Salas de aula vazias, corredores, estacionamentos,
vestiários, ginásios de esporte e banheiros são
os “pontos-de-venda” e consumo habituais de um negócio
que avança a passos largos e silenciosos. O traficante,
por sua vez, já não corresponde à velha imagem
do estranho que oferecia o produto aos alunos incautos na saída.
Atualmente, tem carteira escolar, nome na lista de chamada e pode
pertencer até mesmo a uma família “respeitável
e tradicional”. O traficante também é aluno.
Como lidar com isso? A escola está preparada? O fato é que
o crescimento do tráfico e do consumo de drogas nas escolas
públicas e privadas é uma ameaça real, embora
ainda permaneça semi-oculta pelo medo de exposição,
pelo preconceito, pela desinformação e interesses
mercadológicos. As pesquisas disponíveis são
pouco consistentes quando se busca um retrato do que acontece do
lado de dentro das instituições e não há números
conclusivos sobre o tamanho do problema, mas ele pode ser bem maior
do que mostram as estatísticas.
Adriana Zottis
O tráfico diz: " - Presente! "
delegado Antônio
Carlos
Pacheco Padilha, diretor da
Divisão de Assistência Especial do Departamento Estadual da Criança
e do Adolescente (Deca), que ministra palestras de capacitação
sobre drogas para professores, diz que a omissão maquia a realidade. “Implementamos
o curso no ano 2000 e só agora as escolas particulares começaram
a nos procurar. A rede privada normalmente esconde o problema”, reclama.
De janeiro a outubro deste ano, o Departamento Estadual de Investigações
do Narcotráfico (Denarc) recebeu 130 denúncias de tráfico
de drogas dentro e nas proximidades de escolas. Destas, somente 15 foram de particulares.
O número pode ser interpretado de três formas: a rede particular
de ensino é mais refratária à exposição do
problema; ou a incidência nestes estabelecimentos é, de fato, menor;
ou as denúcias se dão proporcionais à quantidade de estabelecimentos
e número de alunos da rede privada, que também é menor do
que o da rede pública nos ensinos fundamental e médio.
Uma pesquisa realizada no final do ano passado pela Unidade de Dependência
Química do Hospital Mãe de Deus revela que o uso de drogas na rede
pública de ensino é maior do que na rede privada. Entretanto, muitas
autoridades policiais que lidam diretamente com o problema contestam este dado.
Na opinião do agente da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes
da Polícia Federal, Robson Robin da Silva, a escola particular é o
grande filão do tráfico, pois ela concentra o consumidor de maior
poder aquisitivo. A diferença entre a escola pobre e a rica estaria apenas
no tipo de droga comercializada. Na periferia, os entorpecentes mais comuns são
o cigarro de maconha, que pode ser comprado por R$ 1,00, e o crack, que custa
cerca de quatro vezes menos que a cocaína. Na escola elitizada, as drogas
mais usuais são a cocaína e o ecstasy, que chega a custar R$ 45,00
por comprimido.
T.C.S.A., 17 anos, estudante do segundo ano do nível médio de uma
escola estadual da Região Metropolitana conta que a maconha e a cocaína
que consome são fornecidas por um colega, no banheiro da escola. P.M.,
16 anos, aluna do primeiro ano do nível médio de um colégio
particular da Grande Porto Alegre admite que muitos colegas fumam maconha no
pátio, num local afastado e escuro.
Se as estatísticas disponíveis não conseguem sanar a dúvida,
a psicologia pode ajudar a decifrá-la. A droga normalmente está associada à identidade
coletiva e ao poder, que seduzem o jovem, independentemente de sua classe social. “É no
ambiente escolar que o jovem potencializa sua força”, avalia o agente
federal, Robson Silva. Um estudante de uma escola particular da Região
Metropolitana diz que o consumo de álcool durante as aulas é uma
prática freqüente. “As gurias colocam a batida numa garrafinha
de refrigerante e passam para a classe”. Segundo o diretor do Denarc, delegado
Walter Wagner da Silva Gomes, os casos de consumo de drogas nas dependências
da escola e na própria sala de aula não são tão raros
quanto se imagina. “Muitos alunos saem da aula para fumar maconha”,
comenta o delegado Carlos Miguel Vaz Amodeo, diretor da Divisão de Prevenção
e Educação do Denarc.
O acesso fácil à droga, proporcionado pela venda dentro da escola, é um
estímulo ao consumo. O jovem se “emprega” no tráfico
para se capitalizar. O repasse da droga financia o vício e depois vira
negócio. No Rio Grande do Sul, a prática vem chamando a atenção
de uns cinco anos para cá. “Isto facilita a vida do traficante,
pois o ambiente é muito favorável e o perigo de ser flagrado, pequeno”,
explica o agente Robson. Como a ação da polícia esbarra
nos muros da escola, o gerenciamento do problema acaba nas mãos de diretores
e professores que, via de regra, não estão preparados para lidar
com a situação.
