Ano 10 - nº 87
Novembro 2004



Luis Fernando Verissimo:
Fernando Sabino foi um dos amigos que herdei do meu pai.
Tínhamos uma coisa em comum: ele também, se lhe dessem a escolha a tempo, preferiria ter sido músico de jazz. Chegamos a nos apresentar juntos uma vez. A Traditional Jazz Band de São Paulo teve a temeridade de nos convidar para...




Nei Lisboa:
Parei de beber. Não que andassem me recolhendo da calçada para um abrigo nas madrugadas, mas o hábito já andava me incomodando há tempos, toda noite algumas doses e uma leve enrolada de língua, toda manhã uma ressaquinha impertinente. Então cortei de vez. Sábia decisão. Além de me...



Elisa Lucinda:

tá certo
Não nasci na roça é certo como Drumonnd e outros bois
nem como o Ignácio foi
criado nos pampas entre queijos bombachas e bostas de vacas brindando o chão
Não.
Mas vim do subúrbio onde finquei infância e lá tinha um jeito de ser vizinho
que só de hoje eu lembrar vai me fazer morrer comovida...





Três bombons e duas bananas

Parei de beber. Não que andassem me recolhendo da calçada para um abrigo nas madrugadas, mas o hábito já andava me incomodando há tempos, toda noite algumas doses e uma leve enrolada de língua, toda manhã uma ressaquinha impertinente. Então cortei de vez. Sábia decisão. Além de me habilitar a uma carreira evangélica, posso informar aos interessados que a recompensa é substancial, a sensação é apaziguadora e a saudade muito pouca. E minha filha agradece que ao invés de uma happy hour no boteco ganhamos uma hora a mais de convivência em casa, além das mamadeiras da manhã saírem com muito melhor humor.

Missão cumprida, nessa matéria, outra imediatamente se impôs: vou parar de fumar. E outra, logo em seguida: vou cuidar melhor da alimentação. E mais uma: vou começar a malhar. E também, em seqüência: vou botar a leitura em dia, vou plantar hortaliças no quintal, vou aprender a tocar bateria, viajar para a Patagônia ano que vem, fazer uma faxina geral na despensa, correr a São Silvestre em 2007, responder oitocentos e-mails não respondidos, abrigar a delegação da Letônia no Fórum Social Mundial e inventar um software de interpretação de latidos. Sábias decisões. Mas quando cheguei nesta última, acordado pela cachorrada aqui da rua, vi que estava com um cigarro aceso na mão.

Esse, sim, um viciozinho dos brabos. É o único, entre lícitos e ilícitos, que me resta vencer. E vou vencer. Mesmo que isso exija uma concentração absoluta de forças, e que a Patagônia tenha que esperar um pouco mais. A parada é muito dura, não tenho dúvidas. Escrever, por exemplo, é coisa que eu não sei fazer sem fumar. Vou ter que aprender e talvez compensar a falta do cigarro, por uns tempos, com um pacote de bolachinhas ao lado do micro, no lugar do tradicional cinzeiro. Dê-lhe biscoitinho, um pacote por coluna. Decerto as primeiras ainda vão sair um tanto trêmulas, versando sobre assuntos como “a vovó sentada e a geriatria no novo século” ou “Plic-Plac, Maria e Barra de Cereais, uma análise comparativa”. Azar. Imagino que a abstinência dessa desgraça, desse câncer em tubinhos, seja tão intensa quanto o mal que causa e que de início a gente se sinta um tanto órfão e descontrolado, meio abilolado, talvez. Paciência. Não vou entrar nesta peleia pra empatar jogo, não. Aliás, vou começar a treinar agora. Este último parágrafo vou escrever sem fumar.

Vejamos. Cinco minutos passados, tudo ok. Uma leve carência de idéias e nada mais. Uma certa dispersão, duas voltas pela sala, uma ida até o banheiro, meia hora sem cigarro e uma certa ansiedade, nada demais. O ritmo do texto fica bem mais lento, é claro, até agora não me ocorreu como fechar, mas prossigo. Está anoitecendo, observo. E já se foram um pacote de rapadurinhas, três bombons e duas bananas. Pode ser que eu vire um néscio roliço, uma ausência de imaginação combinada com doce de leite – mas, veja só, terminei um parágrafo sem fumar nenhum cigarro. E isso é só o começo. Me aguarde, São Silvestre.




 
José Luis Fiori

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