Desobediência cidadã
O
que um estudante italiano, uma desempregada argentina e um cientista
indiano têm em comum? À primeira vista, pode parecer
uma charada sem reposta, mas, se a contextualizarmos entre os dias
23 e 27 de janeiro de 2003, em Porto Alegre, mais precisamente no
III Fórum Social Mundial, com certeza conseguiremos encontrar
os elos que os ligam, o principal deles, a rebeldia. Além
disso, os três fizeram parte do painel Insurgência Cidadã
Contra a Ordem Estabelecida, sendo um dos destaques do Eixo que
tratava de Poder Político, Sociedade Civil e Democracia.
Na ocasião, relataram suas experiências junto ao que
se convencionou chamar de novos movimentos sociais e
apontaram como essas novas formas de resistência e transgressão
contribuem para ampliar os limites da cidadania. O debate precedeu
as manifestações contra a guerra EUA x Iraque que
levaram às ruas milhões de cidadãos em todo
omundo a favor de uma solução pacífica para
o conflito, o que mostra que os ecos do FSM ainda soam alto em alto
e em bom tom.
Ana Esteves

ão
queremos refeitórios populares, porque um país que
exporta alimentos deveria poder alimentar todas suas crianças;
se estamos num refeitório é porque é um desastre
a distribuição da riqueza na Argentina. Nós
queremos um país onde não haja refeitórios
populares, pois, quando se tem trabalho e dignidade não se
passa fome. A declaração de Sílvia Saravia
do grupo de piqueteiros argentinos Barrios de Pié, arrancou
aplausos entre os participantes. O movimento, criado em janeiro
de 2002, realiza piquetes e marchas periódicas em Buenos
Aires e em diversas regiões do país, protestando por
trabalho e comida. Trata-se de um movimento composto majoritariamente
por desempregados, de bairros urbanos onde habitam pessoas que há
bem pouco tempo tinham trabalho e que, com a crise econômica
e social, saíram massivamente às ruas. Somos, na maioria,
mulheres, que saem às ruas junto com nossas crianças
com o objetivo de resgatar nossa cidadania. Por isso ocupamos espaços
públicos, interrompemos as ruas e estradas como forma de
reclamar ao Estado uma solução imediata aos nossos
problemas mais urgentes: saúde, educação, serviços
públicos, terra e comida, afirmou Sílvia.
Segundo ela, o Barrios surgiu com a proposta de trabalhar com educação
popular, baseado em Paulo Freire, ajudando as crianças que
tinham dificuldades nas tarefas escolares. Mas, com o agravamento
da crise Argentina, os manifestantes começaram a organizar
refeitórios públicos e então a tomar as ruas
e a Plaza de Mayo, na capital Argentina. As ações
do Barrios de Pié já repercutem em outros movimentos
sociais pelo mundo, como no caso do Desobbedienti, um grupo de ativistas
italianos que pregam a desobediência como única forma
de combater os fundamentalismos. Segundo Luca Casarini, um dos desobedientes
que participaram do Fórum, os piqueteiros integram um movimento
pacífico. Assim como nós, nunca recorreram às
armas de fogo. Há mil maneiras de combater a guerra. Cada
cidadão é um veículo de marketing e deve se
expressar contra a guerra, disse.
Durante sua participação no painel sobre Insurgência
Cidadã, outro desobediente, Francesco Caruso, anunciou que
o grupo planeja invadir embaixadas norte-americanas e bases da Otan
assim que os Estados Unidos lançarem a prometida ofensiva
contra o Iraque. Para eles, a guerra no Iraque será a oportunidade
para lançar uma mensagem contra as ações norte-americanas.
O movimento, que, segundo Casarini conta hoje com 20 mil militantes,
está articulando protestos semelhantes com outros países,
especialmente na Europa, e também prepara campanhas para
que as pessoas boicotem empresas e bancos que financiem o conflito.
Um dos alvos já definidos é a base americana de Camp
Derby, na Toscana (região central da Itália), um ponto
estratégico para o envio de armas e equipamentos ao Oriente
Médio. Não basta apenas mobilizar milhões
de pessoas nas praças. Temos de entrar lá e sabotar
para que não possa haver guerra, disse Caruso, preso
em novembro de 2002, na Itália, sob acusação
de subversão.
