Foi da professora Nelly Novaes Coelho uma das mais contundentes
frases da 10ª Jornada Nacional de Literatura, realizada de
26 a 29 de agosto em Passo Fundo: “As coisas são de
acordo como dizemos que elas são. Se algo está errado,
precisamos nomeá-lo de novo”. Um público atento às
palavras da octogenária educadora ouviu deliciado os ensinamentos
de uma das principais referências no ensino de literatura
no Brasil. E por que nomear de novo? Nelly explicou: “É que
a palavra cria o real, afinal, como disse Lacan, o que não é nomeado
não existe”. Assim, ensinar, para Nelly, tem um sentido
muito profundo e uma tarefa abrangente de espalhar as sementes
para uma nova ordem. É assim que ela se relaciona com seus
livros, que considera como sementes. “De uma ordem que virá,
eu sei, embora não esteja aqui para vê-la”.
Jéferson Assumção
Reescrevendo
a realidade

om esta certeza, ela trabalha até 16 horas por dia, produzindo
conceitos e ajudando a reorganizar parte do real.É nesta
mesma direção que ela faz uma sólida defesa
da literatura
ao afirmar que o tema geral da ficção é “Quem sou
eu nesta vida agora?” É por isso que este tipo de arte trata dos
problemas existenciais e éticos mais exigentes. Deixar os estudantes alheios
a este universo seria deixá-los longe de si próprios, já que
o que está escrito nunca é só a história de alguém
distante, mas do que existe de mais íntimo nos seres humanos.
Foi com este sentimento que o poeta irlandês John Lyons encheu o palco
da Jornada com poesia de alta qualidade, instrumento com o qual fez pequenos
cortes cirúrgicos na prosaica realidade. Dia 28, a poesia de Emilly Dickinson
reverberou com gravidade no Circo da Cultura: “Who are you? Quem é você?
Who are you? Quem é você? Esta pergunta contém uma imensa
dignidade”, insistia o poeta, para um público entre a maravilha
e o desconcerto. Lyons enfatizou que esta se trata da mais importante pergunta
da literatura e da educação e, socraticamente, definiu: “A
educação está fundada no questionamento, não na resposta,
pois esta gera sempre mais perguntas. Precisamos não de respostas, mas
de perguntas: todos temos que questionar o tempo todo. Isso faz parte da saúde
de uma sociedade”.
É
uma sociedade fragmentada, como observou no mesmo dia o filósofo Renato
Janine Ribeiro. Um demos, “povo” em grego, que já não
mais corresponde ao conceito original. “Hoje existem povos, com diversas
demandas diferentes e está cada vez mais difícil conectar todas
elas”, falou, referindo-se à exclusão de uma boa parte dos
seres humanos, não dos processos produtivos, mas dos bens produzidos.
Esse foi o núcleo de uma jornada que conseguiu dar conta de seu tema Vozes
do Terceiro Milênio: A Arte da Inclusão, de maneira exemplar.
Morin e sua experiência de leitor

Para discutir o tema literatura e inclusão, a Jornada de Passo Fundo trouxe
ao Brasil um dos mais festejados intelectuais da atualidade. O sociólogo
e filósofo francês Edgar Morin foi a grande presença do evento
e recebeu dia 28 o título de professor honoris causa da Universidade de
Passo Fundo (UPF). Morin ficou vários dias na cidade, passeou pelo centro,
circulou pelas bancas da jornada e atendeu fãs dos mais diferentes lugares
do País. Ele trouxe à discussão sua enorme experiência
de leitor, iniciada ainda na adolescência com a morte da mãe. Morin
diz que, a partir de então, se refugiou nos livros, numa espécie
de intoxicação contra o sofrimento. Veio daí uma forte relação
com as letras e uma duradoura amizade com Leon Tolstói, Fiodor Dostoievski,
Blaise Pascal, Joseph Conrad, enfim, a nata da literatura universal, nomes que,
apesar de famosos, causaram, como em jornadas anteriores, estranhamento nos debates.
O público, formado, em grande maioria por professores de literatura e
estudantes, é acostumado a ler quase que exclusivamente literatura brasileira.
Mesmo com pouco eco entre os ouvintes, diversas vezes reviveram, no palco da
Jornada, os nomes de Homero, Hesíodo, Dante, Cervantes, Flaubert, Borges,
Lautreamont, Balzac etc, num constrangedor desfilar de nomes tão comuns
na estante de qualquer leitor e freqüentemente tão distante das estantes
dos brasileiros.
