Tudo ao mesmo tempo
Primavera com dias de baixa temperatura, tempo instável, com alternância de sol e chuvas torrenciais, ventos fortes,
possibilidade de granizo e, até, de tornados. A frase parece com um dos sucintos boletins da meteorologia, mas bem
poderia ser um resumo dos dias que têm se sucedido nos últimos dois meses. Depois de um inverno longo e rigoroso,
os gaúchos esperavam que setembro
trouxesse de fato calor e tempo seco.
Não foi bem o que ocorreu. O frio diminuiu
sua intensidade, mas o clima não
se parece com o idealizado para a primavera
Por Flavia Bemfica
ideia do clima perfeito e estável não existe
porque não há estabilidade no sistema
natural. Existe um estado que denominamos
de neutralidade climática. Ao que tudo
indica, do final do nosso verão até maio tivemos
um estado de neutralidade climática e
depois a transição de uma La Niña para um El
Niño moderado, que deve se estender até o fim
do próximo verão. Seria a principal causa do
aumento na quantidade de chuvas e do ingresso
de frentes frias. Este ano foi de 1,5 a duas por
semana, quando o mais comum é uma por semana”,
explica o geógrafo e professor de Climatologia
do Departamento de Geografia da Universidade
Federal do RS (Ufrgs), Francisco Aquino.
Reconhecido nos meios acadêmicos, o professor
está entre aqueles cientistas um tanto avessos
a entrevistas, por considerarem que as informações
repassadas pela mídia para a grande
parcela da população, via de regra, não dão
conta da complexidade ou da extensão do tema. “Não há como explicar o que está acontecendo
em um minuto e meio, por exemplo. Não dá simplesmente para dizer que a natureza está se
rebelando, ou atribuir o que ocorre à divindade
ou negar as alterações. Há necessidade de
informação qualificada”, resume ele, que refuta
o uso do termo catástrofe – utilizado largamente
nas notícias – para tratar sobre as alterações
climáticas.
O assunto é mesmo alvo de polêmicas, inclusive
entre os cientistas, que fornecem explicações
quase sempre na condicional, ou utilizando
termos como “o mais provável” e “é bem
possível”. Mas a grande parte das pesquisas aponta
que a intervenção humana tem um papel de
peso sobre as alterações do clima. Conforme
Aquino, sempre ocorreram os chamados eventos
extremos na história do clima da terra mas,
em paralelo, vivemos um aquecimento global
principalmente ao longo dos últimos 50 anos.
A temperatura e as chuvas aumentaram. As
variabilidades também: são mais fortes e com
frequência de repetição maior. O 4º e último
Relatório do Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas (IPCC), o órgão das Nações
Unidas responsável por produzir informações
científicas a respeito do tema, baseado em
pesquisas de cerca de 2,5 mil cientistas em
todo o mundo, divulgado em 2007, apontou,
entre outras conclusões, que 11 dos então últimos
12 anos ocupavam os primeiros lugares
na lista de anos mais quentes desde 1850; que
o aquecimento se acelerou nos últimos anos:
0,74 grau suplementar nos últimos cem anos
(1906-2005), frente ao 0,6 grau do período
1901-2000; e que no final do século 21 as temperaturas
aumentarão entre 1,8 e 4 graus com
relação a 1980-1999, previsões mais otimistas
numa escala que vai até 6,4 graus.
O relatório também já indicava
como “muito provável” que as
altas temperaturas, as ondas de
calor e as fortes precipitações se
tornassem mais frequentes; como “muito possível” que as tormentas
tropicais, os tufões e os furacões
ficassem mais intensos, com
ventos e chuvas mais fortes e que “muito provavelmente” as precipitações
aumentassem nas latitudes
elevadas. O próximo relatório
do IPCC será publicado em
2011.
“O que ocorre com o RS é que
está 0,5 grau mais quente nos últimos
50 anos. Provavelmente resultado
das mudanças globais. As
chuvas aumentaram em 8% e
10%. Como chove mais e nas estações
mais quentes ocorrem mais
chuvas, há mais tempestades. Parte
das mudanças é sim resultado
da intervenção humana. Só que
ainda não conseguimos quantificar
quanto das alterações se
deve a causas naturais e quanto
não”, destaca Aquino. “É fato que
o clima está mudando e que passamos
por uma fase de ajuste. Já saímos da fase da identificação
das mudanças. Precisamos é melhorar
as projeções a curto prazo
e investir em ações de mitigação
e adaptação”, completa a professora
Ilana Wainer, do Departamento
de Oceanografia Física do
Instituto Oceanográfico da Universidade
de São Paulo (USP).
El Niño, La Niña e as secas da Região Sul
Fenômeno que se popularizou
entre os brasileiros a partir da década
de 90, o El Niño se caracteriza,
grosso modo, pelo aquecimento
das águas do Oceano Pacífico
(cujas temperaturas são medidas
há 150 anos), a partir da diminuição
na intensidade dos ventos, que
geram a diminuição da ressurgência
de águas profundas. Sua
variação, a La Niña, marca o
resfriamento das águas daquele
oceano, o maior do planeta.
