Em busca
do movimento
perfeito
O Ballet Concerto comemora uma década nesse ano de 2003.
Além dos tradicionais pliés, pirouettes, arabesques
e développés, a flexibilidade, o senso estético,
a disciplina e muita determinação têm marcado
a trajetória desse grupo gaúcho. Mesmo enfrentando
as costumeiras dificuldades em realizar um trabalho de qualidade
no Estado, no início deste segundo semestre, a equipe do
Ballet Concerto teve a ousadia de montar um espetáculo sofisticado,
com 18 bailarinos, e nenhum patrocínio financeiro. Com direção
geral da coreógrafa Victória Milanez e intitulado
Contrastes, o espetáculo reuniu trechos dos ballets de repertório
O Corsário e Chamas de Paris, além de uma coletânea
contemporânea. Um dos trunfos do Grupo nas duas noites em
que se apresentou no Teatro Renascença, em Porto Alegre,
foi a participação especial da primeira solista do
Ballet de Mainz (Alemanha), a gaúcha Marlúcia do
Amaral. O Ballet de Mainz é considerado uma das melhores
companhias alemãs da atualidade.
Keli Lynn Boop
A eterna busca por patrocínio

m férias em Porto Alegre,
Marlúcia do Amaral, que já fez parte do Ballet Concerto, não
economiza elogios ao Grupo e, especialmente
a sua fundadora e diretora, Victória Milanez. “Além de educadora,
a Victória é uma pesquisadora. Ela faz os bailarinos pensarem os
movimentos. Ela é um patrimônio da dança no Rio Grande do
Sul”, garante ela que já estudou com grandes nomes da dança
como Fernando Alonso e Ramona de Sá, fundadores da metodologia cubana
de ballet, Birgit Keil, do Stuttgart Ballet, e que atualmente tem como mestre
o aclamado coreógrafo suíço Martin Schläpfer.
Fundado
em 1993 a partir de uma iniciativa independente de um grupo de bailarinos com
idéias em comum a respeito da dança, o Ballet Concerto é vencedor
de dois Prêmios Açorianos de Melhor Espetáculo de Ballet
Clássico de Repertório em 1998 e 1999. O Grupo já participou
de apresentações ao lado da Orquestra Sinfônica de Porto
Alegre e atualmente participa, junto à Orquestra e ao Coral da PUCRS,
da série de Concertos Comunitários Zaffari.

Mas, assim como num pas-de-deux, no qual, sem o auxílio do partenaire,
a bailarina jamais conseguiria exibir sua graça, sua linha e seu perfeito
equilíbrio, os grupos e companhias de ballet brasileiros só sobrevivem
se conseguem parcerias da iniciativa privada para qualificar ainda mais a sua
arte. O Ballet Concerto não foge a essa realidade e a falta de patrocínio é o
que inviabiliza que o Grupo trace objetivos a longo prazo e produza, por exemplo,
pelo menos dois ballets por ano. O que não é muito se comparado
a companhias estrangeiras que montam em média de 50 a 70 espetáculos
anuais. “Trabalhamos a curto prazo, o que não é suficiente
para formar uma categoria, um público, críticos. Por enquanto,
projeto a longo prazo somente o trabalho fisico do bailarino na sala de aula”,
constata Victória. Para ela, a familiarização do público
com a dança clássica só vai acontecer quando houver um
caráter formativo e educacional. “A escola particular não é de
caráter formativo, o caráter formativo pertence, sim, ao Estado.
As pessoas que vão acreditar em dança são pessoas que
foram educadas a ver dança e educadas a respeitar dança”.
Apesar
dos parcos
recursos
“Durante muito tempo se falou que o Estado tinha que ter
um corpo de baile, hoje em dia não adianta mais se falar
nisso; nem Estado nem empresários têm dinheiro e quando
têm é mal-empregado em projetos de curto prazo. Isso
não satisfaz nem à categoria dos bailarinos, nem
ao espectador”, garante Alexandre Rittmann, bailarino e coreógrafo,
Prêmio Açorianos Melhor Bailarino, em 94 e 97. Com
passagens pelos Ballet do Teatro Castro Alves (Bahia), em 1995,
e na Companhia de Dança de Minas Gerais (Belo Horizonte),
em 1996. Para ele há muitos grupos fazendo trabalhos esteticamente
duvidosos. “Uma ou outra montagem se salva. Um grande diferencial
do Ballet Concerto é que reúne profissionias com
senso estético. Quando montamos espetáculos, tentamos
salvar a credibilidade da dança no meio de tanta montagem
de caráter duvidoso”, afirma.
“As pessoas conhecem o ballet de fim de ano das escolas
particulares que têm um perfil diferente da visão profissional”,
lembra a bailarina Aline Garcia, que está no Ballet Concerto
desde sua criação, em 1993. Para ela, que já trabalhou
com importantes nomes da dança local como Carlota Albuquerque
e Alexander Sidoroff, o público gaúcho de dança
ainda está para ser formado, ainda não tem um perfil
tão definido como o público de teatro ou música.
Celeiro de talentos
A história do Ballet Concerto começou no início
dos anos 90, com os primeiros trabalhos de Victória Milanez
e Claudia Corrêa da Silva com o Grupo “Estudos Coreográficos” formado
pelas bailarinas Mayra Becker, que hoje dança no Gulbenkian,
em Portugal, Silvia Wolff, Juliana Bertoletti e Tatiana da Rosa. “Daí para
o Ballet Concerto em 1993 foi uma seqüencia de fatos e acontecimentos
que culminaram com a compra do local onde até hoje funciona
a sede do ballet”, lembra Cláudia. Com o tempo, “as
pessoas foram aparecendo e nos fortalecendo, entre elas os bailarinos
Alexandre Rittmann, Alexandra Zucolotto, Aline Garcia, Marlúcia
do Amaral, Leslie Heylmann, atualmente solista da Sächsische
Staatsoper Dresden-Semperoper (Dresden, Alemanha), Luciano Tavares,
Luciana Dariano, Fernando Palau, Caroline Gaier, Silvia Rosa, Juliana
Sanvicente”.
Para Cláudia, que também é realizadora e Coordenadora
de Dança do Estado, o Rio Grande do Sul é um celeiro
de talentos na arte da dança, mas para manter esses talentos
aqui muita coisa tem que ser feita. “Há de se criar
um Centro de Formação da Dança, há de
se criar um Corpo de Baile da Cidade de Porto Alegre, do Estado
do Rio Grande do Sul, há de se providenciar competência
e esclarecimento nas Faculdades de Dança do Estado que são
a Unicruz, a UERGS e a ULBRA”.
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