Ano 8 - nº 75
Setembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
Ironia do destino. Os americanos apoiaram o Saddam Hussein durante anos porque o governo secular do Iraque era uma alternativa à teocracia antiamericana no poder no Irã. Saddam já era um tirano, mas...



Nei Lisboa:
Ninguém perguntou mas vou dizer, meu Scliar favorito é o cronista da Folha de S. Paulo, onde se dedica a converter para a ficção matérias publicadas no próprio jornal. Na última que li, só pra dar um exemplo, constrói uma divertida...



Elisa Lucinda:

Não conheço o amor abstrato. Conheço o amor pelo outro, pela pátria e pelo futuro, pela vida, pela obra. Defender a dignidade do homem é, no mínimo, uma conexão ideológica, uma composição ecológica, uma convicção. Não entendo a...





Foi da professora Nelly Novaes Coelho uma das mais contundentes frases da 10ª Jornada Nacional de Literatura, realizada de 26 a 29 de agosto em Passo Fundo: “As coisas são de acordo como dizemos que elas são. Se algo está errado, precisamos nomeá-lo de novo”. Um público atento às palavras da octogenária educadora ouviu deliciado os ensinamentos de uma das principais referências no ensino de literatura no Brasil. E por que nomear de novo? Nelly explicou: “É que a palavra cria o real, afinal, como disse Lacan, o que não é nomeado não existe”. Assim, ensinar, para Nelly, tem um sentido muito profundo e uma tarefa abrangente de espalhar as sementes para uma nova ordem. É assim que ela se relaciona com seus livros, que considera como sementes. “De uma ordem que virá, eu sei, embora não esteja aqui para vê-la”.

Jéferson Assumção

Reescrevendo a realidade

om esta certeza, ela trabalha até 16 horas por dia, produzindo conceitos e ajudando a reorganizar parte do real.É nesta mesma direção que ela faz uma sólida defesa da literatura ao afirmar que o tema geral da ficção é “Quem sou eu nesta vida agora?” É por isso que este tipo de arte trata dos problemas existenciais e éticos mais exigentes. Deixar os estudantes alheios a este universo seria deixá-los longe de si próprios, já que o que está escrito nunca é só a história de alguém distante, mas do que existe de mais íntimo nos seres humanos.

Foi com este sentimento que o poeta irlandês John Lyons encheu o palco da Jornada com poesia de alta qualidade, instrumento com o qual fez pequenos cortes cirúrgicos na prosaica realidade. Dia 28, a poesia de Emilly Dickinson reverberou com gravidade no Circo da Cultura: “Who are you? Quem é você? Who are you? Quem é você? Esta pergunta contém uma imensa dignidade”, insistia o poeta, para um público entre a maravilha e o desconcerto. Lyons enfatizou que esta se trata da mais importante pergunta da literatura e da educação e, socraticamente, definiu: “A educação está fundada no questionamento, não na resposta, pois esta gera sempre mais perguntas. Precisamos não de respostas, mas de perguntas: todos temos que questionar o tempo todo. Isso faz parte da saúde de uma sociedade”.
É uma sociedade fragmentada, como observou no mesmo dia o filósofo Renato Janine Ribeiro. Um demos, “povo” em grego, que já não mais corresponde ao conceito original. “Hoje existem povos, com diversas demandas diferentes e está cada vez mais difícil conectar todas elas”, falou, referindo-se à exclusão de uma boa parte dos seres humanos, não dos processos produtivos, mas dos bens produzidos. Esse foi o núcleo de uma jornada que conseguiu dar conta de seu tema Vozes do Terceiro Milênio: A Arte da Inclusão, de maneira exemplar.

Morin e sua experiência de leitor
Foto: René Cabrales
Para discutir o tema literatura e inclusão, a Jornada de Passo Fundo trouxe ao Brasil um dos mais festejados intelectuais da atualidade. O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin foi a grande presença do evento e recebeu dia 28 o título de professor honoris causa da Universidade de Passo Fundo (UPF). Morin ficou vários dias na cidade, passeou pelo centro, circulou pelas bancas da jornada e atendeu fãs dos mais diferentes lugares do País. Ele trouxe à discussão sua enorme experiência de leitor, iniciada ainda na adolescência com a morte da mãe. Morin diz que, a partir de então, se refugiou nos livros, numa espécie de intoxicação contra o sofrimento. Veio daí uma forte relação com as letras e uma duradoura amizade com Leon Tolstói, Fiodor Dostoievski, Blaise Pascal, Joseph Conrad, enfim, a nata da literatura universal, nomes que, apesar de famosos, causaram, como em jornadas anteriores, estranhamento nos debates. O público, formado, em grande maioria por professores de literatura e estudantes, é acostumado a ler quase que exclusivamente literatura brasileira. Mesmo com pouco eco entre os ouvintes, diversas vezes reviveram, no palco da Jornada, os nomes de Homero, Hesíodo, Dante, Cervantes, Flaubert, Borges, Lautreamont, Balzac etc, num constrangedor desfilar de nomes tão comuns na estante de qualquer leitor e freqüentemente tão distante das estantes dos brasileiros.

