Tolerância social contribui para
o abuso contra menores
Uma geração de Lolitas pede ajuda todos os dias em apelos que nada lembram a história glamurosa do escritor Vladimir
Nabokov sobre um homem de meia-idade fascinado por uma adolescente. Milhares de jovens são exploradas sexualmente
por adultos em todo o mundo. Outras ilustram as páginas de pedofilia na Internet, alimentando redes de pornografia infantil
e de turismo sexual. Apesar de haver leis de proteção a crianças e adolescentes, persiste na sociedade um tabu que
dificulta reconhecer o crime sexual. Elas sofrem duplamente: com o abuso e com a conivência de quem devia protegê-los.
Por Clarinha Glock

os livros e das telas do cinema e da televisão
para a realidade, a fantasia se transforma
em um grande pesadelo que assume dimensões
polêmicas, especialmente se os envolvidos
são figuras conhecidas. Dois casos recentes
mostram como nem as leis internacionais,
nem o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) no Brasil são suficientes para mudar comportamentos
abusivos, aceitos como se fossem “normais” por uma parte da sociedade.
Quando o diretor Roman Polanski foi preso
na Suíça, em 26 de setembro deste ano, a pedido
do governo norte-americano, um grupo de
cineastas fez um abaixo-assinado solidário pedindo
sua libertação. Polanski havia sido acusado
de estupro de uma jovem de 13 anos de idade
em 1977, nos Estados Unidos.
O diretor admitiu ter feito sexo com a garota,
embora tenha negado o estupro, mas fugiu antes
da sentença, temendo que tivesse de cumprir os
50 anos de prisão previstos para o crime sexual.
Foi detido quando ia receber uma homenagem
no Festival de Cinema de Zurique. No total, 138
integrantes da indústria cinematográfica assinaram
o documento de protesto contra a detenção.
O que faz com que algumas pessoas não condenem
adultos por manterem relações sexuais
com menores de idade? “Por se tratar de uma
celebridade consagrada no cinema, inconscientemente
há uma certa empatia por Polanski”,
analisa a psicóloga clínica e judiciária Tania
Guerra, do Tribunal de Justiça de Pernambuco. “Também o fato de ele ter admitido o crime contou
positivamente a seu favor”, diz.
Se fosse no Brasil, Polanski estaria livre porque
seu crime já estaria prescrito. Além disso,
como é muito difícil apurar este tipo de delito,
em território brasileiro talvez o cineasta nem fosse
condenado. O país é machista e lida mal com
questão de sexualidade – especialmente das crianças
e dos adolescentes, avalia Leila Paiva, coordenadora
do Programa Nacional do
Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças
e Adolescentes, ligado à Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência da República.
Preconceitos e equívocos favorecem a impunidade
A legislação é clara. O Artigo
244A do ECA diz que submeter uma
criança ou adolescente à prostituição
ou à exploração sexual é passível
de reclusão de quatro a dez
anos. Mesmo assim, alguns membros
da própria Justiça ainda encaram de
maneira preconceituosa ou equivocada
este tipo de crime.
Em 2006, o atleta José Luiz Barbosa,
conhecido como Zequinha
Barbosa, campeão mundial em 1987
na corrida de 800 metros rasos, e
seu assessor, Luiz Otávio Flores da
Anunciação, foram absolvidos da
acusação de exploração sexual de
duas adolescentes. Em decisão
anunciada em 2009, o Superior Tribunal
de Justiça manteve a absolvição,
alegando que as jovens na
faixa dos 13 e 14 anos com quem
ele e seu assessor teriam se encontrado
em um motel já eram “prostitutas
reconhecidas”.
O Ministério Público recorreu
da sentença. “O que se denota a
partir da decisão é que ainda é comum
na Justiça fazer-se julgamento
moral reprovando o comportamento
das vítimas de violência sexual,
em detrimento do julgamento
do fato delituoso”, acusa uma
nota lançada pela Comissão
Intersetorial e pelo Comitê Nacional
de Enfrentamento à Violência
Sexual contra Crianças e Adolescentes.
A legislação brasileira previa, até pouco tempo, “a presunção” da violência
sexual quando a vítima tinha menos de 14 anos. O termo “presunção” implica que a vítima
pode eventualmente consentir – existem decisões que consideram
que a liberação dos costumes e o
fato de meninas de 12 e 13 anos terem
corpo formado indica sua aptidão
para optar pela prática de sexo. “Mas uma coisa é uma menina de
13 anos transar com o namorado de
16 anos e esse menino vir a ser responsabilizado.