E por que esses nomes não entram na escola? Porque o tipo de leitura dos
próprios professores é freqüentemente pragmática. Morin
confessou em uma entrevista: “Eu lia novelas escondido nas disciplinas
que não me interessavam muito”. E como mudar isso? “Penso
que a missão dos professores é convidar e mostrar aos alunos que
as novelas são coisas importantes, não um luxo, mas não
há muitos professores de literatura que façam isso. Fazem uma mistura
com a semiótica, que é cortar os textos em pedacinhos e fazer considerações
lingüísticas”. Mas por que os professores e os estudantes deveriam
ler esses textos? “Porque a leitura de novelas não é unicamente
sobre coisas do imaginário. Ali estão os problemas mais fundos,
os mais importantes da vida”, acredita Morin.
E é toda essa importância do livro e da leitura que justifica o
trabalho da Jornada de Literatura. Um trabalho reconhecido pelo ministro da Educação,
Cristovam Buarque, que disse, dia 26, querer fazer do Brasil “uma imensa
Passo Fundo”. O mesmo falou o governador do Estado, Germano Rigotto, que
anunciou o apoio ao projeto Portal das Linguagens, um complexo arquitetônico
educacional, científico, artístico-cultural e tecnológico,
que tem como objetivo democratizar os processos de alfabetização
e letramento para crianças, jovens e adultos. “Temos um compromisso
de concretizar este grande projeto, o que deverá inaugurar uma nova etapa
para a Jornada”, disse o governador.
A atual etapa está para lá de satisfatória, de acordo com
a coordenadora do evento, Tânia Rösing. Para ela, a Jornada, em seus
22 anos de existência, cumpre exemplarmente seu papel de formar leitores.
E isso ocorre a tal ponto que várias feiras têm se inspirado no
formato do evento. É o caso da recente Feira de Parati (RJ) e das transformações
na Feira do Livro de Porto Alegre. “Tudo isso faz parte de um amplo trabalho
de inclusão cultural, tão importante quanto o de inclusão
social”, analisa Tânia.
A palavra é...inclusão
A inclusão dominou os debates do segundo dia de Jornada, com a participação
de Frei Betto, Luis Antonio de Assis Brasil, Marcus Accioly e Marcelino Freire,
entre outros. Assis Brasil mostrou uma imagem forte, a de tapetes afegãos
que outrora traziam motivos campestres e da vida aldeã e que hoje estampam
carros de combate e granadas. Frei Betto abordou os mecanismos que legitimam
a violência no Brasil: a predominância do entretenimento sobre a
cultura, a educação usada para formar profissionais ao invés
de pessoas e a reversão platônica, ou seja, o exagerado culto ao
corpo na sociedade contemporânea. Ele explicou como esses três fatores
são extremamente violentos para a sociedade. “A educação
tem que dar conta disso, mas ela está hoje muito despolitizada”,
falou.
Violenta foi a intervenção de Marcelino Freire, autor de Angu de
Sangue (Atelier Editorial) ao ler um conto em que uma mãe dá e
vende os filhos para que outros criem. A crua realidade mostrada por Marcelino,
com certa dose de humor, encantou o público, tanto quanto seu conterrâneo,
o pernambucano Marcus Accioly. Num verdadeiro show, ele demonstrou todo seu talento
de ator ao declamar diversos poemas contundentes que giraram em torno do tema
violência. Accioly foi um dos escritores mais aplaudidos em toda a Jornada
e surpreendeu pela simplicidade com que sua fala moveu-se por toda a história
da literatura. Interpretou e comentou uma infinidade de passagens e frases lapidares
de Lautreamont, Albert Camus, Dante, Breton...
No dia seguinte, a grande presença era da escritora portuguesa Inês
Pedrosa, autora de, entre outros, Fazes-me Falta (Planeta). Com muito bom-humor
Inês arrancou gargalhadas da platéia ao comentar ironicamente as
semelhanças e não as diferenças entre homens e mulheres.
Disse não entender como um homem com doutorado não consegue colocar
a louça em uma máquina de lavar. “O meu marido está ganhando
um segundo doutoramento, doméstico, agora”, anunciou. O último
dia da Jornada foi dedicado a tratar das adaptações da literatura
para o cinema. Jorge Furtado e Drauzio Varela foram os dois nomes de destaque,
junto com o autor-surpresa, o senador Eduardo Suplicy. Eles comentaram a qualidade
do cinema brasileiro atual e a maneira como ele tem retratado a realidade social
do País. Suplicy fez uma análise política do Brasil de hoje.
Mais Especial:
Crianças
que fazem parte
O
leitor, o escritor e o espetáculo
O
Sinpro/RS na Jornada