Três bombons e duas bananas

Parei de beber. Não que andassem me recolhendo da calçada
para um abrigo nas madrugadas, mas o hábito já andava
me incomodando há tempos, toda noite algumas doses e
uma leve enrolada de língua, toda manhã uma ressaquinha
impertinente. Então cortei de vez. Sábia decisão.
Além de me habilitar a uma carreira evangélica,
posso informar aos interessados que a recompensa é substancial,
a sensação é apaziguadora e a saudade
muito pouca. E minha filha agradece que ao invés de
uma happy hour no boteco ganhamos uma hora a mais de convivência
em casa, além das mamadeiras da manhã saírem
com muito melhor humor.
Missão cumprida, nessa matéria, outra imediatamente
se impôs: vou parar de fumar. E outra, logo em seguida:
vou cuidar melhor da alimentação. E mais uma:
vou começar a malhar. E também, em seqüência:
vou botar a leitura em dia, vou plantar hortaliças no
quintal, vou aprender a tocar bateria, viajar para a Patagônia
ano que vem, fazer uma faxina geral na despensa, correr a São
Silvestre em 2007, responder oitocentos e-mails não
respondidos, abrigar a delegação da Letônia
no Fórum Social Mundial e inventar um software de interpretação
de latidos. Sábias decisões. Mas quando cheguei
nesta última, acordado pela cachorrada aqui da rua,
vi que estava com um cigarro aceso na mão.
Esse, sim, um viciozinho dos brabos. É o único,
entre lícitos e ilícitos, que me resta vencer.
E vou vencer. Mesmo que isso exija uma concentração
absoluta de forças, e que a Patagônia tenha que
esperar um pouco mais. A parada é muito dura, não
tenho dúvidas. Escrever, por exemplo, é coisa
que eu não sei fazer sem fumar. Vou ter que aprender
e talvez compensar a falta do cigarro, por uns tempos, com
um pacote de bolachinhas ao lado do micro, no lugar do tradicional
cinzeiro. Dê-lhe biscoitinho, um pacote por coluna. Decerto
as primeiras ainda vão sair um tanto trêmulas,
versando sobre assuntos como “a vovó sentada e
a geriatria no novo século” ou “Plic-Plac,
Maria e Barra de Cereais, uma análise comparativa”.
Azar. Imagino que a abstinência dessa desgraça,
desse câncer em tubinhos, seja tão intensa quanto
o mal que causa e que de início a gente se sinta um
tanto órfão e descontrolado, meio abilolado,
talvez. Paciência. Não vou entrar nesta peleia
pra empatar jogo, não. Aliás, vou começar
a treinar agora. Este último parágrafo vou escrever
sem fumar.
Vejamos. Cinco minutos passados, tudo ok. Uma leve carência
de idéias e nada mais. Uma certa dispersão, duas
voltas pela sala, uma ida até o banheiro, meia hora
sem cigarro e uma certa ansiedade, nada demais. O ritmo do
texto fica bem mais lento, é claro, até agora
não me ocorreu como fechar, mas prossigo. Está anoitecendo,
observo. E já se foram um pacote de rapadurinhas, três
bombons e duas bananas. Pode ser que eu vire um néscio
roliço, uma ausência de imaginação
combinada com doce de leite – mas, veja só, terminei
um parágrafo sem fumar nenhum cigarro. E isso é só o
começo. Me aguarde, São Silvestre.
