Entre o real e o ideal há caminhos a percorrer
Soraya Franke*
Nos dias 22, 23 e 24 de julho, no Centro de Eventos da PUC/RS,
aconteceu o VII Congresso da Escola Particular Gaúcha, evento
organizado pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular
do Estado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS).
O congresso foi de uma qualidade irreparável, tanto do ponto
de vista da infra-estrutura, quanto da performance dos palestrantes.
A abertura com o professor Rui Canário, de Portugal e o
encerramento com a Psicopedagoga Alicia Fernándéz,
da Argentina, foram os pontos altos, marcados por uma profunda
reflexão político-pedagógica. O congresso
teve conteúdo, fio condutor, consistência teórica
e, o que chamou a atenção, não teve retórica
empresarial. Ao contrário, o temário foi explicitamente
pedagógico e psicopedagógico, refletindo uma necessidade
cada vez maior nas escolas privadas: reconhecer que está nos
professores a principal força transformadora da educação
contemporânea. Cabe aqui reproduzir literalmente o que lembrou
o ilustre educador português: “Nos últimos quarenta
anos, a escola é o lugar onde se produziu mais reformas
e decretos. A maioria não passa de conversa fiada. O frenesi
com que tentamos mudar a escola não muda nada. A principal
força transformadora são os educadores.”
Em que pese o Congresso ter ocorrido durante o recesso escolar,
período reservado ao merecido descanso, a receptividade
ao conteúdo do evento pode ser conferido nos comentários
tecidos nos intervalos. Era como se os palestrantes tivessem emprestado
suas formulações às aflições
e aos questionamentos dos professores. Não à toa,
algumas provocações soaram como bálsamo aos
cada vez mais exigidos ouvidos docentes: “Os caminhos da
escola são diversos. Cada sala de aula tem seu caminho.
Talvez a grande questão seja criar espaços de reflexão
na escola para que os professores digam coisas sobre o que fazem
e não sobre o que os outros fazem”, destacou o professor
da Ufrgs, Fernando Becker.
Como bem afirmaram os palestrantes, a aprendizagem significativa
não é aquela que dá respostas para os problemas,
mas a que produz novos e profundos questionamentos sobre a realidade
que nos cerca. Por isso, talvez, a grande pergunta que fica é sobre
as condições objetivas que se tem na escola de fazer
acontecer boa parte das necessidades apontadas no Congresso, na
perspectiva de uma educação de qualidade e humanizadora.
Há alguns anos, o Sinpro/RS vem apontando, discutindo e
problematizando, em suas diferente instâncias de participação
o que chamamos de o sufoco na escola. Os professores, com as mudanças
de legislação educacional e de gestão empresarial
das instituições, vem acumulando, ano a ano, novas
e exigentes tarefas, uma carga de trabalho que só vê fim
após noites de sono perdidas ou nos finais de semana sobre
livros, cadernos, relatórios, dossiês, projetos, enfim,
uma infinidade de registros fora do espaço de trabalho e
sob a sempre presente dúvida de que seu emprego lhe aguardará no
dia seguinte.
“A escola é lugar de trabalho, nem sempre fonte de satisfação. É preciso
questionar a natureza desse trabalho”, alertou o professor
Rui Canário. Cabe a cada educador presente ao Congresso,
professor, especialista, diretor ou dirigente, reconhecer que,
no caso da educação privada, há muitos anos,
o trabalho como sendo penoso se deslocou do aluno para o professor
e que urge reconhecer, de fato, o que a realidade já constatou.
* diretora do Sinpro/RS – coordenadora da Secretaria
de Cultura, Esporte e Lazer do sindicato
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