Que maravilha ser pai, descubro. Chegou minha vez, já meio
pra vovô, de escutar um toma que o filho é teu.
São mesmo indescritíveis as emoções
do parto e dos primeiros momentos de um ser humano fora da barriga
da mãe. A gente sempre ouve dizerem coisas assim, mas talvez
sem dar o devido crédito ou atenção, até
que se vê ali, flutuando, com aquele bichinho nos braços.
Fantástico. Ainda mais que, contrariando as expectativas,
as primeiras semanas foram de absoluta calma, mamar de quatro em
quatro horas e dormir, quase nenhum choro. É bem possível
que... ôpa, peraí que eu vou lá ver porque tá
chorando.
Gases. O de sempre. Até dar um arrotinho, chora um pouco,
nada que incomode. Às vezes mama mais um pouquinho e passa.
Onde é que eu estava mesmo? Não importa. É
uma sensação incrível, ser pai. E certamente
ainda mais incrível, intangível para os homens, é
a experiência da maternidade, de estar grávida, de
parir, de amamentar. Não há um fio de cabelo da curiosidade
paterna que consiga penetrar na relação entre a mãe
e o bebê na hora da amamentação. Morram de inveja,
pais, apertem suas tetas pra ver se sai um leitinho, e não
conseguirão mais do que girar em volta daquela simbiose e
intimidade absolutamente... é, tá chorando de novo,
deve ter mamado mais um pouco. Vou lá ver.
Um doce, a Maria Clara. Dá essas choradinhas, mas não
chega a incomodar. Em seguida passa e a gente retoma. Eu ia escrever
absolutamente o quê? Não importa. O certo
é que a gente fica sem nenhum outro assunto na vida, óbvio,
e é um tal de olha o tamanho do minguinho e o cabelinho
loirinho com redemoinho, inhazinha-bi-bilu-babá que
não tem fim. Como não tem fim o périplo de
vovós e madrinhas que vêm abençoar e dar conselhos,
de vez em quando se aproveita um. Peraí que eu vou abrir
a porta.
Uma prima. A segunda, hoje. Conseguiu acordar a criança.
E olha que não dormiu bem a noite. Mas a gente evita dar
funchicória ou luftal, esses troços cheios de sacarose.
Maria Clara vai ser militante do Greenpeace, como é que eu
vou explicar que dava açúcar pra ela quando era bebê?
Não, deixa que o papai entra em ação enquanto
a mamãe toma banho. Embalo o carrinho com a esquerda, ainda
me sobra a direita pra escrever. Nada que atrapalhe o trabalho.
Onde é que eu estava, mesmo?
No Greenpeace, era isso, eu acho. Melhor usar frases curtas, agora.
Entre uma embaladinha e outra. Ainda chora um pouquinho. Mas nada
que atrapalhe muito. Quem sabe trocando de posição.
Ou tapando melhor. O bico, não, não quer o bico. Melhor
pegar no colo. Coisa mais linda do mundo. Faz uma carinha de Mr.
Magoo. Eu ia falar de algum outro assunto, mas já não
lembro. Coisa mais linda. Não tem igual nesse mundo. E não
vai deixar o papai trabalhar de jeito nenhum. Peraí que eu
vou no greenpeace da esquina comprar um luftal, mês que vem
eu volto.
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