Saúde
do professor e ambiente escolar
Especialistas alertam que os ambientes de trabalho estão
desencadeando doenças ocupacionais. Problemas como o estresse
despontam nas pesquisas como a principal causa de adoecimento.
No entanto, esse sintoma é apenas a ponta do iceberg, apontam
psicólogos e estudiosos da medicina do trabalho. Segundo
eles, por trás da tensão diária, decorrente
do alto grau de exigência imposto pelas instituições,
podem ser desenvolvidas doenças que comprometem de tal forma
a saúde física e mental que o profissional corre
o risco de ficar incapacitado para o trabalho. Nos docentes, soma-se
a esse quadro o risco de ter problemas na coluna e na voz, bem
como a síndrome de burnout, essa última caracterizada
por uma extrema exaustão emocional e com alta incidência
entre professores.
Por Stela Rosa*

s
estatísticas não são nada alentadoras no que
se refere aos problemas decorrentes do sofrimento psíquico.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que
até 2020 a depressão será a segunda maior
causa de incapacitação para o trabalho, perdendo
apenas para doenças cardíacas. No que diz respeito
a problemas na voz, os docentes têm 14,8 vezes mais chances
de serem acometidos do que trabalhadores em saúde, 3 vezes
mais do que bancários e 1,5 vez a mais do que os profissionais
de rádio e tevê – todos utilizam a voz como
ferramenta de trabalho. Mesmo assim, um levantamento realizado
pelo Laboratório de Saúde do Trabalhador da Universidade
de Brasília mostrou que é praticamente inexistente
entre os docentes do Rio Grande do Sul o afastamento pelo INSS
decorrente de disfunções da voz, e apenas um caso
de depressão foi registrado. Essa realidade foi publicada
na reportagem Professores no Limite
(
http://www.sinpro-rs.org.br/extraclasse/jun05/educacao.asp).
Tais fatos demonstram que muitas dessas enfermidades passam despercebidas
e, geralmente, não é feita a relação
entre os sintomas e o trabalho. O pior: as normas e estruturas
organizacionais que propiciam essa realidade, tais como a carência
de aporte e de equipamentos preventivos para desenvolver as tarefas,
falta de autonomia, pressão, sobrecarga de trabalho, inclusive
com demandas enormes de tarefas extraclasse, e o medo de perder
o emprego são encaradas como normalidade da rotina de trabalho
pela instituição e até mesmo pelos próprios
professores. Diante do contexto, os estudiosos alertam para a necessidade
de mudar a lógica de atribuir a responsabilidade do adoecimento
aos profissionais que, muitas vezes, se sentem culpados e até mesmo
incapazes diante dos sinais de alerta do corpo. Para eles, o empregador
deve rever suas práticas, sob pena de comprometer a qualidade
do ensino, que está diretamente ligada à saúde
do professor.
Arte
de Claudete Sieber sobre
foto de Tânia Meinerz
PERFIL – Segundo os dados do Cadastro Nacional de Informações
Sociais (Cnis) 2003/4, a população de empregados
no ramo da Educação é composta de 844.243
vínculos, sendo 63,2% do sexo feminino, e 64,4% com idade
inferior a 40 anos. Proporcionalmente, a população
feminina decresce com a idade, no entanto, ainda representa 41,2%
daqueles que atuam no ramo, com 60 anos ou mais de idade. Quanto
aos níveis de ensino, 36,2% dos vínculos estão
no Ensino Superior e 30,0% na Educação Infantil (EI)
e Ensino Fundamental (EF). As atividades de ensino, particularmente
na EI e no EF, são reconhecidas como desgastantes e até penosas
e são objeto de aposentadoria especial.
Ambientes de
trabalho causam doenças
Para os especialistas, pesquisadores e professores, tratar unicamente
as conseqüências decorrentes das doenças ocupacionais
não irá solucionar e nem minimizar os problemas de
saúde. Eliana Perez Gonçalves de Moura, professora
da Feevale, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre saúde
do professor nas escolas privadas de Novo Hamburgo, avalia que
há uma realidade de adoecimento coletivo e sutil que se
expressa através de perturbações do sono,
insônia, irritação e no aumento do consumo
de drogas, como cafeína e calmantes, para aliviar o estresse
crônico. “Em geral, as pessoas têm medo de confessar
que não estão bem, porque isso pode significar confessar
incompetência”, pontua. Para ela, as instituições
se beneficiam desse silêncio, sem discutir a necessidade
de fazer alterações organizacionais para promover
espaços e relações mais saudáveis. “Os
professores ocultam de si mesmos sua fragilização
e trabalham de qualquer jeito. Mas o momento é de poder
se abrir para a compreensão de que doença ocupacional
não é um fracasso individual, mas resultado de um
processo coletivo, e a categoria precisa discutir essa questão”,
alerta.
