JOSÉ MURILO DE CARVALHO
Justiça...só para os ricos
O mineiro de fala mansa José Murilo
de Carvalho é professor titular da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), mas quando o assunto é cidadania
e educação, apesar do volume baixo de sua voz, o
conteúdo do que diz é chumbo grosso. Ele tem no currículo
diversas experiências no exterior, é graduado em Sociologia
e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
mestre, doutor e pós-doutor em Ciência Política
pela Stanford University (EUA), e pós-doutor pela London
University (Inglaterra), onde se aprofundou em História
Latino-Americana. Hoje é Professor do Departamento de História
da UFRJ e Coordenador do Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais da mesma Universidade. É um crítico contumaz
da falta histórica de estrutura no ensino em geral e da
precariedade da Justiça e das polícias no Brasil,
fatores que considera serem determinantes na precarização
do acesso aos direitos civis mais básicos da maioria da
população, como justiça e proteção à integridade
física dos cidadãos mais pobres, fenômeno que,
segundo ele, indica que aspectos da cidadania no país vão
muito mal e há muitos séculos. A entrevista que segue
foi concedida com exclusividade ao Extra Classe no saguão
do Everest Hotel durante sua passagem por Porto Alegre para sua
palestra no seminário Intérpretes do Brasil, promovido
pela Copesul e apoiado pelo Sinpro/RS.
César Fraga
Extra
Classe – Como
anda a questão da cidadania no Brasil?
José Murilo de Carvalho – O maior
problema relacionado à questão
da cidadania no momento atual é o fato de que já estamos com 20
anos de redemocratização política no país, no entanto,
certas dimensões da cidadania, sobretudo na parte so-cial, continuam sem
solução. A tese com a qual eu trabalho é de que da redemocratização
para cá o índice de desigualdade no Brasil não se alterou.
Há um crescimento lento da renda, mas a distância entre ricos e
pobres continua a mesma nesses 20 anos. O Brasil continua sendo um dos piores
países do mundo no índice indicador de desigualdade social, ocupando
o quarto ou quinto lugar no ranking. Esse é um problema que me preocupou
e me levou a recuar no tempo para tentar entender por que temos |
|
essa enorme
dificuldade em alterar essa realidade. Foi isso que motivou a feitura
do meu livro Cidadania no Brasil – O longo caminho que propunha
um debate amplo e não apenas acadêmico. Na ocasião,
utilizei como instrumento de análise a distinção
que o Marshall faz dos vários tipos de direito, das várias
dimensões da cidadania. Em geral, quando se fala em redemocratização
se pensa quase que exclusivamente na parte política. Ou
seja, houve uma redemocratização no país logo
que acabou a ditadura militar, mas esse é um conceito muito
restrito. A cidadania, na concepção de Marshall,
não se restringe apenas à questão política,
mas expande para os âmbitos civil e social, sem falar em
outros que poderiam fazer parte do debate como identidade coletiva.
Esse livro foi feito há três anos e nada se alterou,
apesar de ter subido ao poder, se não um partido, um presidente
que enfatiza, pelo menos na sua propaganda, discursos e no programa
do partido, este lado social.
EC – O Governo Lula pode dar alguma resposta mais efetiva
a essas questões?
Murilo de Carvalho – Está para ser visto o resultado
disso, mas até agora nada de impressionante ocorreu. Na
realidade, o que se fez foi sistematizar um pouco o que já estava
sendo feito no governo ante-rior e ampliar este programa. É preciso
aguardar até o final do governo para que se possa fazer
uma análise mais consistente. E considero isso importante,
pois não há democracia política sólida
no que se refere à liberdade e participação
caso não se produza resultados que tenham a ver com a vida
das pessoas. Significa manter a desigualdade entre elas. Devemos
lembrar que a maioria dos direitos, vide a CLT, foram adquiridos
durante uma ditadura. Agora está posto um desafio, avançar
em relação a isso dentro do ambiente democrático
sem que as reformas legais impliquem em perda de direitos.
EC – Isso não tem relação com a história
democrática brasileira ser muito recente? Afinal, desde
que existe a República, o país teve breves períodos
de exercício democrático. Isso obviamente reflete
na cultura política.
Murilo de Carvalho – Se formos olhar por esse aspecto,
a democracia no Brasil começou em 1930. Antes disso era
muito pequena a participação popular nos aspectos
referentes à vida política do país. Mesmo
tendo direitos civis desde o início, na prática
os que gozavam plenamente desses direitos representavam uma parcela
pequena da população.
