Tem bode na sala
“Colocaram o bode na sala”. Com essa metáfora
odorífera, o cineasta Alain Fresnot falou ao Extra Classe
sobre o projeto da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual,
que tem suscitado manifestações calorosas a favor
e contra. “Nem poderia ser diferente”, afirma o realizador
do filme Desmundo e presidente da Associação Paulista
de Cineastas, “afinal, o projeto toca em todas as áreas
de atividades-base de desenvolvimento do audiovisual brasileiro”.
Melhor dizendo, atinge interesses econômicos de grupos locais
e internacionais em um dos setores de maior crescimento da atual
economia capitalista.
Fatimarlei Lunardelli

xatamente por
isso, o setor é estratégico e o governo acolheu uma reivindicação
que vinha
desde os anos 70. Durante 14 meses, um grupo de trabalho do Ministério
da Cultura elaborou o anteprojeto que transforma a Ancine (Agência Nacional
do Cinema) em Ancinav, integrando todos os segmentos das telecomunicações
que operam com conteúdo audiovisual.
No início de agosto, a imensa minuta do projeto, contendo 141 artigos,
veio a público. Está disponível para consulta da população
e recebendo sugestões no endereço eletrônico do Minc (
www.cultura.gov.br/projetoancinav)
até o dia 12 de setembro. Daí será encaminhado
para o Conselho Superior de Cinema, que já está trabalhando com
o prazo de 60 dias para finalizar o exame e posterior encaminhamento à Presidência
da República e ao Congresso Nacional para votação. O caminho é tortuoso,
e as pressões contrárias são muitas.
Os realizadores consideram esta uma “oportunidade histórica” para
que se criem condições favoráveis ao desenvolvimento de
uma indústria audiovisual brasileira. Além de o cinema viver um
momento de prestígio junto ao público, com filmes de sucesso, o
Governo está preocupado com a questão. O projeto estabelece mecanismos
de regulação e fiscalização sobre itens tão
diversos, como a copiagem em laboratórios nacionais dos conteúdos
dos canais a cabo, passando pela taxação dos ingressos nas salas
de cinema, direitos autorais e outros onde caberá à Ancinav regular
e mediar a relação entre os agentes produtores e os agentes econômicos
da sociedade. Para o Governo, é uma questão estratégica
sobre uma atividade econômica de grande interesse nacional que, também,
possui conteúdo cultural com alto valor simbólico.
Uma das principais ousadias deste anteprojeto é exatamente sua abrangência.
Além de regular a atividade cinematográfica, inclui as telecomunicações
em todas as suas modalidades, desde a televisão de canal aberto até os
serviços de comunicação multimídia (SCM), um segmento
de guerras subterrâneas pelo controle de serviços muito rentáveis
em um futuro breve. Já não é ficção científica
a possibilidade de ver um filmezinho no celular, um serviço a mais para
o consumidor, pelo qual algum conglomerado das comunicações estará aumentando
seus rendimentos.
Na tentativa de proteger interesses econômicos é que as primeiras
manifestações contrárias desqualificaram o projeto, concentrando
a discussão no aspecto relativo à responsabilidade editorial disposta
no artigo 43. Alardeando tentativa de censura por parte do Governo, os detratores
acusaram o projeto de interferência na programação das emissoras.
Para eliminar qualquer suspeita de que haja intenção do MinC em
exercer controle sobre conteúdos, o artigo já foi modificado, pois “a
função da Ancinav é estabelecer normas econômicas
para a indústria do cinema e do audiovisual, e não normas culturais”,
tem afirmado o ministro Gilberto Gil em nome do seu ministério.
Liberalismo ortodoxo versus mundo real
|
Fresnot
não tem
dúvidas
sobre o
caráter das
negociações "árduas e
muito duras"
a serem
enfrentadas
|
|
Os liberais
ortodoxos – leia-se
cineastas e produtores ligados a Globo Filmes, exibidores,
distribuidores e conglomerados de comunicação – opinam
que o assunto deveria ser regulado apenas pelas leis de
mercado. Por outro lado, gente do setor, como o cineasta
Giba Assis
Brasil, que integra o Conselho Superior de Cinema, engrossa
o coro dos que discordam do modelo vigente e acha que o
mercado precisa de leis para ser regulado. Para ele e tantos
outros,
a realidade mostra que a intervenção do Estado é fundamental. “Um
mercado desregulado é o maior empecilho à liberdade
de expressão, por criar uma concorrência desigual
e impedir a variedade de conteúdos”, justifica
Assis Brasil. O caso recente do filme O homem-aranha 2 é exemplar.
Lançado com 600 cópias, ocupou um terço das 1.800 salas
existentes no Brasil, faturou milhões, pagando apenas uma taxa de R$ 3
mil para entrar no país. Com o objetivo
de coibir esse tipo de excesso, o projeto estabelece taxas diferenciadas
sobre a distribuição de filmes estrangeiros lançados com |
mais de 200 cópias. É o mesmo que permitir que
uma só marca e modelo de automóvel seja vendido em
um terço das lojas, ou que uma única música
ocupe um terço das programações de rádio
em todo Brasil. A comparação é tosca, mas
a proporção é a mesma.
“
A necessidade de um marco regulatório é óbvia”,
defende o produtor Leonardo Monteiro de Barros, que tem desenvolvido
vários projetos como Eu, Tu, Eles com as majors americanas
através de um dos mecanismos que mais beneficia a produção
nacional: o artigo 3º da Lei do Audiovisual. Nele, parte do
imposto de renda devido aos ganhos das empresas americanas com
filmes estrangeiros no Brasil pode ser investida em co-produções
nacionais. É o tipo de mecanismo positivo para o cinema
brasileiro e está preservado no projeto da Ancinav, cujo
debate está apenas começando.
As primeiras manifestações dos setores da exibição
e distribuição de cinema, homevídeo e DVD
foram ameaças de elevação de custos para o
consumidor, aumentando a elitização já evidente
no setor. Fresnot não tem dúvida sobre o caráter
das negociações “árduas e muito duras” a
serem enfrentadas para a transformação do anteprojeto
em lei, afinal, mexe com privilégios históricos.
Se o mercado está interessado nos negócios, pois é da
sua natureza a realização deste objetivo, o Estado
deve se ocupar do acesso do cidadão à informação
e à cultura. No cinema e, mais amplamente, na produção
audiovisual, negócios e arte se conjugam de maneira exemplar.
E rendem milhões.
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