A
droga entrava no
colégio dentro de Bíblia
O jovem B.F.,
19 anos, estudou durante cinco meses em um dos mais tradicionais
internatos do interior do Estado até que foi expulso por
consumir e vender drogas dentro da escola, no ano de 2000. Antes
disso, B.F. havia passado por outras cinco escolas particulares
nas quais, segundo ele, o uso e o comércio de drogas era
uma prática comum. Hoje, se diz afastado do vício
e do tráfico e conta sua experiência.
Extra Classe – Porque você começou
a consumir drogas?
B.F. – Acho que se entra na droga pra resolver algo que
não se consegue ou pra se enturmar. Comecei fumando
cigarro normal, com 12 anos. Meus pais se separaram e acabei
pegando a saída mais fácil.
EC – Como você começou a vender
drogas dentro da escola?
B.F. – O filho do patrão (chefe do tráfico
na região) estudava na escola. Ele trazia a droga, me
repassava e eu distribuía pros caras. Isto me rendia
um porcentagem sobre o que eu vendia e ainda uma quantia de
droga como pagamento.
EC – De que forma a droga entrava?
B.F. – Normalmente dentro de uma Bíblia, daquelas
com fecho. Eles tiravam algumas páginas e acomodavam
a droga ali.
EC – E a distribuição, como era
feita?
B.F. - Da meia-noite até a 1h da manhã ninguém
entrava nos banheiros, somente nós. O aluno encarregado
da limpeza, que era do grupo, baixou ordem e todo mundo respeitava.
Ali a gente distribuía e consumia.
EC – Que tipo de drogas?
B.F. – Maconha, cocaína, lança-perfume.
EC – Quantos alunos faziam parte deste grupo?
B.F. – Posso dizer que, de 100 alunos, 40 consumiam drogas.
EC – E a direção da escola, os professores,
ninguém suspeitava?
B.F. – São uns alienados. Alguns até sabem,
mas não comentam nada porque o aluno é filho
de fulano de tal. Nesta escola, por exemplo, ninguém
desconfiava do cara que coordenava o tráfico lá dentro,
que era da família mais rica da cidade. Ele era muito
educado, se dava bem com todos os professores. É um
esquema muito organizado, não tem sistema de segurança
que bloqueie.
EC – Porque você foi expulso?
B.F. – O poder é muito desejado. Um cara do grupo
me dedou porque queria o meu lugar.
De olhos
bem
fechados
Dentro da instituição de ensino, muitos fatores contribuem para
inibir a denúncia. O medo de represálias, o risco de expor o nome
da escola e o rigor do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que
protege o menor, criam um clima de impotência e acabam mascarando o problema,
afirmam as autoridades policiais. “Os professores se queixam da falta de
suporte legal para agir. Sob o risco de sofrer um processo administrativo ou
deixar a escola estigmatizada, às vezes é mais fácil fechar
os olhos”, diz o diretor do Denarc, delegado Walter Wagner da Silva Gomes.
Na avaliação do vice-presidente do Sindicato das Escolas Particulares
(Sinep), Osvino Toillier, o assunto está deixando de ser tabu. “A
escola vem tratando a questão com mais coragem e determinação,
pois a droga não é um problema da escola, é um problema
social”, considera.
Há casos, porém, em que a escola decide agir com rigor, como ocorreu
no ano passado em um tradicional colégio particular da Grande Porto Alegre.
Depois de receber uma denúncia anônima, a direção
chamou a Brigada Militar e abriu o armário de um aluno, onde foi encontrado
um pacote com 40 gramas de maconha. A quantia, nada modesta, indicava que a droga
não era para consumo próprio. O caso foi parar na polícia.
Em uma escola particular da capital, um aluno foi expulso este ano por porte
de droga e outros três estão sendo acompanhados pelo Serviço
de Orientação Educacional, por terem sido flagrados consumindo
maconha nas dependências do colégio.
A maior preocupação das escolas, de acordo com o delegado Walter
Wagner, deveria ser a de adotar medidas rígidas em casos graves, para
evitar a propagação do problema. O artigo 16 da Lei de Tóxicos
enquadra como crime o porte de substâncias entorpecentes. No caso de infração
cometida por menores, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê algumas
medidas que vão desde a advertência até a internação
na Fundação de Apoio Sócio-Educativo (Fase). “A maioria
das escolas tem receio de infringir o ECA. Mas os adolescentes não têm
só direitos. Também têm deveres que devem ser cumpridos”,
aponta o orientador educacional do Colégio Rosário, Jurandy Farias.
Para o diretor do Departamento de Polícia Metropolitana, delegado Paulo
Cézar Jardim, a escola está vendendo a cultura da impunidade. “E
isto se reflete na sociedade”, dispara.
