Ano 10 - nº 87
Novembro 2004



Luis Fernando Verissimo:
Fernando Sabino foi um dos amigos que herdei do meu pai.
Tínhamos uma coisa em comum: ele também, se lhe dessem a escolha a tempo, preferiria ter sido músico de jazz. Chegamos a nos apresentar juntos uma vez. A Traditional Jazz Band de São Paulo teve a temeridade de nos convidar para...




Nei Lisboa:
Parei de beber. Não que andassem me recolhendo da calçada para um abrigo nas madrugadas, mas o hábito já andava me incomodando há tempos, toda noite algumas doses e uma leve enrolada de língua, toda manhã uma ressaquinha impertinente. Então cortei de vez. Sábia decisão. Além de me...



Elisa Lucinda:

tá certo
Não nasci na roça é certo como Drumonnd e outros bois
nem como o Ignácio foi
criado nos pampas entre queijos bombachas e bostas de vacas brindando o chão
Não.
Mas vim do subúrbio onde finquei infância e lá tinha um jeito de ser vizinho
que só de hoje eu lembrar vai me fazer morrer comovida...





Lupi não é coisa do passado

Superando o folclore em torno de sua vida, Lupicínio Rodrigues (1914-1974) deixou uma obra que é mais atual e diversificada do que nunca, trinta anos após sua morte. Artistas em todo o Brasil ainda são influenciados por ele ou tem respingos de suas criações em seus trabalhos. Hoje é possível analisar a trajetória do artista para além do que pensam os amigos-biógrafos no ano em que se comemora 90 anos de seu nascimento e se lamenta os 30 anos de sua ausência.

Fábio Prikladnicki

e existe um boato e uma verdade sobre um determinado fato, publique-se o boato. A antiga e conhecida historinha define muito bem o que parece ter acontecido com Lupicínio Rodrigues, o homem que não inventou a dor-de-cotovelo, não compunha apenas sambas e também não era nenhum beberrão, como se supõe que seja um boêmio profissional. No ano em que são lembrados os noventa anos de seu nascimento e os trinta de sua morte, a história já está se encarregando de rever muitos dos mitos e das lendas que foram forjados em torno dele. A boa notícia: como acontece com os grandes artistas, quanto mais se investiga a obra de Lupicínio, mais expressiva e atual ela se mostra.

O jornalista Mário Goulart, que em 1984 escreveu um livro sobre ele, atesta: “Praticamente tudo que até então se sabia vinha de duas fontes, os amigos-biógrafos Demós-thenes Gonzales e Hamílton Chaves. De lá para cá, as coisas melhoraram. Penso ter contribuído um pouco, colhendo o depoimento de duas dezenas de amigos e parceiros do Lupi”. Alguns episódios são desconhecidos até hoje, como a verdadeira história que teria inspirado a música Ela Disse-me Assim, que Lupicínio jurava nunca revelar. “Lembro de ter ouvido algo vago na época, tão vago que decidi não pôr no livro”, conta Goulart.

Mas complexo mesmo é definir em poucas palavras o tipo de compositor que ele era. É bem verdade que se tornou um especialista no samba-canção, talvez o maior nome do gênero, rivalizado apenas por Herivelto Martins.

Acontece que Lupi também deixou sua marca em outras searas. Se o negócio é samba de gafieira, com muito teleco-teco, basta lembrar um de seus maiores sucessos: Se Acaso Você Chegasse, que estourou em 1938 na interpretação de Cyro Monteiro, e outra vez em 1968, com Elza Soares.

Reprodução: René Cabrales
Marchinhas carnavalescas? Lupi também compôs. Sua primeira música, aliás, foi uma delas. Feita em 1928 e intitulada Carnaval, acabou ganhando dois concursos, um em Porto Alegre, com o cordão carnavalesco Prediletos, e outro em Santa Maria, onde Lupicínio prestou serviço militar. Na verdade, houve um terceiro prêmio, em um episódio inusitado. A marcha foi apresentada em um concurso, duas décadas depois, mas com autoria atribuída a outros dois compositores. Lupi, que coincidentemente fazia parte da comissão julgadora, resolveu não abrir o bico. Deixou os meninos ganharem e ainda os convidou para tomar uma cerveja, como contou em uma de suas crônicas para o jornal Última Hora, em 1963.

Sambista sim, mas de bombacha e tudo

Além de provar que gaúcho sabe sambar, Lupicínio também celebrou as coisas da terra, em toadas gauchescas e outras músicas em que escancarava (quando não exagerava) seu amor pelo sul. Quem diria que sairiam das mãos de um sambista versos como: “Amigo, boleia a perna / Puxe o banco e vá sentando / Enquanto a chaleira chia / O amargo vou cevando”.

