Matheus,
com três
anos de idade, e seus colegas perseguem encantados a professora
de inglês vestida de Branca de Neve, circulando pelos
corredores da escola e cantarolando: I am boy (eu sou menino),
numa adaptação grotesca da música
original que diz I am Mom eu sou a mamãe). “Isto
não é inglês. Se a palavra mom não
precisa de artigo neste caso, o mesmo não acontece
com boy, que requer o emprego do artigo na frente: I am
a boy (eu sou um menino).” A crítica é da
doutoranda do curso de Letras da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, Simone Silva Pires. Em sua dissertação
de mestrado, ela estudou as Vantagens e desvantagens do
ensino de língua estrangeira na educação
infantil.
Foto:
René Cabrales
Jacira Cabral
ara
a maioria das pessoas, diretores de escolas, pais e
principalmente crianças é difícil identificar se um professor
de língua estrangeira está ensinando corretamente. Segundo Simone,
esses erros podem ir desde a pronúncia até a estrutura da língua,
acarretando sérios problemas na escolaridade daqueles alunos expostos
ao trabalho de profissionais desqualificados. Situações como essa
são comuns em diferentes instituições de ensino que buscam
oferecer um plus à sua clientela. E como não há qualquer
tipo de fiscalização, o que permanece é a prática
generalizada, fruto de um senso comum de que, já que uma criança
pequena não sabe nada mesmo, qualquer coisinha que se ensinar está bom. “Não é verdade, é melhor
não ensinar nada do que ensinar essas quaisquer ‘coisinhas’,
porque são ‘coisinhas’ erradas”, denuncia a especialista.
Pesquisa aponta despreparo dos professores
A pesquisa de Simone começou justamente a partir de uma demanda – que
vem crescendo nos últimos anos – de oferecer o ensino de línguas
para crianças de zero a seis anos. Creches, escolas de ensino fundamental
e médio com turmas de educação infantil e cursos livres
de língua estrangeira vêm acrescentando aos seus currículos
aulas de línguas às crianças dessa faixa etária.
Ao transformar a questão em tema de pesquisa, Simone constatou problemas
tanto de ordem ética como de formação profissional.
Uma das colegas de Simone, já doutora em línguas, trouxe ao Instituto
de Letras da Ufrgs o desafio de oferecer a uma escola de Educação
Infantil da rede privada o ensino de inglês às crianças.
Esta professora havia sido procurada pela diretora da escola de seu filho, pois
sabiam que ela trabalhava na área e queriam sua orientação
para resolver o assunto. Foi então que surgiu o Projeto Criança,
atividade de extensão na qual alunas do curso de Letras passaram a ser
treinadas especialmente para atuar com crianças pequenas. Até então,
revela Simone, não havia na Ufrgs e nem mesmo em outras instituições
de ensino superior de Letras qualquer abordagem acadêmica que unisse o
ensino de língua estrangeira às particularidades de aprendizagem
das crianças de zero a seis anos.
Se, por um lado, as crianças aprenderam bastante, inclusive aquelas que
já sabiam alguma coisa ampliaram seu vocabulário, por outro, era
freqüente o desinteresse dos alunos pelas aulas. “Concluímos
que para que as aulas dessem certo, além do domínio da língua
inglesa, as professoras deveriam ter conhecimento de como lidar com a criança.” Segundo
Simone, o fato de a criança passar a não gostar da forma como as
aulas são dadas pode acarretar aversão ao idioma oferecido, condição
inibidora do aprendizado mais adiante na vida escolar do aluno. “Afinal
de contas, o objetivo do projeto era que elas gostassem das aulas e aprendessem
alguma coisa da língua inglesa”, argumenta.
Danos podem ser maiores que os ganhos
Depois de dois anos de experiência, a diretora da escola desistiu da parceria
com as professoras do Projeto Criança e procurou uma empresa privada que
oferece serviço terceirizado de ensino de línguas às escolas
de Educação Infantil. Como Simone continuou acompanhando o ensino
na escola para dar continuidade à sua pesquisa, pôde constatar que
a recreacionista, sem formação em Letras, enviada pela empresa
conseguia manter as crianças atentas às suas aulas. “Entretanto,
ela não sabia absolutamente nada de inglês. Estava, sim, falando
palavras inglesas usando fonemas da língua portuguesa, e não do
inglês.”