EC – E é assim até hoje, não é mesmo?
Murilo de Carvalho – Trata-se de uma questão de
classe. Os mais privilegiados financeiramente têm mais
informação, sabem a quem recorrer, conhecem minimamente
as leis e podem pagar advogados. Agora, quando se vai lá embaixo
da pirâmide social, nos 80% da população
mais pobres, a coisa é muito precária. No Rio de
Janeiro, onde moro, nem se fala.
EC – As condições de acesso à proteção
da Lei e da Justiça são precarizados para 80% da
população do país. É isso que o senhor
está afirmando?
Murilo de Carvalho – Veja bem. Pelo menos 50 milhões
de brasileiros vivem abaixo do nível da pobreza (com renda
familiar de até meio salário mínimo). Acrescente-se
a esse número os que ganham até um salário
mínimo. Essa gente obviamente tem problemas de formação
educacional e de recursos para ir atrás dos seus direitos.
Nas grandes cidades, como Rio de janeiro e São Paulo,
a situação é pior. A polícia atua
de forma inadequada e o judiciário absolutamente não
cumpre seu dever. A Justiça brasileira trabalha com um
grau de lentidão absurdo. Tem uma pesquisa feita no Rio
de Janeiro em 1997, mas que ainda reflete a realidade. Utilizei
ela para embasar minhas posições no meu livro.
A pesquisa mostrou que 57% dos entrevistasdos não sabiam
mencionar um só direito e só 12% mencionaram algum
direito civil. Quase a metade achava que era legal a prisão
por simples suspeita.
EC – O que se conclui disso?
Murilo de Carvalho – Que o fator mais importante no que
se refere ao conhecimento dos direitos é a educação.
O índice de desconhecimento dos direitos caía de
64% entre os entrevistados que tinham até a 4ª série
para 30% entre os que tinham o terceiro grau, mesmo que incompleto.
Os dados revelam ainda que educação é o
fator que mais bem explica o comportamento das pessoas no que
se refere ao exercício dos direitos civis e políticos.
Os mais educados se filiam mais a sindicatos, a órgãos
de classe, a partidos políticos. Esses são exemplos
que podem ser vistos como um termômetro da cidadania.
"...educação
é o fator
que mais
bem explica
o comportamento
das pessoas
no que se refere
ao exercício
dos direitos civis
e políticos"
|
|
EC – A tradição da polícia brasileira
vem da caserna, com orientação abertamente militar.
O senhor já analisou este perfil de nossa polícia
e tem um posicionamento bastante crítico em relação às
conse-qüências disso no alijamento de direitos dos
cidadãos e na ineficácia da ação
policial na proteção das pessoas e na aplicação
da Lei. O senhor poderia nos explicar seu ponto de vista?
Murilo de Carvalho – Aqui vocês chamam a polícia
de Brigada Militar, correto? Isso não é polícia. É exército.
E isso tem uma história. As polícias militares
estaduais cresceram durante a Primeira República, com
a implantação do federalismo. Os grandes estados,
como São Paulo (que tinha até aviões), Minas
Gerais (há o episódio de Artur Bernardes que usou
a polícia mineira para tomar posse) e o Rio Grande do
Sul, fizeram delas pequenos exércitos locais, instrumentos
de poder na disputa pela presidência da República.
O Exército, após 1930, estabeleceu o controle sobre
as polícias militares pois havia brigas entre ambos pelo
monopólio da força. Na ditadura Vargas, no Estado
Novo, elas ficaram sob jurisdição do Ministério
da Guerra (atual Ministério do Exército), que proibiu
o uso de armamento pesado. A Constituição de 1946
manteve parcialmente o controle, declarando as polícias
estaduais forças auxiliares e reservas do Exército.
