Lupi não é coisa do passado
Superando o folclore em torno de sua vida, Lupicínio Rodrigues
(1914-1974) deixou uma obra que é mais atual e diversificada
do que nunca, trinta anos após sua morte. Artistas em todo
o Brasil ainda são influenciados por ele ou tem respingos
de suas criações em seus trabalhos. Hoje é possível
analisar a trajetória do artista para além do que
pensam os amigos-biógrafos no ano em que se comemora 90
anos de seu nascimento e se lamenta os 30 anos de sua ausência.
Fábio Prikladnicki

e
existe um boato e uma verdade sobre um determinado
fato, publique-se o boato. A antiga e conhecida historinha define muito bem o
que parece ter acontecido com Lupicínio Rodrigues, o homem que não
inventou a dor-de-cotovelo, não compunha apenas sambas e também
não era nenhum beberrão, como se supõe que seja um boêmio
profissional. No ano em que são lembrados os noventa anos de seu nascimento
e os trinta de sua morte, a história já está se encarregando
de rever muitos dos mitos e das lendas que foram forjados em torno dele. A boa
notícia: como acontece com os grandes artistas, quanto mais se investiga
a obra de Lupicínio, mais expressiva e atual ela se mostra.
O jornalista Mário Goulart, que em 1984 escreveu um livro sobre ele, atesta: “Praticamente
tudo que até então se sabia vinha de duas fontes, os amigos-biógrafos
Demós-thenes Gonzales e Hamílton Chaves. De lá para cá,
as coisas melhoraram. Penso ter contribuído um pouco, colhendo o depoimento
de duas dezenas de amigos e parceiros do Lupi”. Alguns episódios
são desconhecidos até hoje, como a verdadeira história que
teria inspirado a música Ela Disse-me Assim, que Lupicínio jurava
nunca revelar. “Lembro de ter ouvido algo vago na época, tão
vago que decidi não pôr no livro”, conta Goulart.
Mas complexo mesmo é definir em poucas palavras o tipo de compositor que
ele era. É bem verdade que se tornou um especialista no samba-canção,
talvez o maior nome do gênero, rivalizado apenas por Herivelto Martins.
Acontece que Lupi também deixou sua marca em outras searas. Se o negócio é samba
de gafieira, com muito teleco-teco, basta lembrar um de seus maiores sucessos:
Se Acaso Você Chegasse, que estourou em 1938 na interpretação
de Cyro Monteiro, e outra vez em 1968, com Elza Soares.
| Reprodução:
René Cabrales |

