Imagine a cena: após passar o dia inteiro na faculdade,
a jovem retorna à noite para a casa e surpreende os familiares
com uma aparência absolutamente fashion. Não bastassem
as unhas feitas, o rosto maquiado e o cabelo cortado de acordo
com o look da moda, a moça ganhou uma cor bronzeada, como
se tivesse passado a tarde esticada na areia da praia sob sol escaldante.
Os pais imaginam que, em vez de se aplicar nos estudos, a filha
gazeteou as aulas para dar uma escapada ao litoral. Na realidade,
ela aproveitou o intervalo entre uma disciplina e outra para dar
um pulo no salão de beleza instalado dentro do campus universitário,
que inclui entre os serviços prestados não apenas
uma sessão de bronzeamento artificial, mas também
uma hora de massagem para aliviar a tensão e o estresse
de cada dia.
Paulo César Teixeira
icção? Filme de Elio Petri*?
Nada disso. O enredo poderia ter transcorrido, por exemplo, no campus da PUC/RS,
em Porto Alegre, onde
funciona a People Beauty Estética & Cabeleireiros, que atende a uma
clientela formada por alunos, professores e funcionários da universidade.
A instituição gaúcha não é um caso isolado.
De 20 anos para cá, alastrou-se pelo mundo afora um modelo de cidade universitária
que busca facilitar, ao máximo, a vida dos que permanecem dentro dela
por quase todo o dia. A instalação de verdadeiros shopping centers
nos campi é uma tendência que tem como referência universidades
como as de Warwick (Inglaterra), Cambridge e Atlanta (Estados Unidos) ou Quebec
(Canadá). No Brasil, chegou na década de 90, mas ainda é incipiente.
A maior parte das instituições de ensino superior do país
engatinha nessa tarefa. A USP, por exemplo, só agora começa a desenhar
sua área de serviços e compras, enquanto a Unisul, de Florianópolis,
sonha implantar uma arena multiuso para atividades de cultura e esporte, aberta
ao público externo. No Rio Grande do Sul, PUC, UCS (Universidade de Caxias
do Sul), Ulbra e Unisinos já tomaram a iniciativa de atender aos anseios
dos alunos. O Centro de Serviços da PUC/RS, por exemplo, surgiu em 1997.
Hoje, circulam por ali cerca de 15 mil pessoas por dia. Conta com três
livrarias, restaurante, cafeteria, farmácia, agência de correios,
cinefoto, lojas de bijuterias e presentes, além de uma agência bancária
e quatro caixas eletrônicos.
Fotos:
René Cabrales
Pontos
comerciais ganham mais espaço nas instituições
“Antes, não havia opções
no campus. Se o aluno queria comprar
remédio para dor de cabeça, precisava sair”, lembra o gerente
de eventos e espaços físicos da PUC/RS, João Carlos Gasparin.
O Centro de Serviços foi criado após uma pesquisa que identificou
as principais necessidades dos cerca de 30 mil alunos da instituição.
Apenas duas lojas não vingaram – cds e informática. Uma das
mais antigas arrendatárias é a livreira Lussana Soares de Souza,
dona da Livraria Editora Acadêmica. O pai dela foi pioneiro ao instalar
uma pequena livraria no prédio 5 da PUC/RS há 25 anos. “É uma
vida inteira em contato com a comunidade acadêmica. A gente conhece o cliente
pelo nome”, diz Lussana.
Mas o salão de beleza é um caso à parte. Como não
constava da lista preliminar de serviços que seriam oferecidos, houve
um clamor do público feminino para que fosse instalado. Uma das freqüentadoras
assíduas é a professora da Faculdade de Odontologia, Maria Antonieta
Lopes de Souza. Se alguém perguntar a ela quais serviços utiliza
lá, a resposta está na ponta da língua: “Todos!” Já fez
massagem e bronzeamento artificial, não de forma sistemática. O
mais comum é fazer unha e cabelo. “A vantagem é não
precisar se deslocar. Além disso, o carro fica em segurança no
estacionamento.”
Outro aspecto é o convívio propiciado pelo salão de beleza,
ao reunir alunos e professores de diferentes áreas de conhecimento. “Por
incrível que pareça, há uma produtiva troca de idéias
sobre questões relacionadas à pesquisa e ao ensino”, afirma
ela. A professora da PUC chega a comparar a conversa do cabeleireiro aos debates
travados nos restaurantes universitários, nos anos 60, que foram fechados
pelo regime militar, em certa ocasião, por favorecer a aglutinação
de estudantes. “Juntava gente que pensava e que não pensava, o que
era considerado perigoso pelos militares.” Questões políticas à parte,
o salão de beleza quebra muitos galhos. Por isso, um crescente público
masculino dá uma escapada no People Beauty. “É prático.
Professores passam aqui para arrumar o cabelo antes de palestras”, conta
a proprietária Natália Venturine.
Se alguém se espanta com o fato de um salão de beleza fazer tanto
sucesso em um campus universitário, não deve se surpreender com
a variedade de pontos comerciais e serviços da Universidade de Caxias
do Sul (UCS). Tem até cinema e loja de langerie. Na Galeria Universitária,
foram instalados lavanderia, correios, agência de viagens, farmácia,
duas livrarias, salão de beleza, loja de conveniência e cinco agências
bancárias. Não faltam roupas esportivas ou de grifes da moda nas
vitrines. A praça de alimentação inclui dois restaurantes,
lanchonete, pastelaria e confeitaria. “A estratégia é ocupar
os espaços para satisfazer o usuário”, diz a Pró-Reitora
de Ação Comunitária, Corina Michelon Dotti. A UCS tem 35
mil alunos, procedentes de 75 municípios no Estado.
