Ainda sobre o fechamento do Colégio Cruzeiro do
Sul
Marcos Júlio Fuhr*
A mídia continua ecoando o mais inusitado acontecimento
do ensino privado nos últimos anos, o fechamento em meados
de agosto do quase centenário colégio Cruzeiro do
Sul em Porto Alegre.
Os responsáveis pelo feito continuam tendo espaço
na imprensa, não para anunciar o pagamento dos salários
que ficaram pendentes ou das verbas rescisórias dos professores,
mas sim para continuar justificando sua incompetência e responsabilizando
os professores e os pais. Os primeiros porque não teriam
aceito redução salarial, o que, aliás, não é verdade,
e os pais por não pagarem as mensalidades da escola.
As continuadas evidências de crise na escola repentinamente
se agigantaram no início de agosto quando a escola só pagou
a metade dos salários de julho e exigiu anuência dos
professores a esse novo patamar para continuar funcionando. À disposição
dos professores de negociar uma redução menor se
opôs uma postura autoritária e intransigente já alicerçada
na decisão de encerrar o funcionamento do Cruzeiro do Sul.
Ao fechar suas portas, a referida escola contava com 40 professores
e 300 alunos, expressão de um processo de esvaziamento que
a instituição não conseguiu estancar, nem
tão pouco realizar, ao longo desta trajetória regressiva,
ajustes necessários que garantissem sua sobrevivência.
Pela repercussão do fechamento, bem se vê que águas
passadas só movem mesmo os moinhos da mídia e da
demagogia.
Os fatores objetivos que marcam a conjuntura do ensino privado,
como a redução da clientela por conta da diminuição
de filhos da classe média bem como a sua perda de poder
aquisitivo, efetivamente privarão algumas comunidades da
sua escola privada. Apesar desses fatores continua a vitalidade
de outras escolas, por isso, estamos plenamente autorizados a tributar às
lamentáveis especificidades do Cruzeiro do Sul a razão
maior do seu fechamento.
Dos acontecimentos extraímos como lição que
escolas são sim referenciais para a sociedade pelo seu meritório
trabalho de formar gerações de homens e mulheres,
mas que, em sendo privadas, são também um empreendimento
que precisa de gestão competente e capaz de realizar o seu
fim, no caso, educação de qualidade.
Além de administrar receitas e despesas, é preciso
que a escola privada tenha um projeto pedagógico para os
seus alunos e uma identidade profunda com a sua comunidade, enfim,
um motivo que justifique a própria existência. Precisa
dar à clientela um motivo permanente para pagar o que atualmente
poderia ter de forma gratuita do poder público.
Este diferencial de qualidade é cada vez mais a condição
que justifica a escola privada e é em função
dele que a família paga, mesmo com sacrifício, a
mensalidade do colégio. A demissão dos professores
mais antigos ou dos mais qualificados, porque são mais caros,
constitui indício de perda de identidade e relativização
do fator qualidade.
Fechou o Colégio Cruzeiro do Sul e todos lamentamos. O fato
mais grave no entanto é que, em prevalecendo o modus operandi
de muitas mantenedoras e direções de escolas, outros
Cruzeiros do Sul provavelmente também fecharão suas
portas com maior ou menor repercussão na mídia.
*
Diretor do Sinpro/RS
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