Durante o governo militar, as polícias militares ficaram
sob o comando de oficiais do Exército e completou-se o
processo de militarização de seu treinamento. Elas
tinham órgãos de inteligência e repressão
política, atuando em conjunto com os seus correspondentes
nas forças armadas. A Constituição de 1988
apenas tirou do Exército o controle direto das polícias
militares, transferindo-o para os governadores dos estados. Elas
permaneceram como forças auxiliares e reservas do Exército
e mantiveram suas características. Tornaram-se novamente
pequenos exércitos que às vezes escapam ao controle
dos governadores. Essa organização militarizada
tem se revelado inadequada para garantir a segurança dos
cidadãos. O soldado da polícia é treinado
dentro do espírito militar e com métodos militares
para combater e destruir inimigos e não para proteger
cidadãos. Ele é aquartelado, responde a seus superiores
hierárquicos, não convive com os cidadãos
que deve proteger, não os conhece, não se vê como
garantidor de seus direitos. Nem no combate ao crime as polícias
militares têm se revelado eficientes. Pelo contrário,
nas grandes cidades, e mesmo em certos estados da federação,
policiais militares e civis têm se envolvido com criminosos
e participado de um número crescente de crimes. Os que
são expulsos da corporação se tornam criminosos
potenciais, organizam grupos de extermínio e participam
de quadrilhas. Mesmo a polícia civil, que não tem
treinamento militarizado, vem se mostrando incapaz de agir dentro
das normas de uma sociedade democrática. É lamentável,
pois existe toda uma cultura incutida aí que não
serve mais. Na maioria dos países, as polícias
tem controle externo; no Brasil, além de elas brigarem
entre si, elas insubordinam-se ao Estado e agem sem controle.
EC – E o Ministério Público?
Murilo de Carvalho – Em tese, segundo a Constituição,
a polícia civil está sob controle do Ministério
Público. Mas na prática nenhum promotor vai para
as delegacias. O que acontece é que muitos promotores
do MP passaram a quebrar o monopólio da Polícia
Civil nas investigações. Isso permitiu que muitos
graúdos fossem algemados. Há excessos, mas isso
foi um grande avanço, pois é um fato novo na história
do Brasil. Mas a Polícia Civil continua por conta. Se
o MP tiver seu espectro de ação restringido pelo
Governo essas iniciativas podem se perder.
EC – Os crimes de colarinho podem ficar sem punição
novamente?
Murilo de Carvalho – Sim. Quando o MP incomodava o Fernando
Henrique o pessoal que está no poder hoje era a favor
das investigações. Agora que são os investigados
querem segurar o MP.
EC – E os cidadãos mais humildes
continuam desprotegidos?
Murilo de Carvalho - Esse é um capítulo que tem
a ver com direitos civis. Para a classe média o problema
não é tão sério, mas para a maio-ria
da população é uma questão central
e quando se fala em direitos civis se fala da proteção
das instituições e dos direitos dos cidadãos.
Em primeiro lugar, há uma necessidade de educação.
As pesquisas que a gente andou fazendo apontam que as pessoas
não conhecem seus direitos, certo? Isso vem de uma longa
tradição que vem de Portugal, de descaso pela educação
primária e secundária e de ensino superior voltado
para a elite. Chegamos ao século 21 com taxas de 30% de
analfabetismo. Foi melhorado o problema do acesso à escola
em número de matrículas, mas não se avançou
na qualidade. Há um atraso histórico de séculos
nesse processo. As grandes discussões existentes no judiciário
desde o início da República têm a ver mais
com relação com divisão de poderes e menos
com a eficácia na garantia de direitos. A independência
do Judiciário ainda é a pauta há mais de
um século.
EC – São discussões corporativas antigas,
então? Mas não há avanço?
Murilo de Carvalho – Sim. Vemos isso no noticiário
há muito tempo. Ora um presidente do supremo está às
turras com o executivo, ora outro está em lua-de-mel.
Somente de uns 10 anos para cá é que começou
a existir dentro do Judiciário uma preocupação
de ampliação de acesso à Justiça.
Para mim particularmente o que interessa é isso, muito
mais do que a divisão de poderes. As estatísticas
são lamentáveis. A Justiça deveria ter uma
espécie de SUS judiciário. Ao invés de Palácios
da Justiça deveriam existir varas dentro das comunidades,
nas favelas, para tirar a judiciário do castelo. Mas isso é muito
difícil, pois há uma resistência muito grande.
Porém há avanços, é o exemplo dos
juizados especiais, que pretendem simplificar, agilizar e baratear
a prestação de justiça em causas civis de
pequena complexidade e em infrações penais menores.
Essas inovações legais e institucionais foram importantes,
e algumas já dão resultado, principalmente na área
de direito do consumidor, mas isso é coisa de classe média.
Mesmo assim os juizados especiais têm tido algum efeito
em tornar a justiça mais acessível, apesar de já enfrentar
o interesse corporativo dos advogados e apresentar alguma lentidão.
No entanto, pode-se dizer que, dos direitos que compõem
a cidadania, no Brasil são ainda os civis que apresentam
as maiores deficiências em termos de seu conhecimento,
extensão e garantias.
