Tecnologia e comportamento de risco
As
novas tecnologias de informação estão
aí para
quem quiser. São milhares de traquitanas e maquininhas
que ajudam os seres humanos de todo o planeta a se comunicar:
internet, celular, pagers, canais de satélite,
etc. Enfim, uma infinidade de possibilidades de comunicação
se abre e junto com isso também aumentam os perigos.
Porém, o que se observa, tanto no âmbito
profissional como pessoal, é que os usuários
das novas tecnologias de informação têm
um comportamento de risco, colocando desavisadamente
(ou avisadamente) suas
privacidades e dados das empresas em que atuam à disposição
de terceiros. Aos consumidores de produtos tecnológicos
não é fornecido um manual de segurança
ou de boas maneiras. Mas aos poucos a humanidade vai per- |
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cebendo que com tantos avanços
também surge a necessidade de uma série de cuidados
e que isso implica mudança de comportamento.
Jimi Joe

érgio
Vasconcelos, 44
anos, jornalista e ex-proprietário de lojas de discos, tem uma relação
de longa data com as chamadas novas tecnologias. Desde o surgimento da Internet
ele tem sido
um dos habitantes freqüentes do ciber-espaço. A mesma coisa se deu
com ele quando veio a invasão da telefonia celular. Vasconcelos é o
que se pode chamar de consumidor consciente. “Eu sempre soube desde o início,
no caso da internet, dos perigos de transmissão de vírus pela rede.
Como eu sabia que iria usar a rede como fonte básica no meu campo de trabalho,
que é o mercado musical, eu procurei me informar e soube desde o princípio
dos perigos gerados por essa nova tecnologia.” Quando passou a usar a telefonia
celular, Vasconcelos também se cercou de todos os cuidados e informações. “Claro
que tem coisas para as quais eu não dou a mínima, como, por exemplo,
essa história de que o tipo de onda gerado pela telefonia celular pode
causar danos à saúde. Não sei se é verdade ou mentira,
mas eu não vou deixar de usar celular por causa disso.” As preocupações
de Vasconcelos com o celular são de outra natureza. “A mim me interessa
saber que o meu celular pode ser clonado, porque isso significa que eu posso
perder dinheiro com isso ou mesmo ter meu nome prejudicado no mercado.”
| Ilustração:
Claudete Sieber |

Para uma representante de uma geração posterior, a paulista Fernanda
Coronado, 30 anos, fotógrafa e produtora cultural, as novas tecnologias
não são bichos-de-sete-cabeças. “Estes produtos, como
celular, internet, até mesmo o telefone fixo e o computador portátil,
fazem parte do meu cotidiano como se fossem parte da minha maneira de raciocinar
e resolver questões como pagar uma conta, me comunicar com pessoas distantes
e até mesmo começar novos contatos profissionais.” Embora
tome cuidados já habituais como utilização de antivírus
no computador e não utilizar o celular em alguns locais como aeroportos,
Fernanda diz que não fica pensando muito em como funcionam as coisas. “Sinceramente,
nunca parei pra pensar como funcionam o caixa eletrônico, o celular, o
telefone. Só o computador mesmo, que eu mesma resolvo os problemas que
ele apresenta. A certeza que eu tenho é que quando essas tecnologias param,
minha vida pára junto. Eu quero dizer que uso as coisas como se fosse
o meu braço... E eu não fico ligando para anatomistas para saber
por que meu braço dobra. Justamente porque já cresci no meio disso
tudo!” Ao mesmo tempo, ela deposita confiança nos responsáveis
pela adoção de novas tecnologias. “Acho que são funcionalidades
que pessoas responsáveis por isso criaram para minha geração.
E sendo assim acredito que existam também responsáveis por avaliar
o seu funcionamento.”
O perigo é real no mundo virtual
Para saber até que ponto você, eu e todas essas pessoas que andam
ao nosso redor – mesmo que às vezes a gente insista em não
se dar conta – fazem parte do nosso mundo, e se estamos seguros ao nos
conectarmos à internet por um computador caseiro ou ao usarmos um telefone
celular, fomos ouvir um especialista no assunto. Na verdade, a julgar por algumas
das declarações de nosso entrevistado, seria melhor começar
dizendo até que ponto devemos nos sentir inseguros ao entrar no aparentemente
festivo e mágico ambiente virtual do ciberespaço onde, virtualmente,
tudo é permitido, de sexo sem camisinha à “criação” de
dinheiro. Mas nesse mundo de faz-de-conta, muitas vezes as perdas são
reais e traumáticas. Gior-dani Rodrigues, nosso guia nesta viagem pelos
perigos da virtualidade, é editor do site InfoGuerra – Segurança
e Privacidade (
www.infoguerra.com.br).
EC – Os sites de instituições bancárias, por exemplo,
são tidos como de “plena confiança”. Os golpes contra
correntistas se dariam mais na base do envio de correspondência falsa
do site bancário, encaminhando o correntista a um site fantasma onde
deixaria seus dados?
Giordani Rodrigues – Os golpes que se tem visto nos últimos anos
usam praticamente apenas o ataque ao cliente e não ao sistema do banco.
