Recentemente,
ao ser indagada por um repórter da Folha de São
Paulo sobre a atual crise social que o Brasil estaria vivendo,
Marilena
Chaui disse que, “em vez de falar em crise e em desordem,
que são os temas preferidos da classe dominante
brasileira na sua tradição autoritária, é hora
de comemorarmos o fato de que finalmente este país
está conhecendo uma experiência democrática.
Democracia não é, como querem os liberais,
o regime da lei e da ordem. Democracia é o único
regime político no qual os conflitos são
considerados o princípio mesmo do seu funcionamento.” A
partir da afirmação da renomada professora
de História
e Filosofia da USP, entendemos sua motivação
crescente pelo legado de Espinosa, filósofo judeu
holandês, cuja obra foi elaborada entre 1979 a 1995.
Divulgação
Chaui
busca em Espinosa
os paralelos ao
entendimento
da
política
contemporânea
Vale lembrar que Espinosa,
em seu tempo, foi perseguido pela inquisição e execrado
pelos seus patrícios como uma ameaça. Para ele, o
mais natural dos regimes já era a democracia em tempos de
absolutismo monárquico e da mão pesada da Igreja.
Quatro anos depois de publicar A nervura do real: imanência
e liberdade em Espinosa em que analisava Ética a partir
de Espinosa, Chaui traz à luz Política em Espinosa
(Companhia das Letras, 338 páginas, 39 reais). Para Chaui,
poucos filósofos deram à questão da liberdade
política um papel tão central quanto ele. Para Espinosa,
a política nasceria do desejo humano de libertar-se do medo,
da solidão e da barbárie. Antes de mais nada, o pensamento
espinosano determina a democracia como o regime político
mais favorável à paz, à segurança e à liberdade
dos cidadãos, pois nele se realizaria o desejo de governar
e não ser governado. Mas não fica aí. Marilena
Chaui destaca também o que o Filósofo sublinhou como
os principais obstáculos à vida democrático-republicana:
de um lado, a superstição, que serve de álibi
para regimes que buscam seu fundamento nas religiões; e
de outro, a divisão social que leva a excluir das decisões
políticas uma parte da sociedade sob a alegação
de que a massa é ignorante e “temível quando
não teme”.
Soma-se à erudição e ao rigor do material
apresentado pela estudiosa, sua enorme capacidade analítica.
Além disso tudo, faz mais sentido pelo fato de se discutir
Espinosa a partir de problemáticas atuais.
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