Ano 10 - nº 85
Setembro 2004



Luis Fernando Verissimo:
O Fernando Henrique fez uma piada no começo do seu governo (aquela do “esqueçam tudo que eu escrevi”) que o perseguiu durante oito anos. Era apenas uma piada simpaticamente autodepreciativa, pelo menos para quem estivesse disposto a entendê-la assim. Queria dizer que nenhum membro da classe teórica passa à prática sem sacrificar algumas...




Nei Lisboa:
Se depender do que se viu da campanha até agora, o PT deve ganhar mais uma vez e com boa folga as eleições municipais em Porto Alegre, completando em 2008 vinte anos consecutivos na administração da cidade. É uma prova inegável de acerto e vitalidade de um projeto político ao qual ninguém consegue opor proposta mais consistente e...



Elisa Lucinda:

Tive um amor que era fotógrafo e ia na Central do Brasil pegar um trem e comprar papel “efequatro” mais em conta. Pegava o trem e ia lá na fartura de fatos que méires e santacruzes têm. Voltava, e eu perguntava animada: “E aí, me conta?” “Me conta o quê, Nega?” “Me conte o que viu, o que da alquimia alegórica dos fatos cotidianos teve a honra de se desvendar aos seus olhos?” Ele dizia:





Aulas para Inglês ver

Matheus, com três anos de idade, e seus colegas perseguem encantados a professora de inglês vestida de Branca de Neve, circulando pelos corredores da escola e cantarolando: I am boy (eu sou menino), numa adaptação grotesca da música original que diz I am Mom eu sou a mamãe). “Isto não é inglês. Se a palavra mom não precisa de artigo neste caso, o mesmo não acontece com boy, que requer o emprego do artigo na frente: I am a boy (eu sou um menino).” A crítica é da doutoranda do curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Simone Silva Pires. Em sua dissertação de mestrado, ela estudou as Vantagens e desvantagens do ensino de língua estrangeira na educação infantil.
Foto: René Cabrales


Jacira Cabral

ara a maioria das pessoas, diretores de escolas, pais e principalmente crianças é difícil identificar se um professor de língua estrangeira está ensinando corretamente. Segundo Simone, esses erros podem ir desde a pronúncia até a estrutura da língua, acarretando sérios problemas na escolaridade daqueles alunos expostos ao trabalho de profissionais desqualificados. Situações como essa são comuns em diferentes instituições de ensino que buscam oferecer um plus à sua clientela. E como não há qualquer tipo de fiscalização, o que permanece é a prática generalizada, fruto de um senso comum de que, já que uma criança pequena não sabe nada mesmo, qualquer coisinha que se ensinar está bom. “Não é verdade, é melhor não ensinar nada do que ensinar essas quaisquer ‘coisinhas’, porque são ‘coisinhas’ erradas”, denuncia a especialista.

Pesquisa aponta despreparo dos professores

A pesquisa de Simone começou justamente a partir de uma demanda – que vem crescendo nos últimos anos – de oferecer o ensino de línguas para crianças de zero a seis anos. Creches, escolas de ensino fundamental e médio com turmas de educação infantil e cursos livres de língua estrangeira vêm acrescentando aos seus currículos aulas de línguas às crianças dessa faixa etária. Ao transformar a questão em tema de pesquisa, Simone constatou problemas tanto de ordem ética como de formação profissional.

Uma das colegas de Simone, já doutora em línguas, trouxe ao Instituto de Letras da Ufrgs o desafio de oferecer a uma escola de Educação Infantil da rede privada o ensino de inglês às crianças. Esta professora havia sido procurada pela diretora da escola de seu filho, pois sabiam que ela trabalhava na área e queriam sua orientação para resolver o assunto. Foi então que surgiu o Projeto Criança, atividade de extensão na qual alunas do curso de Letras passaram a ser treinadas especialmente para atuar com crianças pequenas. Até então, revela Simone, não havia na Ufrgs e nem mesmo em outras instituições de ensino superior de Letras qualquer abordagem acadêmica que unisse o ensino de língua estrangeira às particularidades de aprendizagem das crianças de zero a seis anos.

Se, por um lado, as crianças aprenderam bastante, inclusive aquelas que já sabiam alguma coisa ampliaram seu vocabulário, por outro, era freqüente o desinteresse dos alunos pelas aulas. “Concluímos que para que as aulas dessem certo, além do domínio da língua inglesa, as professoras deveriam ter conhecimento de como lidar com a criança.” Segundo Simone, o fato de a criança passar a não gostar da forma como as aulas são dadas pode acarretar aversão ao idioma oferecido, condição inibidora do aprendizado mais adiante na vida escolar do aluno. “Afinal de contas, o objetivo do projeto era que elas gostassem das aulas e aprendessem alguma coisa da língua inglesa”, argumenta.

Danos podem ser maiores que os ganhos

Depois de dois anos de experiência, a diretora da escola desistiu da parceria com as professoras do Projeto Criança e procurou uma empresa privada que oferece serviço terceirizado de ensino de línguas às escolas de Educação Infantil. Como Simone continuou acompanhando o ensino na escola para dar continuidade à sua pesquisa, pôde constatar que a recreacionista, sem formação em Letras, enviada pela empresa conseguia manter as crianças atentas às suas aulas. “Entretanto, ela não sabia absolutamente nada de inglês. Estava, sim, falando palavras inglesas usando fonemas da língua portuguesa, e não do inglês.”