Com um adulto, é ele
quem tem que colocar limite na relação – e tem a obrigação de não
permitir”, afirma o juiz José Antônio
Daltoé Cezar, da 2ª Vara da Infância
e Juventude do Rio Grande
do Sul.
LEGISLAÇÃO – A Lei 12.015,
aprovada em agosto de 2009, é um
avanço. Ao alterar a definição de
crime sexual do Código Penal e instituir
penas para a relação sexual com
vulneráveis (meninos ou meninas
com menos de 14 anos), busca diminuir
a impunidade. “Estima-se que
somente 10% dos casos sejam notificados”,
diz o juiz. Em cerca de 80 a
90% das situações, o abuso é praticado
por pais, padrastos, tios, enfim,
pessoas que cuidam destas crianças
e adolescentes. Geralmente não deixam
vestígio nem testemunhas, e os
abusadores procuram desacreditar o
relato dos jovens. Para driblar as dificuldades,
o juiz implantou desde
2003 o sistema de Depoimento Sem
Dano, em que as crianças e adolescentes
vítimas de violência são ouvidas
com o auxílio de psicólogas.
Capacitação de educadores e de profissionais
da saúde para prevenir e deter o abuso
O primeiro passo para acabar com a impunidade
nos crimes sexuais contra crianças e adolescentes é a capacitação de educadores e profissionais
de saúde para que tenham um olhar
atento. É possível identificar sinais da violência.
Mas há um outro lado essencial nesse processo – os pais. Quando os pequenos têm atenção, diálogo
e confiança dentro da família, deixam de ser
alvos dos exploradores. “Para quem explora e abusa,
o segredo e o silêncio das vítimas são fundamentais”,
lembra o juiz José Antônio Daltoé Cezar.
A internet é, sem dúvida, um dos meios mais
rápidos de propagação de pornografia infantil e
redes de pedofilia, e, no entanto, muitos pais
deixam os filhos livres para usar o computador. “Não é porque uma criança está dentro de casa
que está protegida”, adverte uma delegada de
polícia que preferiu não se identificar. Ninguém
deixaria o filho sozinho em uma praça no centro
da cidade à meia-noite, compara. Então
por que deixam na internet? “O predador
se aproxima de quem está mais carente e
desprotegido”, alerta.
Não se trata de proibir, mas de educar
e atentar para os perigos a que estão
expostos. O maior número de denúncias
que chega à polícia é justamente
sobre a rede de relacionamentos
Orkut e as salas de bate-papo. Evitar
colocar on-line o nome da escola, fotos e outros
dados pessoais é uma forma de prevenção.
O Programa Nacional de Enfrentamento da
Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes
da Secretaria Especial de Direitos Humanos
está lançando uma cartilha para explicar a professores
e alunos o que é crime, como identificar
os sinais e deter o avanço de abusos, não só na
internet. “Recebemos muitas ligações de jovens,
feitas em telefones públicos da própria escola,
denunciando ou pedindo informação”, informa
Leila Paiva, coordenadora do programa. A intenção é atender a esta demanda,
orientando como proceder em cada
caso. As cartilhas serão distribuídas
pelo Ministério da Educação a escolas
de todo o Brasil.
ESCOLA – Outras iniciativas,
como a do Conselho Tutelar de São
Gabriel, no Rio Grande do Sul,
prometem incentivar mudanças de
comportamento e promover a discussão
e o esclarecimento nas salas
de aula. Amparados pela experiência
parecida e já em andamento em Santa
Catarina, os conselheiros gaúchos vão implantar
em 2010 o projeto ECA na Escola – cinco a sete
adolescentes serão treinados pelos integrantes do
Conselho e vão apresentar a lei para outros jovens,
uma vez por semana, em horário de aula. Até o final do ano, cada grupo vai treinar outros jovens,
garantindo assim a continuidade do trabalho. “A
ideia é expandir para toda a região”, avisa.
|
· As estimativas indicam que entre 500
milhões e 1,5 milhão de crianças todos os
anos são vítimas de castigos físicos,
agressão física e/ou psicológica.
· Entre 5% e 10% das crianças dos países
industrializados são vítimas de abuso sexual
com penetração durante a infância.
Um número três vezes maior sofre alguma
forma de abuso sexual.
