Boi Tenho

tá certo
Não nasci na roça é certo como Drumonnd e
outros bois
nem como o Ignácio foi
criado nos pampas entre queijos bombachas e bostas de vacas brindando
o chão
Não.
Mas vim do subúrbio onde finquei infância e lá tinha
um jeito de ser vizinho
que só de hoje eu lembrar vai me fazer morrer comovida
com um xícara de açúcar emprestado pra completar
ingrediente.
gente, não nasci na roça
mas tinha padeiro com pães combinando com o vime da cesta
e
o cheiro morno anunciando passado recente de forno e fortes mãos
na boa massa.
Não nasci na roça
mas peguei muita fruta no pé
trepei em arvore e chupei de escorrer pelos antebraços manga-rosa
de todo tamanho e tipo.
sou do tipo que se fosse uma laranja seria seleta,
tamanha fora a festa desse caldo em mim.
não nasci na roça, tá certo mas todo mundo
tinha uma roça dentro:
nas quermesses nas procissões nos pregões dos verdureiros
como o sino da igreja e a aquarela das manhas.
Cana por exemplo era uma geometria cortada meticulosamente por
minha vó Maria e a frente do aventalzinho de ge.
do vestido da gente virava uma cestinha de pano carregando aquele
conjunto.
Tinha horta, galinha, dona helena do padre que levantava bem a
bunda ao se dobrar pra colher coentro e salsinha
levantava a bunda por vício de o padre tanto pedir tempero,
eu acho.
tinha pouca coisa pronta e nenhuma congelada
então bicho se matava em casa, frango porco peru e se via
o crime.
não tinha curtume é certo mas tinha o costume de
ouvir o ângelus e depois jantar.
Era bom! Radio luz fraca que faltava sempre, praça, desobediências...
Não nasci na roça, ta certo.
Mas vi de perto, e sei que isso é um episódio raro.
seu Aurélio o leiteiro dando de comer banana pelo nariz
ao pobre do cavalo.
tá certo tá certo
não nasci na roça
mas por de sol e céu estrelado de ofuscar os olhos eu
sempre vi de perto
Foi esse o meu rebanho iniciático
essa infância sortida de subúrbio
essa roça paralalelepípeda com intervalos de terra
vermelha e tanajuras
uma jura que fincou metáfora de boi na minha história
e deu esse tipo de pasto à minha memória.
poesiaviva@meuprovedor.com.br