EC – Mas como podemos medir
a falta de direitos?
Murilo de Carvalho – A questão é simples.
Por que um cidadão que faz parte dessa maioria pobre
vai se preocupar se há censura na imprensa ou se o Congresso é fechado
se tudo que lhe importa é apenas sobreviver? A liberdade é questão
secundária para ele. Esse indivíduo está excluído
de qualquer debate. Isso pode ser medido por pesquisas feitas
pelo IBGE. Os dados que tenho são de 1988, mas não
mudou muita coisa, inclusive, de lá para cá,
deve ter piorado. O IBGE diz que 4,7 milhões de pessoas
de 18 anos ou mais envolveram-se em conflitos. Destas, apenas
62% recorreram à justiça para resolvê-los.
A maioria preferiu não fazer nada ou tentou resolvê-los
por conta própria. Especificando-se o conflito e as
razões da falta de recurso à justiça,
os dados são ainda mais reveladores. Assim, nos conflitos
referentes a roubo e furto, entre os motivos alegados para
não recorrer à justiça, três tinham
diretamente a ver com a precariedade das garantias legais:
28% alegaram não acreditar na justiça, 4% temiam
represálias, 9% não queriam envolvimento com
a polícia. Ao todo, 41% das pessoas não recorreram
por não crer na justiça ou por temê-la.
Os dados referentes aos conflitos que envolviam agressão
física revelam que 45% não recorreram à justiça
pelas mesmas razões. É importante notar que também
nessa pesquisa o grau de escolaridade tem grande importância.
Entre as pessoas sem instrução ou com menos de
um ano de instrução, foram 74% as que não
recorreram. A porcentagem cai para 57% entre as pessoas com
12 ou mais anos de instrução. A pesquisa na região
metropolitana do Rio de Janeiro, já mencionada, mostra
que a situação não se alterou nos últimos
dez anos. Os resultados mostram que só 20% das pessoas
que sofrem alguma violação de seus direitos — furto,
roubo, agressão etc. — recorrem à polícia
para dar queixa. Os outros 80% não o fazem por temor
da polícia ou por não acreditarem nos resultados.
EC – A segurança individual é outro
fator?
Murilo de Carvalho – Sim. A falta de garantia dos direitos
civis se verifica sobretudo no que se refere à segurança
individual, à integridade física, ao acesso à justiça.
O rápido crescimento das cidades transformou o Brasil
em um país predominantemente urbano em poucos anos.
Em 1960, a população rural ainda superava a urbana.
Em 2000, 81% da população já era urbana.
Junto com a urbanização, surgiram as grandes
metrópoles. Nelas, fazer a combinação
de desemprego, trabalho informal e tráfico de drogas
criou um campo fértil para a proliferação
da violência, sobretudo na forma de homicídios
dolosos. Os índices de homicídio têm crescido
sistematicamente. Na América Latina, o Brasil só perde
para a Colômbia, país em guerra civil. A taxa
nacional de homicídios por 100 mil habitantes passou
de 13 em 1980 para 23 em 1995, quando é de 8,2 nos Estados
Unidos. Nas capitais e outras grandes cidades, ela é muito
mais alta: 56 no Rio de Janeiro, 59 em São Paulo, 70
em Vitória. Roubos, assaltos, balas perdidas, seqüestros,
assassinatos, massacres passaram a fazer parte do cotidiano
das grandes cidades, trazendo a sensação de insegurança à população,
sobretudo nas favelas e bairros pobres.
Foto:
René Cabrales |
"A
polícia atua
de forma
inadequada
e o judiciário
absolutamente não
cumpre seu dever.
A Justiça brasileira
trabalha com um
grau de lentidão
absurdo" |
|
|
EC – O senhor, como professor que é, também
tem uma visão bastante crítica da estrutura educacional
brasileira, particularmente da universidade privada e do confronto
da cultura ibérica católica e da protestante.
O senhor acha que a forma como a educação brasileira
se estruturou ao longo da história contribuiu para a
precarização da cidadania?
Murilo de Carvalho – A escola pública básica
e secundária sem dúvida negligenciou sistematicamente
a promoção dos direitos. Já a superior
pública segue a herança portuguesa de ser elitista.
EC – E como o senhor define o modelo brasileiro de educação
superior privada diante da realidade mundial e do próprio
mercado? O senhor, inclusive, critica o excesso de dependência
das Instituições privadas das anuidades dos alunos.