Marchinhas carnavalescas? Lupi também compôs. Sua primeira música,
aliás, foi uma delas. Feita em 1928 e intitulada Carnaval, acabou ganhando
dois concursos, um em Porto Alegre, com o cordão carnavalesco Prediletos,
e outro em Santa Maria, onde Lupicínio prestou serviço militar.
Na verdade, houve um terceiro prêmio, em um episódio inusitado.
A marcha foi apresentada em um concurso, duas décadas depois, mas com
autoria atribuída a outros dois compositores. Lupi, que coincidentemente
fazia parte da comissão julgadora, resolveu não abrir o bico. Deixou
os meninos ganharem e ainda os convidou para tomar uma cerveja, como contou em
uma de suas crônicas para o jornal Última Hora, em 1963.
Sambista sim, mas de bombacha e tudo
Além de provar que gaúcho sabe sambar, Lupicínio também
celebrou as coisas da terra, em toadas gauchescas e outras músicas em
que escancarava (quando não exagerava) seu amor pelo sul. Quem diria que
sairiam das mãos de um sambista versos como: “Amigo, boleia a perna
/ Puxe o banco e vá sentando / Enquanto a chaleira chia / O amargo vou
cevando”.
Nesse sentido, Lupicínio foi um precursor, e seu grande louro, a canção
Felicidade, de 1947. Não que ele de fato vestisse a bombacha, mas em músicas
como Jardim da Saudade (1956) chega a comparar o Rio Grande do Sul com o paraíso.
E, na balança, o paraíso sai perdendo.
Algum tempo depois, na década de 70, ele participou de uma Califórnia
da Canção, mas o resultado foi desastroso. Lupi foi vaiado vigorosamente
enquanto cantava um pot pourri de suas canções. “Torciam
o nariz pra ele”, lembra o músico e pesquisador Roberto Campos. “Até hoje
muita gente dentro do nativismo não aceita muito bem o Lupicínio.” Ironicamente,
foi uma toada gauchesca que fez seu nome ressurgir após anos de um quase
esquecimento, quando as músicas do momento eram rock, bossa nova, entre
outros.
Pouco antes de Lupi morrer, em 1974, Caetano Veloso realizou uma gravação
histórica de Felicidade. Nunca é demais relembrar alguns versos: “Felicidade
/ Foi-se embora / E a saudade no meu peito / Ainda mora...”. E até hoje
muita gente pensa que se trata de uma música folclórica, de domínio
público. Nada disso. É que Lupicínio, como Drummond, era
um poeta de sete faces, e nem todo mundo está acostumado a associar seu
nome a todas elas.
A voz do povo em qualquer época
“Lupicínio esquecido?”, perguntava-se Augusto de Campos em
um célebre artigo escrito em 1967. A resposta veio não apenas com
Caetano, mas com praticamente toda a geração da música brasileira
que despontou na época. Gal Costa (Volta), Paulinho da Viola (Nervos de
Aço), Elis Regina (Cadeira Vazia e Maria Rosa), enfim, uma verdadeira
trupe regravou suas músicas, apresentando a um novo público.
Como dor-de-cotovelo e sentimentos assemelhados são temas que não
têm prazo de validade, Lupicínio não pertence mais a uma
determinada época, e sim a várias. Compôs músicas
que podem ser consideradas atemporais, e por isso ainda estão aí,
vivinhas, na lembrança das pessoas.
Lupi não teve formação musical, compunha apenas assobiando,
e mesmo assim criou melodias e estruturas harmônicas que pegam no contrapé muito
músico tarimbado por aí. Também não completou seus
estudos no colégio e acabou encontrando soluções criativas
e inovadoras para muitas de suas letras.
Mas Lupicínio gostava mesmo era de cantar do jeito que o povo fala, como
em uma conversa de boteco. Não é difícil encontrar, por
exemplo, problemas de concordância em suas letras. Amigos e parceiros até tentavam
corrigir, mas ele raramente dava o braço a torcer. Além disso,
essa postura acabou gerando grande benefício: como também se recusava
a usar palavras e expressões empoladas, sua música permanece atual,
na riqueza de sua simplicidade. Trinta anos depois de sua morte, Lupicínio
ainda está com cara de moço.

Lupicínio Rodrigues (Revivendo) – Caixa
contendo quatro CDs com gravações originais,
interpretadas por nomes como Orlando Silva, Francisco
Alves, Linda Batista e o próprio Lupicínio.
 Coisas
Minhas: Lupicínio Rodrigues 90
Anos (BMG) – Disco duplo com gravações
históricas (algumas presentes na caixa acima)
e outras relativamente novas, como as de Fagner,
Fafá de Belém e Arnaldo Antunes.
 A
Música de Lupicínio Rodrigues
(Unimar) – Pequeno panorama de importantes
gravações após a “redescoberta” de
Lupi, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina,
entre outros.
 Noite
Ilustrada canta Lupicínio Rodrigues
(Atração Fonográfica) – Treze
das mais conhecidas canções de Lupi
na voz elegante do cantor, morto no ano passado.
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Foi Assim – O cronista Lupicínio conta
as histórias das suas músicas (L&PM),
org. de Lupicínio Rodrigues Filho.
 Roteiro
de Um Boêmio – Vida e Obra
de Lupicínio Rodrigues (Sulina), de Demósthenes
Gonzales.
 Lupicínio
Rodrigues – O poeta da
dor de cotovelo, seus amores, o boêmio e
sua obra genial (Tchê!/RBS), de Mário
Goulart.
 Melodia
e Sintonia em Lupicínio Rodrigues – O
feminino, o masculino e suas relações
(Bertrand Brasil), de Maria Izilda S. de Matos
e Fernando A. Faria.
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