Juleu e Romieta
Há muitos e muitos anos, quando os lápis ainda dominavam as superfícies de papel, havia dezenas de cadernos numa casa. E nesses cadernos, encapados com um capricho que nem existe mais, viviam dezenas de famílias de letras.
Viviam num território que os próprios cadernos chamavam de Organização. Realmente, lado a lado, prateleira embaixo de prateleira, viviam organizados, disciplinados. Aliás, os cadernos guardavam, dentro de si, disciplinas escolares.
Orgulhosos de seus sábios conteúdos, quase nunca se misturavam. Às vezes, amontoados uns sobre os outros numa mesa, compartilhavam seus saberes. Mas logo que se enfileiravam em pé na horizontal, se fixavam no próprio conhecimento acumulado entre finas linhas azul claro.
Tudo seguia em paz até que dois cadernos de caligrafia vieram para o lugar. Novinhos, estavam sempre próximos, juntos em sua função. Eram necessários em várias horas do dia e assim começou a proximidade, embora fossem diferentes entre si.
Ela era de uma família de belas letras. Quer dizer, bonitas e graciosas, desde tenra infância. Ele, de uma família de garranchos, toscos e feios, que não conheciam delicadeza. Seu traço de expressão mais notado era fugir das linhas, escapar para os arredores, tumultuando a função do caderno.
Ninguém sabe nem como nem porque se apaixonaram. Talvez pelos floreios dela, que encantavam as retinas de quem a espiasse. Talvez pelos arroubos dele, abrutalhados mas divertidos em suas livres firulas.
De repente começaram a compartilhar espaços, não se sabe se a convite de um ou se por invasão de outro. Se visitavam vez em quando até que começaram a andar juntos pelas folhas um do outro, bagunça de estilos entre as suaves linhas azuis. Já eram meio parecidos.
O resultado foi que os cadernos acabaram cheios de pistas daquele estranho e não bem-vindo amor. E como ocorre quando os jovens não são compreendidos, foram separados, fora de alcance, e tiveram seus horários desencontrados.
Ela não resistiu à separação. Ateou fogo às folhas. Quando ele a viu em chamas, se rasgou todo. Mas antes que ela queimasse, o fogo foi interrompido. Aí ela o viu em frangalhos no chão partes de garranchos que ainda diziam algo a ela. Então usou a borracha sobre si e fez desaparecer sua vida.
A estante nunca mais foi a mesma, ao poucos se esvaziou. Todos os cadernos, envelhecidos, foram para asilos fundos e sombrios, chamados gavetas.
Coincidência ou não, nunca mais ninguém praticou caligrafia.