E por que esses nomes não entram na escola? Porque o tipo de leitura dos próprios professores é freqüentemente pragmática. Morin confessou em uma entrevista: “Eu lia novelas escondido nas disciplinas que não me interessavam muito”. E como mudar isso? “Penso que a missão dos professores é convidar e mostrar aos alunos que as novelas são coisas importantes, não um luxo, mas não há muitos professores de literatura que façam isso. Fazem uma mistura com a semiótica, que é cortar os textos em pedacinhos e fazer considerações lingüísticas”. Mas por que os professores e os estudantes deveriam ler esses textos? “Porque a leitura de novelas não é unicamente sobre coisas do imaginário. Ali estão os problemas mais fundos, os mais importantes da vida”, acredita Morin.

E é toda essa importância do livro e da leitura que justifica o trabalho da Jornada de Literatura. Um trabalho reconhecido pelo ministro da Educação, Cristovam Buarque, que disse, dia 26, querer fazer do Brasil “uma imensa Passo Fundo”. O mesmo falou o governador do Estado, Germano Rigotto, que anunciou o apoio ao projeto Portal das Linguagens, um complexo arquitetônico educacional, científico, artístico-cultural e tecnológico, que tem como objetivo democratizar os processos de alfabetização e letramento para crianças, jovens e adultos. “Temos um compromisso de concretizar este grande projeto, o que deverá inaugurar uma nova etapa para a Jornada”, disse o governador.

A atual etapa está para lá de satisfatória, de acordo com a coordenadora do evento, Tânia Rösing. Para ela, a Jornada, em seus 22 anos de existência, cumpre exemplarmente seu papel de formar leitores. E isso ocorre a tal ponto que várias feiras têm se inspirado no formato do evento. É o caso da recente Feira de Parati (RJ) e das transformações na Feira do Livro de Porto Alegre. “Tudo isso faz parte de um amplo trabalho de inclusão cultural, tão importante quanto o de inclusão social”, analisa Tânia.

A palavra é...inclusão

A inclusão dominou os debates do segundo dia de Jornada, com a participação de Frei Betto, Luis Antonio de Assis Brasil, Marcus Accioly e Marcelino Freire, entre outros. Assis Brasil mostrou uma imagem forte, a de tapetes afegãos que outrora traziam motivos campestres e da vida aldeã e que hoje estampam carros de combate e granadas. Frei Betto abordou os mecanismos que legitimam a violência no Brasil: a predominância do entretenimento sobre a cultura, a educação usada para formar profissionais ao invés de pessoas e a reversão platônica, ou seja, o exagerado culto ao corpo na sociedade contemporânea. Ele explicou como esses três fatores são extremamente violentos para a sociedade. “A educação tem que dar conta disso, mas ela está hoje muito despolitizada”, falou.

Violenta foi a intervenção de Marcelino Freire, autor de Angu de Sangue (Atelier Editorial) ao ler um conto em que uma mãe dá e vende os filhos para que outros criem. A crua realidade mostrada por Marcelino, com certa dose de humor, encantou o público, tanto quanto seu conterrâneo, o pernambucano Marcus Accioly. Num verdadeiro show, ele demonstrou todo seu talento de ator ao declamar diversos poemas contundentes que giraram em torno do tema violência. Accioly foi um dos escritores mais aplaudidos em toda a Jornada e surpreendeu pela simplicidade com que sua fala moveu-se por toda a história da literatura. Interpretou e comentou uma infinidade de passagens e frases lapidares de Lautreamont, Albert Camus, Dante, Breton...

No dia seguinte, a grande presença era da escritora portuguesa Inês Pedrosa, autora de, entre outros, Fazes-me Falta (Planeta). Com muito bom-humor Inês arrancou gargalhadas da platéia ao comentar ironicamente as semelhanças e não as diferenças entre homens e mulheres. Disse não entender como um homem com doutorado não consegue colocar a louça em uma máquina de lavar. “O meu marido está ganhando um segundo doutoramento, doméstico, agora”, anunciou. O último dia da Jornada foi dedicado a tratar das adaptações da literatura para o cinema. Jorge Furtado e Drauzio Varela foram os dois nomes de destaque, junto com o autor-surpresa, o senador Eduardo Suplicy. Eles comentaram a qualidade do cinema brasileiro atual e a maneira como ele tem retratado a realidade social do País. Suplicy fez uma análise política do Brasil de hoje.


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José Luis Fiori

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