Corte
de receitas para ministérios, inclusive da área social,
alta de juros, austeridade administrativa, inflação
à espreita. O governo Lula, ao fim do seu segundo mês
é vidraça tanto para radicais de esquerda, senadores
e deputados do próprio partido do presidente, como da oposição
e demais frentes políticas. Os primeiros movimentos parecem
um filme já visto em outras gestões. Não poderia
ser diferente. O próprio Lula já havia anunciado durante
a campanha que o programa do PT e dos seus aliados dependeriam das
reformas previdenciária, tributária e do estado. A
calculadora do governo diz que o resultado imediato à reforma
da previdência, por exemplo, será uma economia de R$
1,7 bilhões. Isso levando-se em conta que, sem a reforma,
estima-se que o rombo da previdência no setor público
para 2004 seja de 14,3 bilhões e de R$ 16 bilhões
até 2012. E fala-se, inclusive, da possibilidade de falência
da previdência, o que por si só já está
gerando debates e mais debates.
Da redação
E foi justamente sobre esses temas cruciais para a viabilidade do
novo governo que o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, falou
em sua visita a Porto Alegre no final de janeiro. Ele veio para
o 3º Fórum Social Mundial para fazer uma ponte, como
a que o presidente Lula fez entre Porto Alegre e Davos. Só
que no sentido oposto. Palocci se reuniu, poucas horas antes da
marcha de abertura do 3º FSM, com empresários, sindicalistas
e convidados na Federasul, centro de Porto Alegre, para falar dos
grandes desafios do governo Lula na área econômica.
Foi um banho de realismo, para não dizer de água fria,
antes mesmo do início do evento que pretende a criação
de um outro mundo possível.
Palocci afirmou que o Brasil apresenta um crescimento medíocre
há mais de duas décadas e que retomar uma trajetória
de crescimento sustentável, reduzindo as incertezas da economia
brasileira, é um dos principais desafios do novo governo.
É preciso estender a estabilidade da moeda às demais
variáveis econômicas e, como alicerce, o ajuste definitivo
das contas públicas. O Estado brasileiro contraiu durante
décadas compromissos que se revelaram incompatíveis
com os recursos disponíveis, falou. Esses compromissos
geraram custos sociais dramáticos ao povo, por
isso, segundo Palocci, é compromisso do governo a cuidadosa
gestão da coisa pública e o ajuste do orçamento,
com a precisa definição das prioridades de gastos.
Para alcançar esses objetivos seriam necessárias três
reformas: a da previdência pública, que seria fonte
crescente de débito, a tributária e a reforma do Estado.
Quanto à primeira, sustenta que o atual sistema de
aposentadorias e pensões do setor público gera compromissos
cada vez maiores no orçamento para os quais não há
recursos. Nesta dimensão, o próprio direito constitucional
da aposentadoria está vulnerável. Diz também
que a falta de sustentabilidade do sistema previdenciário
é hoje uma questão central, tanto do ponto de vista
fiscal quanto do direito do trabalhador aposentado.
Outra reforma fundamental, na opinião do ministro, é
a tributária, para redução das distorções
do sistema hoje em vigor. Nosso sistema tributário
tem um efeito regressivo e os mecanismos dos principais impostos
são normalmente complexos induzindo a uma grande informalidade,
aponta. Além disso, a carga tributária tem crescido
mais que a economia brasileira. Por isso, Lula quer discutir no
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, coordenado
pelo ministro Tarso Genro, as questões dessas reformas.
Com o ajuste das contas públicas, salienta Palocci, se conseguirá
reduzir as incertezas sobre a condução das políticas
econômicas e reduzir o risco de crédito dos títulos
públicos, o que permitirá a redução
das taxas de juros praticadas pelo Banco Central. Diminuir
as taxas de juros básicos não é, infelizmente,
um ato de vontade, mas resultado de condições sustentáveis
para a nossa economia, explica. O ministro também repetiu
a frase da transição, quando afirmou que vivemos um
longo apagão do planejamento. E acresentou: Não
planejamos em decorrência da imensa incerteza que existe sobre
as nossas atividades econômicas no curto prazo. Por
isso, para retomar o crescimento, é preciso a construção
de regras estáveis, ajustes das contas públicas e
reformas microeconômicas que removam as amarras que
não permitem desenvolver nosso imenso potencial.
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