
E na bateria...
Fernando Sabino foi um dos amigos que herdei do meu pai.

Tínhamos uma coisa em comum: ele também, se lhe dessem
a escolha a tempo, preferiria ter sido músico de jazz. Chegamos
a nos apresentar juntos uma vez. A Traditional Jazz Band de São
Paulo teve a temeridade de nos convidar para tocar com eles, Sabino
na bateria e eu no sax, e fomos maravilhosos. Pelo menos na nossa
apreciação mútua.
Outra vez, assisti a um golpe de teatro do Sabino. Era uma das
primeiras edições da incrível Jornada Literária
de Passo Fundo, organizada pela ainda mais incrível Tania
Rösing, que contara com a ajuda do Josué Guimarães
para trazer do centro do país para o interiorzão
do Rio Grande do Sul um respeitável time literário:
Sabino, Millôr, Otto Lara, Orígenes Lessa. Os quatro,
mais eu e o Josué, sentados atrás de uma longa mesa,
enfrentando um ginásio cheio de professoras de português.
Quando foi a sua vez de falar, o Sabino declarou que não
podia continuar ali, que ali não era o seu lugar, que estava
se sentindo desconfortável e inconformado, e que o desculpassem,
mas ia embora. E levantou-se.
Agitação na platéia. O que teria havido? Qual era o problema?
O Sabino só foi embora da sua cadeira. Para alívio e depois delírio
das professoras, deu a volta na mesa e levou o microfone para a frente do palco,
seu lugar, onde começou a falar com o desembaraço e o humor que – junto
com a simpatia e o físico de ex-nadador – faziam dele o escritor
brasileiro com mais jeito para a celebridade, até o seu recolhimento voluntário.
De certa forma, ele inaugurou o que a Jornada de Passo Fundo viria a ser depois,
um show de literatura. Foi a sua primeira estrela.
Nosso relacionamento era ideal: eu falava pouco e ele não ouvia. Eu tinha
lido O Encontro Marcado antes de conhecê-lo. Lido e relido. Não
entendia muito bem a religiosidade do Sabino, dele e dos outros mineiros, e só mais
tarde me dei conta de que um livro como O Encontro Marcado seria impossível
sem as convicções e as dúvidas religiosas do autor, sem
as questões do pecado e da redenção pessoal camufladas como
a escolha ética de uma geração. Pois, para religiosos ou
não, foi o livro de uma geração.
Na improvável hipótese do Sabino e do Jacques Derrida terem se
cruzado num engarrafamento de trânsito depois da morte, esse pode ter sido
um dos seus assuntos: a permanência do imperativo ético mesmo quando
nada o sustenta, nem a fé religiosa, no caso do Sabino, nem todos os textos
desconstruídos até a insignificância moral pelo Derrida.
Mas desconfio que os dois não se entenderiam. Se existiu um escritor que
nunca quis dizer outra coisa nos seus textos senão o que dizia magistralmente,
esse foi o Fernando Sabino.