Nesse sentido, Lupicínio foi um precursor, e seu grande louro, a canção Felicidade, de 1947. Não que ele de fato vestisse a bombacha, mas em músicas como Jardim da Saudade (1956) chega a comparar o Rio Grande do Sul com o paraíso. E, na balança, o paraíso sai perdendo.

Algum tempo depois, na década de 70, ele participou de uma Califórnia da Canção, mas o resultado foi desastroso. Lupi foi vaiado vigorosamente enquanto cantava um pot pourri de suas canções. “Torciam o nariz pra ele”, lembra o músico e pesquisador Roberto Campos. “Até hoje muita gente dentro do nativismo não aceita muito bem o Lupicínio.” Ironicamente, foi uma toada gauchesca que fez seu nome ressurgir após anos de um quase esquecimento, quando as músicas do momento eram rock, bossa nova, entre outros.

Pouco antes de Lupi morrer, em 1974, Caetano Veloso realizou uma gravação histórica de Felicidade. Nunca é demais relembrar alguns versos: “Felicidade / Foi-se embora / E a saudade no meu peito / Ainda mora...”. E até hoje muita gente pensa que se trata de uma música folclórica, de domínio público. Nada disso. É que Lupicínio, como Drummond, era um poeta de sete faces, e nem todo mundo está acostumado a associar seu nome a todas elas.

A voz do povo em qualquer época

“Lupicínio esquecido?”, perguntava-se Augusto de Campos em um célebre artigo escrito em 1967. A resposta veio não apenas com Caetano, mas com praticamente toda a geração da música brasileira que despontou na época. Gal Costa (Volta), Paulinho da Viola (Nervos de Aço), Elis Regina (Cadeira Vazia e Maria Rosa), enfim, uma verdadeira trupe regravou suas músicas, apresentando a um novo público.

Como dor-de-cotovelo e sentimentos assemelhados são temas que não têm prazo de validade, Lupicínio não pertence mais a uma determinada época, e sim a várias. Compôs músicas que podem ser consideradas atemporais, e por isso ainda estão aí, vivinhas, na lembrança das pessoas.

Lupi não teve formação musical, compunha apenas assobiando, e mesmo assim criou melodias e estruturas harmônicas que pegam no contrapé muito músico tarimbado por aí. Também não completou seus estudos no colégio e acabou encontrando soluções criativas e inovadoras para muitas de suas letras.

Mas Lupicínio gostava mesmo era de cantar do jeito que o povo fala, como em uma conversa de boteco. Não é difícil encontrar, por exemplo, problemas de concordância em suas letras. Amigos e parceiros até tentavam corrigir, mas ele raramente dava o braço a torcer. Além disso, essa postura acabou gerando grande benefício: como também se recusava a usar palavras e expressões empoladas, sua música permanece atual, na riqueza de sua simplicidade. Trinta anos depois de sua morte, Lupicínio ainda está com cara de moço.

 Para ouvir Lupicínio
Lupicínio Rodrigues (Revivendo) – Caixa contendo quatro CDs com gravações originais, interpretadas por nomes como Orlando Silva, Francisco Alves, Linda Batista e o próprio Lupicínio.

Coisas Minhas: Lupicínio Rodrigues 90 Anos (BMG) – Disco duplo com gravações históricas (algumas presentes na caixa acima) e outras relativamente novas, como as de Fagner, Fafá de Belém e Arnaldo Antunes.

A Música de Lupicínio Rodrigues (Unimar) – Pequeno panorama de importantes gravações após a “redescoberta” de Lupi, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, entre outros.

Noite Ilustrada canta Lupicínio Rodrigues (Atração Fonográfica) – Treze das mais conhecidas canções de Lupi na voz elegante do cantor, morto no ano passado.

 Para ler Lupicínio
Foi Assim – O cronista Lupicínio conta as histórias das suas músicas (L&PM), org. de Lupicínio Rodrigues Filho.

Roteiro de Um Boêmio – Vida e Obra de Lupicínio Rodrigues (Sulina), de Demósthenes Gonzales.

Lupicínio Rodrigues – O poeta da dor de cotovelo, seus amores, o boêmio e sua obra genial (Tchê!/RBS), de Mário Goulart.

Melodia e Sintonia em Lupicínio Rodrigues – O feminino, o masculino e suas relações (Bertrand Brasil), de Maria Izilda S. de Matos e Fernando A. Faria.




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