· Até maio de 2009, 131 países haviam ratificado
o Protocolo Facultativo da Convenção
sobre os Direitos da Criança relativos à venda de jovens, prostituição infantil e
utilização de menores de idade em pornografia.
A Convenção tipifica como delito
todas as formas de exploração sexual de
crianças e destaca a importância de ajudar
quem tenha sofrido estes abusos. |
| Fonte: relatório Progresso para a Infância (Unicef),/2009 |
|
Os vários caminhos da exploração sexual
A exploração sexual de crianças e
adolescentes tende a ser uma preocupação
ainda maior em regiões do Brasil
onde a perversão associada à fantasia
encontra cenários afrodisíacos. Os visitantes
que chegam ao Nordeste – campeão
nas estatísticas do turismo sexual – falam várias línguas e não
estão preocupados com as
leis nem com as campanhas
feitas pelo governo
brasileiro. Protegidos pelo
anonimato e distantes de
suas terras de origem, sem
risco de sofrerem algum prejuízo
de imagem perante a sociedade,
eles se multiplicam, diz a psicóloga
Tania Guerra, de Pernambuco.
Muitos destes turistas vêm em busca
das jovens em poses sexuais que povoam
as páginas de propaganda na
internet. Mas não só eles. Como a rede
mundial de computadores interligados
está em expansão no Brasil e o acesso
tende a ser cada vez mais facilitado, as
previsões são de que pornografia infantil
virtual aumente nos próximos anos e
se espalhe ainda mais por todos os cantos.
E já que a internet não tem fronteiras,
e nem todos os países têm uma legislação
restritiva rigorosa, a Polícia Federal
muitas vezes esbarra na soberania
alheia para investigar os casos que detecta
no Brasil.
O delegado Stenio Santos Sousa,
responsável pelo Grupo Especial da
Polícia Federal (PF) encarregado de
investigar este tipo de crime lembra
que são dois delitos distintos: um é o abuso sexual; o outro é o registro
dessa violência, com sua divulgação – motivo das Operações
Carrossel e Turko
(2007, 2008 e 2009),
entre outras operações
recentes. Sem uma legislação
explícita, e sob a
alegação do direito de
privacidade, os provedores
de acesso se negam a
fornecer os dados, dificultando
o trabalho da PF, que tem que recorrer à Justiça. Essa demora favorece
os criminosos. Se por um lado a legislação
está sendo aprimorada para
tipificar novas condutas, por outro,
ainda há falhas. A distribuição de pornografia
infantil está sujeita a pena de
três a seis anos de prisão, com direito
a substituição por trabalhos à comunidade
e regime semiaberto. “Se houvesse
penas maiores, talvez a exploração
contra os jovens não fosse tão escancarada”,
desabafou uma delegada
da Polícia Federal. “Mas em todas as
esquinas há crianças sendo exploradas
e não há nenhuma punição efetiva
contra os abusadores”, constata.
O que fazer diante da suspeita
ou certeza de um caso de violência
Quando uma criança ou adolescente é violentado(a) sexualmente,
sua emoção fica abalada, passando
a desconfiar de todos, culpando-se e isolando-se socialmente.
Neste momento, é importante que o
profissional esteja seguro, preparado
para fazer o acolhimento e denunciar
o caso.
As denúncias podem ser feitas
no Conselho Tutelar, nas delegacias
especializadas ou pelo Disque
Denúncia 0100.
Algumas recomendações que
todo profissional precisa considerar, nos
casos de abuso e exploração sexual:
– Acreditar e validar a história da
vítima
– Respeitar a confidencialidade
– Não culpar a vítima
– Respeitar o momento da vítima
– Promover o acesso à rede de serviços
– Garantir que crianças e adolescentes
tenham prioridade de atendimento,
em qualquer situação.
Fonte: Ministério de Educação/SEDH
| |
Operação em São Gabriel abriu
uma porta para novas denúncias |
A primeira denúncia chegou ao
Conselho Tutelar porque uma empregada
que trabalhava com um dos
envolvidos brigou com o patrão. Revoltada,
ela contou que o homem levava
adolescentes para casa. “Fiquei
um ano com esta denúncia, colhendo
mais informações, junto com a polícia
e a Promotoria da Infância”, relata
Cláudia Achilles, conselheira tutelar em
São Gabriel há seis anos. Até que chegaram
mais e mais casos.
A operação desencadeada em 2007
deixou marcas profundas na cidade.
