Os contos e romances de Machado de Assis já migraram muitas
vezes das páginas dos livros para as telas de cinema. Memórias
Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro são
alguns exemplos. A transformação de palavras em imagens
tem popularizado clássicos da literatura brasileira, aproximando-os
do público. É partindo desse princípio que
os alunos da segunda etapa do Centro de Ensino Médio da
Feevale desenvolvem, desde o ano passado, o projeto Cinemachado,
que transforma contos de Machado de Assis em roteiros cinematográficos.
A diferença é que, nesse caso, além de aproximar
os alunos da obra de Machado, o projeto os leva a aprofundar conhecimentos
sobre o estilo e pensamento do escritor, além de aguçar
o gosto pela leitura.
Para a professora Elisabeth Lehmann, uma das coordenadoras do projeto,
trata-se de uma metodologia inovadora de ensino de Literatura. “Estávamos
ensinando o Realismo Brasileiro para os alunos quando surgiu a
idéia de selecionar contos de Machado de Assis e adaptá-los
para o cinema, pois um dos desafios do professor que ensina Língua
e Literatura é tornar a leitura tão atrativa quanto
os meios de comunicação”, diz Elisabeth. Segundo
ela, o principal objetivo do programa é incentivar os alunos
para que desenvolvam o costume da leitura e passem a ter prazer
nessa atividade. “Ler não é uma atitude passiva,
não se reduz à simples decodificação
de sinais gráficos, mas pressupõe uma atividade de
reconstrução de sentidos”, afirma.
Para escrever os roteiros, os alunos desenvolvem todo um processo
de laboratório quando passam a aprofundar seus conhecimentos
sobre a obra do autor, entender o que ele quer dizer, a forma como
ele escreve, além de pesquisar sobre a vida de Machado.
A escolha do autor, conforme Elisabeth, deveu-se principalmente
ao tratamento que o escritor dá aos seus personagens. “Ele
explora muito os fatores psicológicos, o que para muitos
alunos acaba se tornando uma leitura pesada. O projeto, envolvendo
contos, que são textos mais curtos, tende a incentivar a
leitura”.
Para desenvolver o projeto, os alunos lêem vários
contos de Machado de Assis, selecionam um e o roteirizam, tarefa
que conta com o acompanhamento dos professores das disciplinas
de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Depois, os
textos são apresentados em aula, etapa em que os alunos
escolhem quais serão filmados. “É feita então
a divisão das equipes para iniciar a fase de produção
dos curtas. Eles produzem, dirigem e atuam nos filmes, que estão
sendo gravados em parceria com a TV Feevale”, disse Elisabeth.
Durante o ano de 2002 foram produzidos sete curtas roteirizados
a partir de contos como A Cartomante, A Missa do Galo, A Igreja
do Diabo, O Frei Simão, O Dicionário e O Funeral.
Neste ano, estão sendo filmados oito curtas baseados nos
contos A Carteira, Dona Paula, Aurora sem Dia, Antropofagia, O
Bilhete, Caso da Vara, O Alienista e Fernando e Fernanda.
Para o próximo ano, o projeto mudará de nome para
trabalhar a obra de Simões Lopes Neto. “Será o
Cinetchê”, antecipa a professora.
Elisabeth diz que o projeto, apesar de ser uma iniciativa da disciplina
de Literatura, tornou-se transdisciplinar por envolver diversas áreas
do conhecimento. Nas aulas de História os alunos puderam
identificar os cenários político-sociais e econômicos
nos quais as histórias são ambientadas, ajudando
ainda na criação do figurino. Nas aulas de Português
foram estudadas as técnicas necessárias para a elaboração
de roteiros para o cinema. A assessoria técnica, como gravação,
coordenação e direção de fotografia,
está sendo prestada por estudantes de Comunicação
Social. Os alunos do Curso Técnico em Contabilidade trabalham
com a parte financeira; uma agência experimental fez a campanha
publicitária. Também participam alunos do Ensino
Fundamental, totalizando 180 pessoas envolvidas no processo de
criação dos curtas. No final do ano letivo, além
da apresentação dos curtas para a comunidade escolar, é realizada
a entrega dos Feevalitos, prêmio para as melhores produções,
que faz alusão aos Kikitos.
Segundo Elisabeth, o projeto já apresenta resultados positivos. “Percebemos
um aumento pelo gosto da leitura, inclusive dos clássicos, em função
não só do Cinemachado, mas do trabalho que realizamos em sala de
aula, pedindo para que os alunos tragam a “sua” bibliografia, com
os livros que gostaram de ler e para que os recomendem aos colegas. “Não
precisam necessariamente ser livros clássicos, pode ser a biografia de
um surfista, mas o simples fato de os alunos estarem lendo é válido,
até porque uma leitura chama a outra e é assim que se cria o hábito
de ler”. Elisabeth Lenmann, que trabalha na coordenação do
projeto ao lado das professoras Lovani Volmer e Sabrine Heller, diz que a praxe
nas escolas é trabalhar a leitura como obrigação, de um
modo muito formal, com objetivo apenas de avaliar o aluno, que acaba lendo resumos
das obras. “É preciso reeducá-los para a leitura, não
a tratando como algo obrigatório, mas sim como algo prezeroso”,
conclui.
Provão
do magistério causa polêmica
Da Redação
A recente
proposta do Ministério da Educação (MEC)
de promover o Exame Nacional de Certificação dos
Professores, uma espécie de “provão” para
os docentes de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental,
tem provocado reações de contrariedade. Durante
o 1O Encontro do Sistema Nacional de Formação Continuada
e Certificação de Professores, realizado em setembro,
foram deliberadas mudanças no projeto original do MEC.