Uma
cidade dentro do campus
A Unisinos
está desenhando o formato do mix de lojas e serviços
que pretende oferecer em São Leopoldo. Os estudos fazem
parte do projeto Unicidade, que inclui também o fomento
ao desenvolvimento da região compreendida num raio de
100 km do campus. Na verdade, o novo modelo dos campi determina
um movimento de reciprocidade – as instituições
investem para suprir os anseios da comunidade interna, ao mesmo
tempo em que ampliam a oferta dos serviços ao público
externo. Estão cada vez mais parecidas com verdadeiras
cidades. “Em todo o mundo, as universidades buscam um elo
com a comunidade em que se inserem. A sociedade se apropria do
campus”, diz Thomas Assumpção, engenheiro
paulista com pós-graduação em marketing,
que assessorou a Unisinos a formatar o projeto Unicidade.
No campus do Vale dos Sinos, onde circulam aproximadamente 31 mil
estudantes, já existem farmácia, banco, livraria,
lanchonetes, restaurantes, agência de viagens, despachantes
e correios, entre outros serviços. Haverá uma remodelagem
do Centro de Convivência, que concentra a área administrativa
e comercial da instituição. “No momento, estamos
realizando consulta junto à comunidade acadêmica para
detectar quais são as prioridades. Fazemos reuniões
e discussões via web para que todos possam opinar”,
diz o diretor de administração do campus, Roberto
Haleva. Uma das novidades confirmadas é a implantação
de um centro de educação infantil (creche), que passará a
funcionar ainda neste semestre.
Em parceria com o IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), a universidade
lançou um concurso público nacional para a construção
do Complexo de Desporto e Lazer, que ocupará 12 mil m2 do
campus, com arena multiuso e piscinas térmicas, abertas à comunidade
externa. Há também a possibilidade de instalação
de uma livraria de grande porte. Além disso, a Unisinos
planeja instaurar lojas e restaurantes que atendam ao conceito
de pesquisa da universidade. “Queremos que os novos restaurantes,
por exemplo, incorporem o que nossos pesquisadores estão
desenvolvendo em matéria de nutrição”,
acrescenta Haleva.
Na Ulbra, a oferta de lojas e serviços abrange três
restaurantes, jogos eletrônicos, locadora de vídeo,
farmácia, perfumaria, cafeteria, salão de beleza,
agência de viagem e seis bancos, além de duas livrarias. “Por
um lado, considero positivo, na medida em que facilita a vida da
gente, que passa o dia estudando. De outra parte, os preços
praticados são exagerados. Outro dia, paguei o dobro do
valor cobrado lá fora por um vidro de guaraná em
cápsula”, afirma Camila Fernandes, aluna do curso
de Jornalismo.
Aulas dentro do shopping
Se as universidades abrem espaço para atividades comerciais, o movimento
inverso também ocorre: em alguns casos, as escolas é que migram
para os shopping centers. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Universidade Estácio
de Sá plantou unidades de ensino em vários shoppings da cidade,
como o West Shopping, Guadulupe Shopping, Madureira Shopping, Barra World e Nova
América. Além disso, instalou salas de aula no Centro Empresarial
Barra da Tijuca e também junto a um parque de diversões (Terra
Encantada). Na Grande Porto Alegre, a Escola de Ensino Supletivo Universitário
conta, desde agosto de 1997, com uma franquia no terreno do Shopping do Vale,
em Cachoeirinha, com mais de 500 alunos.
René Cabrales
Comunidade
universitária convive
com a facilidade de acesso aos
bens de consumo
no interior
dos prédios das instituições
A nova tendência dos campi enfrenta questionamentos. “Há o
risco de o ensino se transformar em apêndice. É como se o conhecimento
fosse apenas mais um item ofertado”, critica a professora Jaqueline Moll,
da Faculdade de Educação da Ufrgs. Para ela, a proliferação
de lojas dentro do campus pode não tirar o foco da atividade principal
(educação), mas ao menos embaralha. A professora preferiria que
os alunos usassem o tempo partilhando com amigos os espaços de convivência,
ou estudando na biblioteca, ao invés de gastarem dinheiro em um consumo
fora de lugar. Além disso, condena a idéia de que as pessoas devam
circular cada vez menos na cidade, concentrando-se em um só local, como
o campus universitário. “Por que não usar manicure ou comprar
roupas íntimas fora do campus? A natureza dos serviços nada tem
a ver com a atividade fim da escola.”
O arquiteto Leonardo Araújo da Gad Design (empresa que também assessora
a Unisinos) rebate as críticas: “É uma interpretação
purista em demasia. A vida atribulada de hoje em dia tem a ver com uma palavra-chave,
que é conveniência. A atividade comercial no campus não embaralha
o foco no ensino. Ao contrário, concentra, desde que não haja exploração
predatória, e sim um desenvolvimento projetado.” Para o paulista
Thomaz Assumpção da consultoria de marketing Urban, a exploração
comercial do campus permite a ampliação das receitas das universidades
brasileiras. “Atualmente, 75% do dinheiro que entra vem da matrícula
e das mensalidades. Se aumentar a receita com atividades de negócio, haverá mais
fôlego para investir no ensino e na pesquisa, penalizando menos a mensalidade
do aluno”, acredita ele.
* Diretor do clássico do cinema
político italiano A Classe Operária
Vai ao Paraíso, de 1971
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