Estudante é o público alvo do mercado da droga
A pesquisa “Retratos da Escola 2”, realizada em 2000 e divulgada
no ano passado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Educação (CNTE) revela que o consumo de drogas está presente
em 32% das escolas de ensino médio e fundamental do país. O estudo
ouviu cerca de 20 mil alunos e dois mil professores e funcionários em
2.351 estabelecimentos de ensino municipais, estaduais e particulares. No item
tráfico, o Rio Grande do Sul ocupa o primeiro lugar em ocorrência
ocasional dentro (23,1%) e fora da escola (40,4%). De acordo com a presidente
da CNTE, Jussara Maria Dutra Vieira, a escola se tornou um local cobiçado
pela grande concentração de jovens, público-alvo do tráfico.
O consumo de drogas e o tráfico
Consumo nas dependências
internas da escola
%
nunca
79,1
ocasionalmente
17,6
sempre
3,3
Consumo nas dependências
externas da escola
%
nunca
59,1
ocasionalmente
29,7
sempre
11,2
Tráfico nas dependências
da escola
%
nunca
89,8
ocasionalmente
8,4
sempre
1,9
Fonte: CNTE
Estudo realizado em dezembro do ano passado pelos psiquiatras Patrícia
de Saibro e Sérgio de Paula Ramos, coordenadores da Unidade de Dependência
Química do Sistema de Saúde Mãe de Deus e da Clínica
de Bem-Estar do Mãe de Deus Center, mostra que o uso de drogas é maior
entre os estudantes da escola pública. A pesquisa entrevistou 1.600 alunos
de 14 estabelecimentos de ensino da Grande Porto Alegre para avaliar índices
de consumo entre os jovens. Os dados mostram o percentual do uso de drogas pelo
menos uma vez na vida, não necessariamente dentro da escola. Ramos, que
atua na área há 30 anos e há três supervisiona programas
de prevenção em nove escolas da Região Metropolitana, acredita
que o avanço das drogas na rede pública pode ser explicado por
dois fatores: falta de investimentos em prevenção e redução
do preço da droga, com a entrada do crack.
A pesquisa também mostrou que, naquelas escolas que não desenvolviam
programas preventivos, o consumo de álcool era 4,6% maior do que naquelas
que aderiram à prevenção, o de tabaco, 7,0% maior e o de
outras drogas, 0,4% superior. Nos últimos 15 anos o consumo de drogas
na rede pública cresceu de maneira explosiva. De acordo com o psiquiatra,
o uso de maconha avançou de 2,7% para 28%, o de cocaína pulou de
0,3% para 7,8% e o do tabaco, de 22% para 53%. “Os pais entregam os jovens
para os professores que, com o mundo desabando sobre seus ombros, os entregam
para o traficante. E o traficante é o único que não declina
de sua responsabilidade”, constata Ramos.
Prevenir
com informação
Na guerra
contra as drogas, a repressão deixou de ser a arma mais
eficaz. A abordagem conservadora, que enfatizava mensagens do
tipo “diga não às drogas”, foi substituída
pela informação no cotidiano escolar. Oito escolas
particulares da Região Metropolitana que há três
anos aderiram ao programa supervisionado pelo psiquiatra Sérgio
de Paula Ramos apresentaram significativa redução
do consumo entre os alunos. Os efeitos nocivos das drogas são
abordados nas disciplinas do currículo escolar desde a
pré-escola. “Os países de Primeiro Mundo
estão aplicando seus programas de prevenção
cada vez mais precocemente, pois é desta forma que se
consegue adiar a experimentação ”, destaca
Ramos.
A experiência de educadores e especialistas mostra que o álcool
e o tabaco são a porta de entrada para a escalada rumo às
substâncias ilícitas e ao vício, e que “bater” na
droga não funciona. “Nossa intenção é reduzir
os riscos de envolvimento por meio de mensagens de valorização
da vida”, ressalta o coordenador de ensino de 5ª e 8ª séries
e de ensino médio do Colégio Anchieta, Carlos Sffair. “Não
existe uma escola que não tenha alunos envolvidos com drogas”,
reconhece.
O orientador educacional do Colégio Rosário, Jurandy
Farias, diz que a escola deve incentivar práticas de preservação
da saúde e do bem-estar e buscar uma maior integração
com a família. “Relações interpessoais
de pouca qualidade representam um grande fator de risco“,
adverte.
A Secretaria Estadual de Educação tem trabalhado
no sentido de desmistificar a imagem da droga junto aos orientadores
educacionais. “Treinamos multiplicadores para uma abordagem
que dá ênfase à prática de esportes, à cultura
e ao lazer”, aponta a coordenadora da Divisão de Assistência
ao Educando da Secretaria Estadual de Educação, Tandra
Cristine Antochevis Milost. Também em nível nacional
as medidas preventivas ganham status. O governo federal determinou,
em outubro, que o Ministério da Educação (MEC) é o
novo responsável pela elaboração e análise
de políticas de prevenção ao uso de drogas,
função até então desenvolvida pela
Secretaria Nacional Antidrogas. A decisão sinaliza para
uma nova postura frente ao problema, em que educação
e prevenção devem ganhar lugar de destaque.
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