Após debates regionais, em que ficou explícito
o descontentamento de alguns Estados e de entidades educacionais,
foi decidido adiar o provão para o segundo semestre de
2004, já que, pela Portaria nº 1403 do MEC, ele seria
realizado em janeiro e fevereiro do próximo ano. Além
disso, como o fórum que discute o tema na Secretaria foi
ampliado, contemplando mais entidades representativas da educação,
haverá a discussão também sobre a forma
de avaliação de professores.
A secretária de Educação Infantil e Fundamental
do MEC, Maria José Feres, diz que o exame é um acréscimo
ao diploma, um ponto a mais na valorização, no recrutamento
de professores. “O sistema busca produzir uma grande matriz
nacional, capaz de contemplar as diferenças e as diversidades
regionais”, afirma a secretária. O exame destina-se
a todos os professores, mas a participação de docentes
em exercício e dos concluintes do curso normal é voluntária.
Farão a prova os alunos que estiverem concluindo cursos
superiores de Licenciatura e Pedagogia.
“ Um bom resultado no exame garante a bolsa como estímulo”,
declarou. Para ela, a proposta do governo federal com a criação
do Sistema Nacional de Certificação e Formação
Continuada de Professores da Educação Básica é audaciosa
porque muda paradigmas, cultura e mentalidade.
A certificação do professores será feita nas áreas
de Educação infantil; Educação fundamental
(anos iniciais); Língua Portuguesa; Matemática; Ciências
Humanas e Sociais; Ciências da Natureza; Línguas Estrangeiras;
Educação Física; Artes e Gestão. Segundo
Maria José, o certificado terá validade de cinco
anos e não constitui condição obrigatória
para o exercício da profissão. “Ele pode ser
utilizado pelas redes de ensino como critério de seleção,
avaliação, promoção e concessão
de benefícios”, completou.
Jussara Dutra, presidente da Confederação Nacional
dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e do CPERS/Sindicato
declara-se favorável à formação permanente
dos professores assim como a uma forma de avaliação,
mas faz ressalvas. “Avaliamos que a certificação
proposta pelo MEC é limitada para avaliar os docentes. Como
está, só mede os resultados, o que não acrescenta
em nada a vida profissional do educador”.
Também foi questionada no Encontro a bolsa-incentivo que
o governo oferecerá aos classificados no exame, cujo valor
será estabelecido anualmente em função das
disponibilidades orçamentárias da União. O
projeto do governo prevê essa Bolsa Federal de Incentivo à Formação
Continuada para todos os professores que forem aprovados no exame.
Quanto a essa questão, a Confederação Nacional
dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) é taxativa,
argumentando que a bolsa institui uma diferença remuneratória
dentro do magistério público, estimula o processo
de competição interna, desconsiderando a ação
solidária e cooperativa. Maria José, no entanto,
defende a implantação da bolsa. “Ela será concedida
a todo o professor aprovado no exame que esteja em exercício
na rede pública. É uma forma de atrair o professor
que já está em sala de aula, de incentivá-lo.
Documento elaborado pela Contee afirma que o exame configura uma
avaliação pontual, que desconsidera as condições
de trabalho, a remuneração, as condições
para a qualificação profissional, assim como as diferenças
regionais dos professores. Mesmo não sendo obrigatório,
constituirá razão de diferenciação
entre os docentes, tornando-se classificatório.
“ O fato é que dentro dessa grande iniciativa do MEC que é o
Sistema Nacional de Formação Continuada e Certificação
de Professores há uma demasiada ênfase no exame para
professores. Essa concepção de avaliação,
descolada do processo, é artificial, seja pela dimensão
de seu significado, seja porque entende como iguais as trajetórias
dos professores neste grande e diversificado país.”,
conclui Cacília Bujes, do Sinpro/RS.
Seminário debate ensino de Línguas estrangeiras
A interdisciplinaridade e o ensino de línguas estrangeiras, este é o
tema do IV Seminário de Ensino de Línguas Estrangeiras realizado
pelo curso de Letras da Universidade de Passo Fundo (UPF). Com o apoio do Sinpro/RS,
o evento acontece nos dias 23 e 24 de outubro com o objetivo de incentivar o
debate sobre o ensino e a aprendizagem das línguas estrangeiras e das
questões interdisciplinares que envolvem esses processos, promovendo o
intercâmbio de conhecimentos entre professores, pesquisadores e estudantes
da área de Letras. O seminário promoverá ainda a divulgação
de novos conhecimentos, estudos e pesquisas, com a divulgação de
novos livros e outros materiais didáticos e paradidáticos de Línguas
Estrangeiras e áreas afins. Durante o evento será realizada ainda
a IV Mostra de Cursos e Materiais Didáticos. O público-alvo são
professores, pesquisadores e estudantes de Letras e/ou línguas, interessados
em geral. Será fornecido certificado de extensão universitária
de 20h, exigindo-se freqüência mínima de 75%. O programa completo
está disponível no site www.upf.br/seles. As inscrições
podem ser feitas na Central de Atendimento ao Aluno – Campus I – Passo
Fundo, no Campi da UPF – Lagoa Vermelha, Soledade, Carazinho, Casca e Palmeira
da Missões ou pelo site www.upf.br. Mais informações (54)
316.83.30.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do Sindicato
dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul - SINPRO/RS
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