Casarini afirmou ainda, divulgando antecipadamente a ação,
que os desobedientes sabem que irão encontrar segurança
reforçada nas bases e embaixadas, mas ainda assim prometem
levar o protesto adiante. Estamos discutindo, sempre de forma
pública, qual a melhor maneira de garantir nossa segurança.
Certamente haverá policiais e bombas, num esquema de guerra
contra os civis, afirmou.
No dia 15 de fevereiro, os desobedientes emitiram um programa de
televisão via satélite em solidariedade ao Iraque
que pôde ser visto naquele país. Uma semana depois,
eles fizeram, em Roma, uma reunião com representantes do
Exército Zapatista de Libertação Nacional,
grupo mexicano que reivindica melhores condições para
os indígenas. Somos contra qualquer tipo de fundamentalismo,
seja o de Alá ou o de Wall Street. Achamos que nesse processo
surgirá uma outra legalidade, uma mudança radical
das leis nacionais e internacionais, completou Casarini.
O físico indiano Vinod Raina, membro do People Science Movement
(um movimento único na Índia, empenhado em desenvolver
a chamada ciência popular, que busca encorajar as pessoas
a planejar e implementar suas próprias idéias de desenvolvimento),
afirmou que existem três tipos de resistência à
ordem estabelecida: Através do terrorismo, do endurecimento
das identidades, sejam elas religiosas, culturais ou nacionais e
a insurgência democrática. Raina destacou ainda
a importância de se incluir o conceito de solidariedade em
toda a forma de resistência, e exemplificou. Em 1972,
as mulheres de uma aldeia viram que chegavam homens na floresta
para cortar as árvores, elas correram para lá e abraçaram
as árvores para que as mesmas não fossem derrubadas.
Este foi um marco do movimento ecológico da Índia,
já que a floresta era sinônimo de subsistência
para essas pessoas, pois usavam as árvores para fazer fogo,
comida. Elas agiram sem violência.
Raina ainda relatou que pertence a uma região da Índia
que, além de sofrer as conseqüências do neoliberalismo,
trabalha com o combate aos fundamentalismos religiosos. E
as formas de resistência são muito complexas, pois
não se trata apenas de uma luta de classes apenas, mas de
castas, de índios e mulheres que resistem. Ele finalizou
afirmando que o Fórum Social Mundial funciona como uma plataforma
de convergência entre todos os movimentos, dos feministas
aos ecológicos e sociais, tendo como grande desafio moldar
a resistência política.
É por essas e outras que o próprio FSM, representado
por Francisco Whitaker, membro do Comissão Brasileira Justiça
e Paz (CBJP), entidade que integra o comitê de organização
do evento, fez parte da mesa de debates. O Fórum Social
Mundial se situa dentro de um quadro de diferentes possibilidades
de insurgência. É uma expressão de insurgência
cidadã e representa a concretização de métodos
mais eficazes de mudança que levem a resultados mais perenes.
No fundo o FSM propõe que entremos dentro de nós mesmos,
mudando nossos comportamentos e nossas estruturas organizativas,
bem como as nossas relações com os outros e as relações
com as nossas organizações. Porque o outro mundo possível
só será realmente possível se houver essa mudança
profunda, afirmou Whitaker.
Ele aproveitou a ocasião para fazer um breve histórico
sobre as raízes do Fórum. Ele não surgiu
por acaso. As idéias passaram por muitas cabeças pelo
mundo a fora, como Paulo Freire, Marcuse, todos anarquistas e libertários.
Essas idéias se concretizaram no final dos anos sessenta,
quando a indignação e a revolta fez com que diferentes
jovens no mundo todo, especialmente em 68 na França, se voltassem
contra os autoritarismos. Isso refletiu na década seguinte,
que tinha outra maneira de se organizar politicamente e também
nas décadas de 80 e 90. As pessoas passaram a perceber a
necessidade de pensar e agir como cidadãos, filiados ou não
a partidos, sindicalizados ou não. O Fórum surgiu
no meio do processo de mobilização social contrária
às decisões neoliberais e hegemônicas, organizou-se
na linha, na perspectiva, na cultura das redes sem o comando de
ditadores. Ele propicia, na riqueza dos entrelaçamentos,
a interpenetração de ações até
então estanques, buscando pela ação de todos
a efetiva transformação do mundo.
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estado brasileiro gasta muito e gasta mal"
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