O sistema do banco, quando se refere ao site autêntico, tem um nível
de segurança que afasta os golpistas, geralmente interessados no esquema
mais fácil. Já o usuário comum pode ser uma vítima
fácil de um programa para roubar senhas, sob uma alegação
qualquer. Se a máquina do cliente for comprometida, qualquer site que
ele acesse, mesmo o mais seguro do mundo, perderá sua segurança.
Estima-se que 5% dos destinatários de mensagens fraudulentas caem nas
armadilhas. Multiplique isso por milhares de e-mails que podem ser enviados
de uma só vez, e terá idéia do impacto e de como estas
fraudes podem ser atraentes para estes novos golpistas.
EC – Há alguns meses aconteceu um caso de “criação” de
dinheiro virtual. Os fraudadores teriam conseguido entrar num site real de
um banco no norte do país, criando um depósito de um valor absurdo
e inexistente. Depois, esse valor teria sido transferido, em quantias menores,
para várias contas reais, pertencentes a pessoas reais (laranjas), aqui
em Porto Alegre. Como funciona isso? Onde está o furo no sistema em
casos assim?
Giordani Rodrigues – Até onde eu saiba, este golpe contou com
a colaboração de um atacante “insider”, isto é,
de um funcio-nário do ban-co. Neste caso não se trata apenas
de um acesso remoto ao sistema da instituição, mas sim de um
ataque misto, inclusive de origem interna, muito mais difícil de controlar.
Qualquer empresa, de qualquer setor, on-line ou off-line, está sujeita
a ataques de funcionários insatisfeitos ou gananciosos. Estima-se mesmo
que ataques de funcionários estão entre as principais causas
de incidentes de segurança nas empresas. Vide pesquisa sobre cibercrimes
publicada há poucos dias pelo CERT.
EC – A pergunta básica: a maioria das pessoas acredita estar
(ou às vezes nem pensa nisso) em plena segurança quando troca
dados e informações pela internet. Até que ponto essa
segurança é real ou enganadora? Por exemplo, até que ponto
chats, dados de ICQ, transações bancárias on-line, são
realmente seguras?
Giordani – Qualquer tipo de comunicação pela Internet,
seja de mensagem instantânea, seja de e-mail ou de acesso a um site, é basicamente
insegura, se não for criptografada. Tais comunicações
abertas podem ser facilmente “farejadas”. O risco que uma pessoa
individualmente corre, porém, está ligado à probabilidade
de ela ser escolhida como vítima entre milhares ou milhões de
outras pessoas conectadas à Internet. Mas, cada vez mais, é necessário
tomar as precauções de segurança na rede. Caso contrário,
as chances de se fazer parte dessas estatísticas aumentam substancialmente.
Sem fio
e sem segurança
| Ilustração:
Claudete Sieber |

A Siemens Mobile está desenvolvendo na Alemanha um modelo de celular
que alerta o usuário sempre que seu hálito não estiver
dos melhores. Por outro lado, o avanço da telefonia celular vai permitir
a utilização de aparelhos do sistema SMS por deficientes auditivos.
Animações em GIF na tela do celular vão reproduzir movimentos
da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ótimas idéias,
mas quando é que alguém vai inventar um celular à prova
de clonagem?, poderia perguntar algum usuário mais astuto. Mas essa
pergunta, ou a resposta que ela possa gerar, não parece preocupar a
maioria dos usuários cotidianos das novas tecnologias, encantados a
cada dia que passa com novas ofertas de produtos cuja obsolescência é cada
vez mais veloz em contraponto com um mercado cada vez mais voraz. Nessa síncope
de voracidade e velocidade, na urgência em se manter em dia com a modernidade,
nós, usuários, mal temos tempo de avaliar até que ponto
essas inovações todas podem interferir em nossas vidas de forma
danosa. Já se tornou praxe entregarmos nossos dados pessoais em cadastros
de lojas, sejam elas físicas ou on-line. A utilização
do telefone celular já derrubou as mais veneráveis barreiras
da privacidade. Quem já não testemunhou uma briga de namorados
ou uma negociação ferrenha via celular em lugares extremamente
públicos como um ônibus ou uma praça de alimentação.
Afinal, as novas tecnologias, ao mesmo tempo em que abrem novos horizontes
para todo o tipo de usuários, trazem também preocupações
cada vez maiores quanto à sua utilização como instrumento
de atividades ilegais.
Quando a telefonia móvel começou a invadir o Brasil, quase ninguém
resistiu. O acesso aos telefones celulares pelas fatias da população
de rendas mais baixas foi muito mais rápido e amplo do que a inclusão
digital via Internet. A expansão da telefonia móvel gerou tanto
alegrias (especialmente entre fabricantes de aparelhos e operadoras de telefonia
móvel) quanto preocupações, que vão da capacidade
dos celulares e suas respectivas antenas causarem danos à saúde
da população à perda da privacidade pelo uso cotidiano
dos celulares em lugares públicos. Isso sem mencionar as possibilidades
de clonagem, implicando em perdas financeiras, e “grampeamentos” indesejáveis.