Preocupada com a constatação, a pesquisadora avalia os danos desse tipo de oferta de trabalho desqualificado. Segundo ela, só esta empresa em questão atende a mais 30 escolas em Porto Alegre. Simone adverte sobre o fato de que aquilo que a criança aprende nessas condições a coloca no estágio - 1 (menos um). Ou seja, antes de aprender qualquer coisa de inglês na escola, ela terá que desaprender o que aprendeu quando criança.

Ao concluir sua pesquisa, Simone não recomenda o ensino de língua estrangeira para crianças por profissionais que não tenham formação em Letras e que não saibam como esta criança aprende e como devem se comunicar com ela. Na sua avaliação, é necessário que os cursos de Letras supram essa lacuna, oferecendo cursos de especialização que qualifiquem os futuros professores a dar aula para as diferentes faixas etárias. O que acontece hoje é que as licenciaturas preparam o profissional para lecionar exclusivamente para adultos. Enquanto essa qualificação não acontece, ela adverte: “Se queremos desenvolver o intelecto das crianças, então devemos ensiná-las a jogar xadrez. Afinal de contas, é muito mais útil do que ela ficar aprendendo palavrinhas de outra língua com pronúncia errada”.

    Foto: René Cabrales
Simone não recomenda o
ensino de língua estrangeira
para crianças por
profissionais que não tenham
formação em Letras e que
não saibam como esta
criança aprende e como
devem se comunicar com ela
Mais recentemente, em contato com outras colegas da pós-graduação do Instituto de Letras da Ufrgs, Simone pôde comprovar que a falta de qualidade do ensino de língua estrangeira para crianças de zero a seis anos é generalizada. Esta colega dá aula de inglês para crianças em uma escola de línguas de renome em Porto Alegre. Segundo ela, a coordenadora do curso, durante um período lecionava para crianças de cinco a seis anos. Como não sabia manejar o grupo e seu inglês não era muito vasto, depois de meia hora de aula, soltava as crianças no pátio da escola, onde permaneciam os 90minutos restantes. Ou seja, os pais pagavam caro e as crianças não aprendiam nada. “Se isso acontece em uma escola, pode acontecer em outras”, comenta Simone.


 Crianças têm facilidade natural para aprender idiomas
As pesquisas da neurociência (estudo do cérebro), que avançam rapidamente, têm verificado que a faixa etária preciosa para o aprendizado de línguas é de zero a seis anos. Isso porque existe, dentro do cérebro humano, o que chamamos de dispositivo de aquisição da linguagem, presente desde o nascimento. Este fato faz com que todo indivíduo seja capaz de aprender uma língua, inclusive a dos sinais, basta ser exposto a ela. Por isto, para Simone Silva Pires, doutoranda do curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “não existe criança no mundo que não saiba falar língua nenhuma, todas falam pelo menos uma”.

Esse dispositivo permite ainda que a criança, além da língua materna, aprenda todas aquelas às quais estiver exposta. E isso acontece sem que ela as confunda, misturando-as. Segundo os cientistas, quando nascemos, somos capazes de distinguir todos os fonemas, todos os sons possíveis. O ouvido do feto está maduro aos quatro meses de gestação, quando ele pode ouvir todos os sons internos do corpo da mãe, sendo até capaz de distinguir a voz materna das demais assim que nasce. A partir dos seis meses, a criança começa a diminuir sua capacidade de distinguir fonemas de vogais diferentes. Com um ano, isso começa a acontecer com os fonemas das consoantes. Os registros lingüísticos vão se organizando no cérebro até que, aos três anos, ela pode falar corretamente cerca de 90% dos diferentes idiomas aos quais esteve exposta.

Essa capacidade de aprender uma língua, tanto estrangeira como materna, por meio desse dispositivo inato, é reduzida a partir dos seis anos de idade e terminada na adolescência (entre 12 a 14 anos). A partir daí, o ser humano passa a recorrer a outras capacidades intelectuais para aprender uma nova língua. “Por isso, é importante que as crianças aprendam outro idioma o quanto antes. Porém, não da forma como vem acontecendo. Se for assim, é melhor deixar para aprender na adolescência, quando a ela vai ter o cérebro bem desenvolvido, jogando xadrez aos seis anos”.





Mais Educação:
Educação a Distância
Notas


 
José Luis Fiori

Sistema Mundial em Transe
Quando Giovanni Arrighi publicou seu livro O Longo Século XX, em 1994, deu uma contribuição decisiva para o amadurecimento da tese de Immanuel Wallerstein, sobre a recorrência das “crises mundiais de hegemonia”, dentro do Modern World System , que nasceu no “longo século XVI” de Fernand Braudel.





Literatura no olho da rua
O Na Tábua, uma iniciativa que junta imagens e literatura, é muito bem-vinda, no sentido de expor em espaços públicos peças literárias curtas e ilustrações, à disposição tanto de leitores quanto de leitores em potencial.





Mais de 80 escolas já regularizaram contratos
Está aumentando o número de instituições de educação infantil que estão efetivando a regularização do contrato de trabalho dos seus professores. O caso mais recente é o da Escola de Educação Infantil...







Para o envio de cartas, sugestões e comentários para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br - Extra Classe é uma publicação mensal do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul - SINPRO/RS - Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha - Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51) 4009.2917 - http://www.sinprors.org.br