Ninguém perguntou mas vou dizer, meu Scliar favorito é o
cronista da Folha de S. Paulo, onde se dedica a converter para
a ficção matérias publicadas no próprio
jornal. Na última que li, só pra dar um exemplo,
constrói uma divertida biografia não-autorizada da
galinha preta que a Marta Suplicy quase tomou na cabeça.
Atentado de muito mau gosto, por sinal, perpetrado por uma facção
pouco respeitável do movimento estudantil paulista. Mas
essa predileção pelas pequenas invenções
do Scliar me vem à cabeça por conta de uma matéria
da Zero Hora, que certamente lhe inspiraria uma crônica das
boas. O protagonista do feito a ser narrado teve seu nome e iniciais
preservados pelo repórter, nem sei bem por que motivo, mas
isso já trataremos de corrigir aqui convencionando chamá-lo
de Mateus da Silva Tortoniello, ou simplesmente M.S.T. Pois bem.
Na madrugada de terça-feira, 19 de agosto, M.S.T., morador
da zona rural de Flores da Cunha, deixa sua residência e
dirige-se ao centro da cidade portando um machado – e um
machado de bom tamanho, certamente, sendo o cidadão agricultor
e considerando-se os estragos que com ele viria a produzir. Por
volta de 4h50min, segundo relato da Brigada Militar, soa o alarme
da agência central do Banco do Brasil. Os policias acorrem
ao local, onde encontram destruídas a porta principal da
agência e um terminal de caixa eletrônico. Passados
vinte minutos, ainda atônitos com o motivo e a autoria de
tal vandalismo, dirigem-se à sede da Prefeitura Municipal,
movidos por denúncia de que alguém despedaçara
as vidraças do prédio, o que de fato se confirma.
Nenhum sinal do criminoso nos arredores.Os PMs dão seqüencia
a sua busca e no trajeto se deparam com as grades de ferro do Fórum
local – ainda por ser inaugurado – arrebentadas; os
vidros da porta principal da delegacia de polícia civil
estilhaçados; e idem para os pára-brisas de duas
viaturas estacionadas no pátio. Só então,
depois de fechar o cerco nas imediações, avistam
o agricultor a caminhar pela cidade com o seu machado, o qual resiste à prisão
e tem de ser baleado no joelho para que possa ser dominado. Com
a identificação da autoria e o inquérito,
descobre-se que M.S.T. andava inconformado com acontecimentos recentes
de sua vida. A morte dos pais, aliada a problemas psíquicos
no passado, tornou-o herdeiro de propriedade rural vitivinícola,
mas sob a tutela do Ministério Público, para o qual
deve requerer autorização a cada vez que precisa
sacar dinheiro de sua conta bancária. Maluco beleza ou não,
na sua sanha vingativa M.S.T. produziu estrago mais completo no
plano simbólico do que na construção civil:
numa só tacada investiu contra o sistema financeiro, o poder
executivo, o judiciário, a estrutura e a política
de segurança.Primeira moral da história: fosse eu,
que já me irrito quando o terminal refuga meu cartão,
talvez não fizesse outra coisa. Segunda moral: ressalvando
alguns pontinhos específicos desse caso (era só um
loucão com seu machado, mas com terra e conta bancária),
talvez conviesse à Farsul reclassificar o MST como um movimento
pacifista.
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