Murilo de Carvalho – Costumo dizer que a escola particular,
em nossa tradição, significa negócio.
Os ricos só aplicam dinheiro em educação
para ter lucro, mesmo que reivindiquem para suas escolas o
status de filantrópicas (não-lucrativas). Para
piorar, a educação particular é um negócio
que se baseia quase que exclusivamente na anuidade paga pelos
alunos. É daí que surge o fenômeno das
Universidades caça-níqueis, citadas pelo Ministro.
Oferecem graduação de baixa qualidade, sem pesquisa
e sem pós-graduação. Se não olhássemos
tanto para o próprio umbigo, notaríamos que existe
outra tradição de Universidade particular, baseada
na idéia do negócio como educação.
Das 15 melhores Universidades de pesquisa norte-americanas,
classificadas anualmente pelo US News and World Report, e que
estão também entre as melhores do mundo, todas
são particulares. Em 2002, as dez primeiras eram: Princeton,
Harvard, Yale, Caltech, MIT, Stanford, Pennsyl-vania, Duke,
Columbia, Dart-mouth. Todas recebem dinheiro do governo via
contratos de pesquisa. Mas o grosso da receita vem de fontes
privadas e doações. O mais importante é que
o dinheiro proveniente das anuidades responda por uma parcela
menor do orçamento. Em Stanford, fica em menos de 20%
e é quase todo gasto em despesas com estudantes. O restante
das receitas privadas provém de doações,
de rendas patrimoniais e de investimentos. No ano de 2000,
130 Universidades, particulares e públicas, receberam
US$ 14,3 bilhões em doações. A melhor
colocada nessa lista, Stanford, arrecadou US$ 580 milhões,
13% de seu orçamento total, várias vezes o orçamento
de muitas Universidades públicas brasileiras. As doações
vêm de algumas fundações e de uma multidão
de indivíduos, sobretudo de ex-alunos, que são
constantemente bombardeados com pedidos doações.
EC – Mas isso tem uma história.
Murilo de Carvalho - A maioria das grandes Universidades de
pesquisa foi construída a partir do século 18 – com
exceção de Harvard, que é de 1636– com
base em doações de particulares. Tome-se, como
exemplo, a Universidade de Chicago. Seu desempenho é invejável.
Fundada em 1890, por ela já passaram, como professores,
alunos ou pesquisadores, 73 prêmios Nobel. Desde 1979,
dez de seus professores ganharam esse prêmio. No pólo
oposto de nossas Universidades particulares, Chicago tem duas
vezes mais alunos na pós-graduação (8.500)
do que na graduação (4.000). Os alunos são
recrutados nos 50 Estados norte-americanos e em 41 países.
EC –Em um artigo o senhor afirma que essas instituições
levantaram mais de 14 bi em 2000? Como o senhor explica esse
fenômeno e o que falta aos empresários brasileiros
da educação?
Murilo de Carvalho – Esse é um fenômeno
típico americano, mas é um bom exemplo de como
as coisas podem ou poderiam ser. Talvez se trate de interesse,
religião, filantropia... A religião pode explicar
parte do fenômeno. As primeiras Universidades eram con-fessionais.
No caso de Rockfeller, por exemplo, as convicções
batistas influenciaram sua decisão, que fez uma doação
inicial para a Universidade de Chicago de US$ 600 mil sob a
condição de que se levantassem, dentro de um
ano, outros US$ 400 mil para constituir o fundo inicial da
Universidade. A con-trapartida dos foi levantada entre os ricos
de Chicago e a Universidade começou a funcionar. Rockfeller
continuou fazendo doações até 1910, totalizando
US$ 35 milhões, soma equivalente, hoje, a cerca de US$
620 milhões. Mas muitos doa-dores dessas universidades
não eram religiosos. Em todos os casos, no entanto,
estava presente o sentimento da filantropia, a vontade de usar
a riqueza particular para promover o bem coletivo. Entre nós,
quando o Estado federal começou a abandonar a educação
superior, cresceu também o interesse dos empresários
pela área, que hoje dominam. Mas, até agora,
esses empresários só se têm interessado
pela educação como negócio, nunca colocaram
o negócio a serviço da educação,
o lucro particular a serviço do interesse público.
Falta entre nós a educação do negócio.
Qual a razão? Subdesenvolvimento? Miopia social? Instinto
predador? Nossa burguesia parece ter espírito capitalista,
mas lhe falta ética protestante ou outra qualquer. Deixo
essa provocação.