O fenômeno é apontado como
responsável por alterações do clima em todo o planeta, sendo especialmente
conhecidas o aumento
de chuvas no sul da América
do Sul e a maior ocorrência de seca
no continente australiano e
Indonésia, além de verões excepcionalmente
quentes na Europa,
dependendo de sua intensidade.
A La Niña, por sua vez, provoca
no Sul da América do Sul invernos
mais secos e rigorosos, como o
deste ano de 2009.
Atualmente equipes de cientistas
já se dedicam a estudar se há aumento da frequência dos eventos de El Niño e suas variações nas últimas décadas, e quais as possibilidades
de relacioná-lo às alterações
climáticas. Quando explicam
a leigos sua importância, os
cientistas lembram relações fundamentais,
como o fato de a troca
de energia entre os oceanos e a
terra modular a temperatura. Mas
ainda não conseguiram determinar
com clareza o que origina um
evento de El Niño ou de La Niña.
Enquanto isso, as projeções se
multiplicam. No final de setembro
a revista científica Nature publicou
um artigo de pesquisadores
do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento
Oceânico da
Coreia do Sul, no qual defendem
que uma forma mais atípica do
evento, denominada El Niño
Modoki pode se tornar cinco vezes
mais comum, já que vem aparecendo
com mais frequência
desde os anos 1980, e que seria
viável associar o fato com o aumento
de temperatura. Entre
suas consequências no Brasil estariam
secas nas regiões Sul e Sudeste.
Emissão de gases é grande vilã
O relatório de 2007
do Painel Intergovernamental
de Mudanças
Climáticas (IPCC) é claro
quanto ao efeito da
emissão de gases que geram
o efeito estufa sobre
as alterações do clima do
planeta: “as emissões passadas
e futuras de dióxido
de carbono seguirão contribuindo
para o aquecimento
e a elevação do
nível do mar durante
mais de um milênio, devido à duração de vida
desses gases na atmosfera.” Mas ao mesmo tempo
em que a comunidade
científica atesta a necessidade
de redução da emissão de gases,
nas cidades brasileiras, por exemplo, o número
de carros aumenta e o consumo de
produtos ecologicamente corretos está longe
de se popularizar.
“Você pode acreditar em algo porque tem
fé ou porque comprova cientificamente. Eu
pertenço ao segundo grupo e tenho certeza
de que o clima está mudando e nos encontramos
em uma fase de ajuste na qual várias
coisas terão de mudar também”, responde
a professora Ilana Wainer, da USP, quando
lhe questionam se existe a possibilidade
de uma autorregulação natural do planeta. “O sistema natural faz sua regulação mas
ela ocorre em um tempo muito superior àquele que necessitamos”, certifica o professor Francisco Aquino, da Ufrgs.
Nos últimos cinco anos, uma série de
eventos climáticos, e não apenas locais, fizeram
com que populações e governos redobrassem
a atenção: entre eles estão o furacão
Catarina em parte do Rio Grande do
Sul e Santa Catarina e o tsunami no Oceano Índico, ambos em 2004, o furacão
Katrina, que destruiu Nova Orleans, nos
Estados Unidos, e a atípica onda de calor
na Europa, em 2005. As mudanças necessárias,
contudo, avançam a passos lentos,
porque implicam alterações no modo de
vida da maior parte da população.
Os pesquisadores defendem investimentos
pesados em educação e também alterações
em pontos que vão da infraestrutura
aos hábitos de consumo,
passando pelas matrizes
energéticas e produtivas.
Quando abordam a complexidade
que envolve as
mudanças, citam o caso
brasileiro. O país se dedicou
a investir na pesquisa
e desenvolvimento de
biocombustíveis e, agora,
descobre uma gigantesca
reserva de pré-sal, o que
o coloca de volta a exploração
de combustíveis fósseis
e todas as consequências
que ela traz ao
meio ambiente.
“Há uma série de fatores
a serem abordados.
As populações pobres, por
exemplo, aumentam. O que ocorre não é que
os eventos extremos as procuram. Elas é que
são mais vulneráveis. Se houver uma tromba
d’água no meio do oceano ninguém vai
se machucar. Mas se ela acontecer no meio
de uma favela, com barracos construídos em áreas de risco, a situação é bem diferente”,
assinala Ilana.
No próximo mês de dezembro, representantes
de 190 estados irão se reunir em Copenhague,
na Dinamarca, para o 2009
United Nations Climate Conference at
Copenhagen (COP 15), no qual o objetivo é chegar a um consenso sobre as metas de redução
de emissão de gases estufa para o segundo
período do Protocolo de Quioto. A
primeira fase do acordo acaba em 2012.
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