárias e ferroviárias realizadas por empresas brasileiras. A embaixada em Bagdá foi desativada em 1991, durante a guerra. O Itamaraty informou ao EXTRA CLASSE que apenas quatro brasileiros – na realidade, cidadãos nascidos em território iraquiano, com dupla nacionalidade – permanecem na terra de Saddam. São eles o zelador do prédio da embaixada, Awni Al-Dairi, e seus familiares, responsáveis pelo patrimônio que lá ficou.

 

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Mais Especial:
Os interesses do Império
Um presidente sem estatura de estadista
Um país esfacelado pela guerra
A partilha do Iraque custará bilhões de dólares


José Luis Fiori

O Duplo Movimento
Alguém já disse, com razão, que o governo Lula terá que ser inventado. Quando Salvador Allende governou o Chile, no início da década de 70, intelectuais de vários cantos do mundo discutiam, em Santiago, sobre o que o seu governo deveria ser e fazer, a partir das experiências conhecidas de “transição ao socialismo”, ou dos governos de Frente Popular, da década de 30.





Um olhar interessante sobre o século vinte
Eric Hobsbawm nos apresenta sua autobiografia: Tempos interessantes - Uma vida no século XX.

Alterações femininas
Chega ao Brasil a série Mulheres Alteradas, de Maitena.

E dicas de livros.







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