Essa opinião é compartilhada por Sérgio dos Santos Pacheco,
médico psiquiatra forense, doutor pela Escola Paulista de Medicina (Unifespe),
com mais de 15 anos de experiência na atividade de docência. Ele
ressalta que, nas instituições de Ensino Superior, não há mecanismos
internos para intermediar os diversos conflitos, prevalecendo a lógica
empresarial, na qual, muitas vezes, as peculiaridades da docência não
são levadas em conta. Ele ressalta ainda que, para manter o emprego, os
docentes precisam, além de desenvolver atividades em sala de aula, correr
atrás de titulação e publicar artigos. “Há um
clima constante de insegurança, competição e autopromoção
que resulta em sofrimento psíquico e estresse.” Para Pacheco, é necessário
criar espaços extra-institucionais, como um conselho de ética,
para pontuar os abusos e não deixar os professores à mercê das
pseudolideranças, sem espaços de participação. (Stela
Rosa)
Pesquisa mostra dados do ensino privado
Pesquisa feita pela Comtexto Informação e Marketing, encomendada
pelo Sinpro/RS, divulgada e abordada anteriormente na edição de
10 de junho de 2005 na matéria Professores no Limite (
www.sinpro.org.br/extraclasse/abr06),
mostra que essa realidade alertada em outros estudos e por diversos organismos
internacionais atinge profissionais do ensino privado de todos níveis
também no Rio Grande do Sul. Dos 750 docentes entrevistados, 45,8% apontaram
o estresse como o principal problema de saúde, seguido das lesões,
problemas de postura e coluna que afetam 29,9%. Já as lesões na
garganta e alterações nas cordas vocais foram apontadas por 29,4%.
O estudo constatou ainda que 83% dos professores desprezam os sinais do corpo
e trabalham mesmo doentes, para atender aos compromissos com os alunos e a escola.
A direção do Sinpro/RS ressalta que os dados apontados na pesquisa
traduzem uma situação de fragilidade que vivenciam os docentes.
Freqüentemente, o Sindicato é procurado por professores que se dizem
constrangidos, muitas vezes sem apoio, outras vezes ainda se sentindo adoecidos,
em função de uma situação na escola muito aquém
do que eles gostariam de ter. Conforme análise do Sindicato sobre a pesquisa,
esse quadro é decorrente dos diversos papéis que os professores
vêm assumindo, resultando em sobrecarga de trabalho e responsabilidade.
Ou seja, o professor sozinho tem dado conta dos múltiplos problemas que
envolvem os alunos, que são naturais, porque as pessoas aprendem em tempos
e de formas diferentes. No entanto, a posição do Sindicato é de
que é necessário que a direção das escolas, o setor
pedagógico e o de orientação educacional atuem de forma
mais concreta, caso contrário, os professores continuarão adoecendo.
O Sinpro/RS orienta que os profissionais que estiverem vivenciando essa situação
podem procurar orientação e auxílio visando a soluções,
tanto no diz respeito à questão jurídica como na busca de
um especialista da área da saúde, sem correr o risco de ter seu
nome divulgado sem consentimento.
Jussara Maria Rosa Mendes, coordenadora de um grupo de estudos de Saúde
do Trabalhador da PUC, avalia que há uma hipersolicitação
devido às novas exigências e rapidez necessárias para atender às
demanda dos empregadores, fatos que têm levado ao desgaste físico
e mental. “E essa hipersolicitação vem trazendo aumento significativo
de doenças e acidentes de trabalho. A Organização Internacional
do Trabalho (OIT) estima que essas enfermidades serão responsáveis
pela morte de 2 milhões de trabalhadores por ano no mundo”, pontua.
Por outro lado, ela ressalta que a legislação não acompanha
o ritmo acelerado do adoecimento, por isso, ainda é difícil fazer
o nexo causal entre estresse e o trabalho. (S.R.)
Mais Especial Saúde:
Cuidados
com a voz
Burnout: professores são grupo de risco
Trabalho é fonte
de estresse
Os
trabalhadores da Educação e suas vulnerabilidades de saúde e trabalho
Saúde
do professor - hábitos preventivos e sintomas