Preocupada com a constatação, a pesquisadora avalia os danos desse
tipo de oferta de trabalho desqualificado. Segundo ela, só esta empresa
em questão atende a mais 30 escolas em Porto Alegre. Simone adverte sobre
o fato de que aquilo que a criança aprende nessas condições
a coloca no estágio - 1 (menos um). Ou seja, antes de aprender qualquer
coisa de inglês na escola, ela terá que desaprender o que aprendeu
quando criança.
Ao concluir sua pesquisa, Simone não recomenda o ensino de língua
estrangeira para crianças por profissionais que não tenham formação
em Letras e que não saibam como esta criança aprende e como devem
se comunicar com ela. Na sua avaliação, é necessário
que os cursos de Letras supram essa lacuna, oferecendo cursos de especialização
que qualifiquem os futuros professores a dar aula para as diferentes faixas etárias.
O que acontece hoje é que as licenciaturas preparam o profissional para
lecionar exclusivamente para adultos. Enquanto essa qualificação
não acontece, ela adverte: “Se queremos desenvolver o intelecto
das crianças, então devemos ensiná-las a jogar xadrez. Afinal
de contas, é muito mais útil do que ela ficar aprendendo palavrinhas
de outra língua com pronúncia errada”.
Foto:
René Cabrales
Simone
não recomenda o
ensino de língua estrangeira
para crianças por
profissionais que não tenham
formação em Letras e que
não saibam como esta
criança aprende e como
devem se comunicar com ela
Mais recentemente,
em contato com outras colegas da pós-graduação do Instituto de Letras da
Ufrgs, Simone pôde comprovar que a falta de qualidade do ensino de
língua estrangeira para crianças de zero a seis anos é generalizada.
Esta colega dá aula de inglês para crianças em uma
escola
de línguas de renome em Porto Alegre. Segundo ela, a coordenadora do curso,
durante um período lecionava para crianças de cinco a seis anos.
Como não sabia manejar o grupo e seu inglês não era muito
vasto, depois de meia hora de aula, soltava as crianças no pátio
da escola, onde permaneciam os 90minutos restantes. Ou seja, os pais pagavam
caro e as crianças não aprendiam nada. “Se isso acontece
em uma escola, pode acontecer em outras”, comenta Simone.
Crianças
têm facilidade natural para aprender idiomas
As pesquisas da neurociência (estudo do
cérebro), que avançam rapidamente, têm verificado
que a faixa etária preciosa para o aprendizado de línguas é de
zero a seis anos. Isso porque existe, dentro do cérebro
humano, o que chamamos de dispositivo de aquisição
da linguagem, presente desde o nascimento. Este fato faz com que
todo indivíduo seja capaz de aprender uma língua,
inclusive a dos sinais, basta ser exposto a ela. Por isto, para
Simone Silva Pires, doutoranda do curso de Letras da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, “não existe criança
no mundo que não saiba falar língua nenhuma, todas
falam pelo menos uma”.
Esse dispositivo permite ainda que a criança, além
da língua materna, aprenda todas aquelas às quais
estiver exposta. E isso acontece sem que ela as confunda, misturando-as.
Segundo os cientistas, quando nascemos, somos capazes de distinguir
todos os fonemas, todos os sons possíveis. O ouvido do feto
está maduro aos quatro meses de gestação,
quando ele pode ouvir todos os sons internos do corpo da mãe,
sendo até capaz de distinguir a voz materna das demais assim
que nasce. A partir dos seis meses, a criança começa
a diminuir sua capacidade de distinguir fonemas de vogais diferentes.
Com um ano, isso começa a acontecer com os fonemas das consoantes.
Os registros lingüísticos vão se organizando
no cérebro até que, aos três anos, ela pode
falar corretamente cerca de 90% dos diferentes idiomas aos quais
esteve exposta.
Essa capacidade de aprender uma língua, tanto estrangeira
como materna, por meio desse dispositivo inato, é reduzida
a partir dos seis anos de idade e terminada na adolescência
(entre 12 a 14 anos). A partir daí, o ser humano passa a
recorrer a outras capacidades intelectuais para aprender uma nova
língua. “Por isso, é importante que as crianças
aprendam outro idioma o quanto antes. Porém, não
da forma como vem acontecendo. Se for assim, é melhor deixar
para aprender na adolescência, quando a ela vai ter o cérebro
bem desenvolvido, jogando xadrez aos seis anos”.
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