Ano 8 - nº 76
Outubro 2003



Luis Fernando Verissimo:
Minha posição na questão dos transgênicos é um claro e firme “não sei”. Já li e ouvi tantas opiniões convincentes, para um leigo, a favor e contra, que me consolo com a idéia de que, nesse assunto, todos são leigos. Um lado diz que ainda não se...



Nei Lisboa:
Antes de mais nada, saibam que fui provocado. Pai fresco e coruja, andei evitando o assunto com medo de afogar o leitor na baba. Mas agora é justamente uma leitora, a Elizabeth Sivinski, quem pede que eu fale mais sobre a minha filhota. Ôba! E lembrem-se, vocês que pediram!



Elisa Lucinda:

Palavras de mãe costumam ecoar para sempre nos ouvidos da gente. As da minha me embalam líricas e determinantes até hoje. Rainha do otimismo responsável e atuante, minha mãe amava dignos, pobres, ricos e errantes na proporção da sua estupenda compaixão e...





Aliança dos povos da floresta

Além de capilarizar a dinâmica de politização nos seringais através das escolas, Chico Mendes protagonizou uma articulação que foi capaz de superar a histórica hostilidade dos brancos e permitir a incorporação das experiências das nações indígenas que viviam na região.

“Durante a década de 80, o movimento indígena lutou pelo resgate de sua condição e para retomar o domínio de seus territórios. O movimento dos seringueiros, liderado por Chico Mendes, teve a sensibilidade de superar uma inimizade histórica, manipulada pelos patrões e lançar as bases da atual aliança dos povos da floresta”, resume Ailton Krenak, em depoimento sobre Chico Mendes.

Fotos Carlos Carvalho/Brasil/Imagem
Grupo de seringueiros usando
as "porongas", expressão que
nomearia os materiais didáticos utilizados nos projetos
de educação

As nações indígenas tinham conseguido sobreviver aos massacres das aldeias e ao cativeiro nos seringais – antes dos nordestinos, foram escravizados no trabalho com a borracha – e, naquele momento, administravam a própria produção e exigiam a demarcação de suas terras.
Nascia a aliança dos povos da floresta e o exemplo das reservas indígenas serviu como modelo para as reservas extrativistas. Por esta proposta, as áreas ocupadas por seringueiros seriam consideradas de domínio da União e não haveria emissão de títulos individuais de propriedade. Foi uma saída para os conflitos agrários e uma nova estratégia de desenvolvimento econômico que incorporava a necessidade de preservação ambiental.

Nestes territórios, a implantação de escolas, postos de saúde e cooperativas funciona como instrumento para melhora da qualidade de vida e para introdução de novas técnicas que aumentam a produtividade dos produtos tradicionais como borracha, castanha, jarina, óleo de copaíba e piscicultura.
Os resultados são evidentes e o modelo de reserva extrativista do Acre é apontado como exemplo de barreira aos desmatamentos, principalmente quando implantadas ao longo das rodovias. As estradas são consideradas as grandes propulsoras de degradação na região e contribuíram para o crescimento alarmante do desmatamento que passou de 18.200 Km2 para 25.500 Km, entre 2001 e 2002.

Para técnicos do Museu Emílio Goeldi (Pará)– instituição criada em 1866 e centro de referência do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais (PPG-7, protocolo assinado pelo governo brasileiro e pelo G-7 durante a Eco-92) –, a maior pressão está concentrada nos 50 km a partir do leito das estradas. A solução seria a implantação de sistemas mistos de conservação nas quais as reservas extrativistas ocupariam a primeira faixa de terra e as áreas mais isoladas seriam reservadas a unidades de proteção integral e reservas indígenas.

Como parte do esforço para enfrentar os desmatamentos, foi anunciada a criação de seis novas unidades de conservação no Amazonas e quatro no Acre. Entretanto, o plano plurianual do governo Lula prevê a realização de obras de infra-estrutura principalmente nos Estados de Tocantins, Pará, Amazonas e Roraima. Na avaliação do Instituto Socioambiental (www.socioambiental. org), os projetos seriam destinados a reduzir o custo de escoamento da produção agrícola da região Norte e incluiriam a construção e melhoria de 5,5 mil Km de rodovias, adequação de 10 mil Km de hidrovias, construção de 2,4 mil Km de ferrovias e ampliação da capacidade portuária em 200 milhões de toneladas.

Ao que tudo indica, a questão a ser resolvida na Amazônia é a capacidade destas unidades de conservação na contenção do impacto do aumento da infra-estrutura amazônica. Na base deste sistema, a população que pode garantir uma ocupação não predatória continua enfrentando grandes desafios.

“É absolutamente necessário abrir mercado com preços justos para os produtos não-madeireiros, extraídos ou coletados pelas populações tradicionais. Se não houver mercado e remuneração justa para os produtos tradicionais, os seringueiros acabam por desistir de viver na floresta. Com isto, a floresta corre riscos muito maiores”, resumiu Gumercindo Rodrigues.

  Dos seringais para o mundo
A borracha era fundamental para os veículos militares na Segunda Guerra Mundial, mas a produção amazônica estava em decadência e os seringais asiáticos sob controle inimigo. Os aliados precisavam de 800 mil toneladas anuais de borracha e norte-americanos e ingleses dividiram a responsabilidade de aumentar a produção na América Latina, África, Ceilão e Índia.

O apoio do Brasil era estratégico e os primeiros meses de 1942 foram dedicados à definição dos Acordos de Washington. O negócio previa empréstimos para implantação do parque siderúrgico brasileiro e compra de material bélico. Em troca, haveria uma base militar em Natal (RN) e o fornecimento regular de alumínio, cobre, café e borracha.
 Chico Mendes na sua rotina de trabalho

Para cumprir a meta, o governo brasileiro organizou a “Batalha da Borracha” e, durante três anos, arregimentou trabalhadores em cidades nordestinas atingidas pela seca. A produção anual de borracha precisaria saltar de 18 para 45 mil toneladas e o contingente de seringueiros na Amazônia teria que passar de 35 para 100 mil homens.

Os “soldados da borracha” saíram, principalmente do interior do Ceará, atraídos por promessas de prosperidade e contratos de dois anos de trabalho com uma remuneração de 60 por cento da venda da borracha. Durante a viagem, recebiam um pequeno salário e um adiantamento que ficava com a família. Ao chegar ao destino, recebiam dois pares de sapato, camisas, sandálias, rede para dormir, um copo, um prato e alguns talheres.

O governo dos Estados Unidos pagou 100 dólares por trabalhador entregue na Amazônia e bancou parte do orçamento dos serviços criados para a transferência dos nordestinos. Dados não-oficiais indicam a transferência de cerca de 36 mil pessoas, entre 1942 e 1944. Muitos não resistiram às condições de vida na floresta e pouquíssimos regressaram ao seu ponto de partida, no nordeste.

Com o fim da guerra, o sistema produtivo foi desarticulado e os trabalhadores não conseguiram prosperar. Pela Constituição de 1988, trabalhadores e descendentes têm direito a uma pensão vitalícia de dois salários mínimos pela participação no esforço brasileiro na Segunda Guerra Mundial. Atualmente, a dificuldade destes antigos seringueiros é cumprir as normas impostas pelo INSS para o reconhecimento da condição de soldado da borracha que incluem não apenas provas testemunhais, como também documentos firmados entre 1940 e 1945.



 

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José Luis Fiori

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