Em 1840, quando começaram a circular as locomotivas, alguns médicos
disseram que não era aconselhável as pessoas se deslocarem a
uma velocidade de 40 quilômetros por hora uma vez que nem mesmo o melhor
atleta do mundo conseguiria atingir tal velocidade e, portanto, viajar assim
era antinatural e prejudicial à saúde. O começo da expansão
da telefonia móvel a partir do final dos anos 80 gerou essa mesma preocupação.
Ainda hoje, enquanto muitos dizem que as radiações dos celulares
e torres comunicantes podem causar males à saúde, outros descartam
totalmente a hipótese. Entre os últimos está o médico
Renato Sabattini, professor da Unicamp. Ele diz que o investimento de milhões
de dólares em pesquisas apontou um resultado unânime: não
há evidências de malefícios à saúde causados
pelos aparelhinhos que se tornaram uma mania mundial.
Já o neurologista e professor da Universidade Federal do Paraná Affonso
Antoniuk garante que todo tipo de radiação é preo-cupante
e pode, inclusive, contribuir para o aparecimento de doenças como o
câncer. No caso dos celulares, o tempo de exposição faz
diferença. “O ideal é que uma pessoa adulta use o aparelho
por, no máximo, seis minutos ao dia. Já uma criança, cujo
cérebro ainda está em formação, nunca deve chegar
perto dos telefones celulares.” As diferentes versões sobre o
tema reforçam que o celular é mais um exemplo de descaso com
a saúde do consumidor. Em nome dos interesses comerciais, a tecnologia
foi introduzida em larga escala no mercado sem que sua segurança fosse
atestada.
Precauções
que as pessoas deveriam tomar quando estão
em um processo
de transferência de
dados na internet |
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De acordo com Giordani Ro-drigues (Infoguerra - leia entrevista
página 5) as precauções que as pessoas devem
tomar na internet são as mesmas que deveriam tomar quando
estão fazendo transações bancárias
num ambiente físico, mais algumas outras específicas
do mundo on-line. Veja a seguir:
• Olhar para os lados e perceber o ambiente à sua volta. No mundo
on-line, isto corresponde a observar bem em que site se está. Às
vezes, uma simples olhada na barra de endereços ou na barra de status
do navegador é suficiente para revelar um site falso.
•
Não confiar em estranhos que se aproximam tentando ajudar, pedindo favor,
ou oferecendo propostas mirabolantes. Da mesma forma, não se deve confiar
em mensagens que chegam sem que se tenha cadastrado para isso, oferecendo grandes
vantagens, solicitando informações bancárias ou fazendo
qualquer tipo de intimidação.
• Especificamente no ambiente on-line, deve-se também, ao acessar
sites bancários, clicar no cadeado que aparece na barra inferior do navegador
e verificar se o certificado digital que aparece mostra
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Foto:
René Cabrales
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informações
de ser autêntico e estar dentro do prazo de validade. Caso
não haja
um certificado digital ou este esteja vencido, não se deve inserir dados
privados nesses sites, e o melhor é de-nunciá-los à instituição
correspondente. |
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Nomes de empresa são usados por hackers
em fraudes
“Papai Noel voando a jato pelos céus, trazendo um Natal de felicidade
e um Ano Novo cheio de fraternidade...”, anuncia aquele velho jingle. Mas,
Varig, Varig, Varig... Nem sempre é assim. Este ano, por exemplo, os hackers
acharam uma maneira diferente de ganhar dinheiro. No começo de agosto,
aproveitando a proximidade do Dia dos Pais, eles começaram a mandar e-mails
falsos em nome da mundialmente famosa empresa gaúcha de aviação
comercial anunciando uma suprema e maravilhosa promoção de, adivinhe?,
Dia dos Pais!!! Até que a Varig, que já anda mal das pernas no
mundo real, avisasse dessa nova picaretagem, muita gente embarcou na roubada
virtual, repassando números de cartões de créditos e outros
dados que permitem aos piratas cibernéticos polpudos lucros. Foi mais
um golpe do tipo phishing scam, desta vez utilizando-se de um cavalo-de-tróia
para capturar dados confidenciais do usuário.
Mas a Varig não é a única. Muitas empresas são usadas
como iscas pelos vigaristas virtuais em seus golpes. Às vezes, até mesmo
instituições que representam muitas empresas, como aconteceu há cerca
de dois meses com a Câmara de Dirigentes Lojista e com o SPC da Bahia.
Muitos dos trojans usados em golpes para captura de senhas bancárias não
estão sendo detectados pelos programas antivírus mais conhecidos
no mercado. Isso acontece porque integrantes das quadrilhas de golpistas alteram
freqüentemente os códigos maléficos, além de compactar
os arquivos executáveis para dificultar seu reconhecimento pelos antivírus.
Na análise feita no arquivo “pendências.zip”, dentre
12 antivírus diferentes, somente três deles detectaram positivamente
a existência de códigos maliciosos. Entre os outros antivírus
que não acusaram nada, estão os mais populares e vendidos no Brasil.