Ano 8 - nº 75
Setembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
Ironia do destino. Os americanos apoiaram o Saddam Hussein durante anos porque o governo secular do Iraque era uma alternativa à teocracia antiamericana no poder no Irã. Saddam já era um tirano, mas...



Nei Lisboa:
Ninguém perguntou mas vou dizer, meu Scliar favorito é o cronista da Folha de S. Paulo, onde se dedica a converter para a ficção matérias publicadas no próprio jornal. Na última que li, só pra dar um exemplo, constrói uma divertida...



Elisa Lucinda:

Não conheço o amor abstrato. Conheço o amor pelo outro, pela pátria e pelo futuro, pela vida, pela obra. Defender a dignidade do homem é, no mínimo, uma conexão ideológica, uma composição ecológica, uma convicção. Não entendo a...





Ironias do destino

Ironia do destino. Os americanos apoiaram o Saddam Hussein durante anos porque o governo secular do Iraque era uma alternativa à teocracia antiamericana no poder no Irã. Saddam já era um tirano, mas um tirano “do nosso lado”. Não é delírio imaginar que uma das conseqüências finais da invasão e ocupação americana do Iraque e da liquidação do partido Ba’ath seja uma teocracia xiita, como a iraniana, no poder em Bagdá.

Dupla ironia do destino. Muitos dos responsáveis pela atual política externa dos Estados Unidos fazem parte da estranha aliança de fundamentalistas cristãos e apoiadores da extrema direita israelense que pregavam a guerra ao Iraque com mais fervor. Um dos resultados da guerra foi que os americanos ficaram moralmente obrigados a serem, ou pelo menos parecerem, mais imparciais na questão Israel/Palestina, para tentar diminuir a ira dos fundamentalistas islâmicos, e cobrarem concessões do Sharon em troca do favor de terem liquidado o Saddam.

Ironia de pai para filho do destino. Dizem que as partes ainda não publicadas do relatório sobre as falhas no sistema de segurança americano que permitiram a tragédia de 11/9 foram censuradas porque tratam das relações da família Bin Laden, da qual Osama é, digamos, o filho difícil, com o grupo “Carlyle”, no qual a família Bush tem, digamos, interesses. Tratam das repetidas vezes em que agentes do FBI foram aconselhados a não investigarem estas relações e as finanças dos Bin Laden e a não serem muito curiosos sobre as atividades de agentes da família real da Arábia Saudita, os atuais tiranos “do nosso lado”, nos Estados Unidos, antes e depois do atentado. As revelações que ainda podem surgir sobre esta meleca toda até Bush buscar a reeleição, mais a evidência de que o presidente mentiu para ir à guerra (bombardear civis estrangeiros ainda vá, mas mentir para o povo americano!), mais o atoladouro em que está se transformando o Iraque - e mais, claro, o mau estado da economia dos Estados Unidos –, podem fazer o Bush filho repetir o Bush pai, que passou de herói invencível a candidato perdedor em meses. Se houver algum outro Bush na fila pensando em ser presidente, que aprenda a lição e faça a sua guerra mais perto da data da eleição.

Suprema ironia do destino. A mais alta autoridade entre os envolvidos de um jeito ou de outro na guerra do Iraque a morrer até agora não foi, que se saiba, o Saddam Hussein, nem qualquer líder militar ou político americano ou inglês, mas um homem que estava lá para ajudar a organizar a paz. E do Brasil, que não teve nada a ver com a história.




José Luis Fiori

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