MAURICIO DE SOUSA
Um bilhão de idéias
Essa, talvez, tenha sido uma das entrevistas mais celebradas
na redação do Extra Classe. Já havíamos
perdido as esperanças, pois a primeira remessa de perguntas
e contatos haviam sido feitos, ainda em 2002. Na época já estava
tudo certo, mas a agenda apertadíssima de Mauricio de Sousa
o tirou do Brasil antes que pudesse encontrar tempo para nos responder.
Mas persistimos e atualizamos nosso questionário, a partir
de sua presença confirmada na Jornada Nacional de Literatura
de Passo Fundo. Sim, um autor de histórias em quadrinhos
no meio de um debate sobre Literatura. Por que não? Afinal,
Mauricio de Sousa tem se dedicado não só aos quadrinhos
e suas exitosas atividades empresariais, como também à prosa.
Além disso, quantos adentraram no mundo da leitura por meio
dos gibis, incluindo os seus?
Mauricio nasceu em Santa Isabel/SP, em 1935. Seu pai, Antônio
Mauricio de Sousa dividia o tempo entre a profissão (de
barbeiro) e a poesia, assim como sua mãe, Petronilha Araújo
de Sousa, também poetisa. Mauricio de Sousa cresceu, entre
os livros. Primeiro em Mogi da Cruzes e depois em São Paulo,
onde o pai trabalhou em rádio, atividade que Mauricio também
desempenhou. Ainda garoto, contribuía com as despesas da
casa desenhando cartazes e pôsteres. Foi ilustrador de um
jornal em Mogi, mas sabia que precisaria ir para grandes centros,
onde se concentravam as grandes editoras. Foi para São Paulo
atrás do seu sonho. Tentou emprego nos jornais como desenhista,
sem sucesso. Mas não saiu de mãos vazias, tornou-se
repórter policial na Folha da Manhã. Lá pelas
tantas criou seus primeiros personagems, em tiras, sobre um cãozinho
e seu dono, Bidu e Franjinha. Ofereceu as tiras à Folha
as quais foram aceitas. Imediatamente Mauricio deixou a reportagem
de lado e dedicou-se ao desenho. Mais tarde viriam outros personagens
e, é claro, Mônica. de 1970 para cá, são
mais de um bilhão de revistas vendidas em, pelo menos, 20
países. Hoje, num momento em que as revistas em quadrinhos
enfrentam uma crise mundial de mercado, a Turma da Mônica
permanece firme nas bancas. Os personagens lhe renderam muitos
contratos de licenciamento e versões de animação,
além da exposição História em Quadrões,
que desde o ano passado percorre o país. Mauricio também
escreve crônicas, que podem ser lidas no portal da Turma
da Mônica: www.monica.com.br
Valéria Ochoa, Paulo César Teixeira e César
Fraga
Extra Classe – Como a arte das Histórias
em Quadrinhos pode ajudar o mundo a ficar melhor?
Mauricio de Sousa – A arte em geral é uma fábrica
de sonhos e esperanças. É a comunicação
via sensibilidade, interação, participação.
Como tal, a história em quadrinhos – manifestação
artístico-cultural – pode e deve estar presente no
processo da informação e disseminação
de valores e idéias. Num momento gostoso de lazer, podemos
levar aos nossos leitores o humor e o amor, sem dúvida.
Com sugestões e modelos que podem até mesmo apontar
caminhos aos leitores atentos.
EC – O senhor é filho de poetas. Vem de uma família
apegada à leitura. Como se deu a sua trajetória até chegar
aos quadrinhos? O gosto pela leitura influenciou na sua escolha?
Mauricio – O gosto pela leitura, a verdadeira compulsão
que tive, durante os anos de estudante nos velhos tempos do ginásio,
que me fazia devorar um livro por dia sem dúvida influenciou
tudo o que fiz dali para diante.
Vivi, senti, convivi com personagens fascinantes, varei mares e
céus com os maiores aventureiros, cruzei com personalidades
fascinantes contando suas vidas e amores, sonhei junto com os maiores
sonhadores, explorei mundos e galáxias distantes, conheci
idéias e filosofias estranhas, exóticas, instigantes,
adormeci muitas vezes, muitas noites, enlevado por momentos de
devaneio que brotavam dos livros... – livros, livros... legado
de mil amigos, um milhão de palavras, um bilhão de
idéias.
EC – É verdade que, no início da carreira,
o senhor passou dificuldades, criando as histórias da Turma
da Mônica num estúdio improvisado no quarto de empregada
do apartamento?
Mauricio – Eu e praticamente todos os desenhistas que conheci.
Cada um com o quartinho que sobrasse no início difícil
de qualquer carreira.
EC – No Brasil, o sucesso é muitas vezes visto com
algum preconceito. No seu caso, o carinho que as pessoas em geral
(e as crianças, em particular) dedicam aos personagens acaba
sendo repassado ao Maurício de Sousa criador. Como é manter
a criatividade em dia e, ao mesmo tempo, administrar uma carreira
de êxitos?
Mauricio – Não é fácil mas não é desagradável. Às
vezes o empresário se choca com o artista. Mas em geral,
temos convivido harmoniosamente.
EC – Em quantos países suas HQs são veiculadas?
Em quais eles têm maior empatia com o público?