Os envolvidos eram pessoas conhecidas
e respeitadas – um médico, duas
educadoras de um abrigo, dois policiais
militares, um comerciante, um advogado,
um ex-radialista, um ex-patrão
de CTG. No total, o Ministério Público
denunciou 11 pessoas.
As garotas tinham entre 11 e 14
anos. O Grupo Sentinela, do qual
Achilles faz parte, puxou o fio da meada
e foi desenrolando uma história
de exploração sexual. A equipe formada
por psicólogos, assistente
social, representantes do Conselho
Tutelar e da Polícia Civil fez o delicado
trabalho de ouvir as jovens e
acompanhar todo o doloroso processo
de reconhecer os danos.
“As meninas iam para os depoimentos vomitando, chorando, voltavam no
meio do caminho”, lembra a
conselheira. “Essa é a pior parte, até terem coragem”. Depois vieram as
ameaças de morte para as adolescentes
e para a equipe. E, por fim, a
sensação de abandono, porque muitas
das que sobrevivem à exploração
e ao abuso sexual estão grávidas, são
mães solteiras ou não conseguiram
refazer suas vidas.
Após as prisões, aumentou o número
de denúncias de outras histórias
de violência contra crianças e adolescentes. “Mas a maioria das queixas
que recebemos é de abusadores
no meio da própria família, em que a
mãe é conivente ou aliciadora”, diz
Achilles. Mesmo sabendo que os criminosos
da megaoperação deflagrada
em 2007 eram integrantes
da “alta sociedade”, ainda assim o
preconceito e a conivência da sociedade
em geral condena as vítimas ao
sofrimento e a se manterem na exploração. “Quando se vê uma adolescente
se prostituindo, é geralmente
uma menina de baixa renda, que
não tem as roupas da moda – tanto
que os presentes que recebe são balinhas,
roupas...ela já foi negligenciada
na família. É duro condená-la e
dizer que ela gosta”, observa Achilles. |
|
Histórias de carochinha sem final feliz
Vários estudos tentam explicar as razões da atração sexual de pessoas
mais velhas por crianças e adolescentes. A psicóloga Tania Guerra, que é professora de Psicologia Jurídica, lembra que muitos adultos pedófilos apresentam
padrões de comportamento em comum. Podem ter sofrido assédio
quando crianças – nestes casos é comum manifestarem desejo por jovens
do mesmo sexo e da mesma faixa etária em que se encontravam quando
foram abusados na infância. Outros são indivíduos infantilizados, imaturos,
com tendência ao isolamento, ao mesmo tempo em que adotam a internet
como fonte de trocas de fotos e informações sobre o tema.
“Os mais velhos, às vezes encontram na oportunidade de sexo com crianças
e adolescentes a possibilidade de realizar suas fantasias da fase da
senectude tendo como vantagem a passividade com que
eles se abandonam às suas manipulações, seja por presentes ou dinheiro”,
explica a psicóloga. “Crianças e adolescentes não se constituem em parceiros
experientes julgadores da sua performance sexual e raramente denunciam
o abuso, o que os incentiva à prática desviante”, acrescenta.
A pedofilia, em si, não é uma categorização criminal, mas de saúde.
Alguém pode ser pedófilo e nunca cometer um crime. Violência sexual,
abuso, estupro, pornografia infantil, sim, são crimes e devem ser punidos.
Indicadores físicos:
– Roupas rasgadas ou com manchas de sangue
– Marcas no corpo
– Secreção vaginal ou peniana
– Dificuldade para caminhar, sentar
– Gravidez precoce
– Infecção urinária, dificuldade de urinar
– Queixas de dores abdominais
– Hematomas, edemas e escoriações na região genital e mamária
– Infecções/doenças sexualmente transmissíveis |
|
| |
Indicadores comportamentais |
– Mudança brusca de comportamento e humor (não querer comer, comer demais,
agressividade)
– Sono perturbado, pesadelos frequentes, suores, agitação noturna
– Timidez em excesso
– Tristeza ou choro sem razão aparente
– Medo de ficar sozinho (a) com alguém ou em algum lugar
– Baixa auto-estima, estado de alerta constante, falta de concentração, inquietação
– Interesse precoce por brincadeiras sexuais e/ou erotizadas
– Conduta sedutora
– Relatos de agressões sexuais
– Dificuldade em adaptar-se à escola
– Aversão ao contato físico
– Comportamento incompatível com a idade (regressões)
– Envolvimento com drogas
– Autoflagelação, culpabilização
– Fuga de casa
– Depressão crônica
– Tentativa de suicídio |
|