Mauricio – Já estivemos em mais de 20 países
com revistas. Depois, por falta de desenhos animados, andamos perdendo
terreno. Agora, com o reinício de nossas produções
de animação, devemos retomar mercados perdidos. Na
atualidade, o país que tem melhor respondido às nossas
personagens (com três revistas periódicas), é a
Indonésia. Quem diria? A turma falando javanês.
EC – A Mônica está se globalizando (no bom sentido).
Essa internacionalização do personagem afeta, de
alguma forma, a concepção original, sua brasilidade,
ou a Mônica e sua turma já nasceram universais?
Mauricio – A Turma da Mônica, justamente por sua brasilidade,
nasceu universal.
EC – Existe alguma adaptação dos personagens
para que sejam melhor assimilados em outros países?
Mauricio – Não. São publicados da forma como
são concebidos no Brasil.
EC – Qual é o faturamento da Maurício de Sousa
Produções? Quantos produtos a marca Maurício
de Sousa envolve?
Mauricio – Os números de nossa empresa não
são divulgados. Quanto a produtos, devemos ter mais de 3.000
itens nascidos de nossos contratos com licenciados.
EC – O senhor tem trabalhado com textos em prosa. Como surgiu
essa modalidade de expressão em sua trajetória e
que futuro ela terá?
Mauricio – Comecei meio que brincando a escrever crônicas
para alguns jornais e para nosso site e me peguei gostando muito
da experiência. No futuro gostaria de administrar melhor
meu tempo para escrever, em prosa, mais do que tenho feito até agora.
EC – Quantas pessoas visitaram a exposição
História em Quadrões até agora? Qual a agenda
da mostra para os próximos meses? O público gaúcho
terá chance de conhecer estas obras?
Mauricio – Até chegarmos à atual exposição
em Brasília, já tínhamos percorrido 4 capitais – São
Paulo, Rio, Curitiba e Salvador. Estamos planejando Recife, Belo
Horizonte e Porto Alegre. Depois devemos ir para o exterior com
nossa exposição. Nas primeiras capitais, tivemos
recordes de público, com mais de 500 mil pessoas visitando
os Quadrões.
EC – Os quadros são pintados de próprio punho
ou é um trabalho de equipe, como no caso das revistas?
Mauricio – O trabalho com os Quadrões sai fora do
esquema do grande estúdio. É um trabalho quase que
individual em que conto com uma auxiliar direta e mais um ou dois
artistas na preparação do material. Por isso a demora
para a coleção ficar pronta. Comecei a pintar no
fim da década de 80.
EC – Há vários professores que defendem a utilização
de HQs em sala de aula. O senhor pensa que os quadrinhos podem
aproximar as crianças do hábito da leitura?
Mauricio – Os quadrinhos são, em geral, responsáveis
pelo primeiro contato das crianças com a palavra escrita
e com as imagens.
EC – Os personagens de Maurício de Sousa são
usados em campanhas institucionais (contra o fumo, educação
no trânsito, etc.). Recentemente, a Magali passou a fazer
parte do Programa Fome Zero. Qual é o principal retorno
para o senhor dessa inserção em campanhas educativas
tão sérias?
Mauricio – Colaboramos com diversas campanhas utilizando
nosso Instituto Cultural, sem fins lucrativos e com propostas ligadas à defesa
do meio ambiente, cuidados com a saúde e com a educação.
Qualquer esforço nosso nessas áreas nos gratifica
e nos envaidece.
EC – O senhor cria personagens bacanas de que todo o mundo
gosta. Quantos inventou até agora? E qual foi o primeiro?
Mauricio – O primeiro foi o Bidu, com seu dono Franjinha.
Depois deles, vieram dezenas e dezenas. Talvez mais de duzentos.
EC – É verdade que a Mônica foi inspirada
em sua filha?
Mauricio – Mônica é minha filha. Ou melhor,
as duas: a inspiradora e a personagem.
EC – Dizem que o Horácio é parecido com o senhor. É mesmo?
Caso não seja, há algum com o qual se identifica
mais?
Mauricio – Horácio, nosso dinossaurinho, ainda hoje
somente escrito e desenhado por mim, talvez reflita, realmente,
mais do Mauricio de Sousa do que outros personagens. Talvez pelo
formato de fábulas que utilizo para contar suas aventuras.
EC – O Astronauta e o Chico Bento ensinam os leitores a não
ter preconceitos. Essa é uma preocupação sua?
Mauricio – É uma coisa natural nos nossos textos,
pois eu vim a saber ou conhecer preconceitos bem depois de passada
minha infância. Conseqüentemente vivi a gostosa fase
de menino sem ter consciência dessa bobagem inventada pelos
adultos.
Mas, agora, consciente dessa falha de comportamento, tento, realmente,
nas histórias, demostrar a possibilidade de vida inteligente,
saudável, feliz, longe dos preconceitos.
EC – Quando esteve na Jornadinha de Literatura de Passo Fundo,
o senhor conversou com estudantes de 6 a 11 anos de idade. Qual
foi o teor dessa conversa? Que livros o senhor indicaria para crianças
nessa faixa etária e quais recomendaria para os professores?
Mauricio – Livro? Talvez o último livro do Ziraldo,
seu A,B,Z. Está lindo. E uma palavra especial, principalmente
no contexto deste evento (ou sempre)? Leiam. Leiam tudo. Leiam
sempre. Leiam demais. Faz bem para o corpo e para a alma.