Ano 10 - nº 85
Setembro 2004



Luis Fernando Verissimo:
O Fernando Henrique fez uma piada no começo do seu governo (aquela do “esqueçam tudo que eu escrevi”) que o perseguiu durante oito anos. Era apenas uma piada simpaticamente autodepreciativa, pelo menos para quem estivesse disposto a entendê-la assim. Queria dizer que nenhum membro da classe teórica passa à prática sem sacrificar algumas...




Nei Lisboa:
Se depender do que se viu da campanha até agora, o PT deve ganhar mais uma vez e com boa folga as eleições municipais em Porto Alegre, completando em 2008 vinte anos consecutivos na administração da cidade. É uma prova inegável de acerto e vitalidade de um projeto político ao qual ninguém consegue opor proposta mais consistente e...



Elisa Lucinda:

Tive um amor que era fotógrafo e ia na Central do Brasil pegar um trem e comprar papel “efequatro” mais em conta. Pegava o trem e ia lá na fartura de fatos que méires e santacruzes têm. Voltava, e eu perguntava animada: “E aí, me conta?” “Me conta o quê, Nega?” “Me conte o que viu, o que da alquimia alegórica dos fatos cotidianos teve a honra de se desvendar aos seus olhos?” Ele dizia:





EDUCAÇÃO A DISTÃNCIA

O professor bidimensional

unicípio de Rosário do Sul, 50 mil habitantes, a 400 quilômetros de distância de Porto Alegre, região da fronteira com o Uruguai. Em uma noite de segunda-feira fria de agosto, com menos de cinco graus positivos, cerca de 40 alunos de graduação do curso Normal Superior, iniciado já há um ano, assistem rotineiramente à aula. Nada demais, não fosse o fato, de não haver uma Instituição de Ensino Superior sediada na cidade. A mais próxima fica num raio de 64 quilômetros, em São Gabriel. Outra opção é Santana do Livramento, a 100 quilômetros. Porém, esses alunos prestaram vestibular e estão matriculados em uma universidade paranaense sediada em Londrina, a Universidade do Norte do Paraná (Unopar). Há alguns anos, isso poderia parecer bizarro; hoje, com as novas tecnologias de comunicação, já podem ser conferidas as primeiras experiências em Educação a Distância (EaD) em todo o Brasil.

Foto: René Cabrales
Alunos de graduação, em Rosário do Sul,
acompanham a aula via satélite

A sala ampla, escurecida para a projeção, pertence a uma escola da rede privada que trabalha em convênio com a universidade. Uma tela imensa ocupa a parede, diante dos olhares atentos do grupo de estudantes, na grande maioria constituído por professores das redes privada, estadual e municipal que buscam maior qualificação para o exercício da profissão. Nessa tela está projetada a imagem da professora Cleide Mussini Batista, que conversa com os alunos diretamente de Londrina, sobre os conteúdos de redação (coesão, coerência e intertextualidade), via satélite com imagens geradas de um estúdio de TV a milhares de quilômetros e sob uma temperatura de 26 graus. O contraste das roupas pesadas dos alunos com os trajes de verão da professora é apenas um detalhe diante do malabarismo tecnológico e operacional necessário para o funcionamento desta aula. Essa realidade traz uma novo tipo de docente : o professor bidimensional, cujo raio físico de ação se dá apenas nas duas dimensões que a parede da sala onde está projetada sua imagem lhe permite. Porém, do ponto de vista geográfico, possibilita que outras 199 cidades assistam à mesma aula e interajam em tempo real por chat e microfones. Esse professor tem por objetivo enganar a distância. Para isso, a modalidade é chamada pela instituição de presencial-conectato, utiliza-se de ferramentas midiáticas: clips, videotextos, edições, reproduções parciais de filmes, comerciais, etc.

Durante a aula, os alunos das várias cidades interferem e fazem questionamentos utilizando principalmente os chats mediados pelos tutores, que têm por função orientar os alunos na ausência do professor virtual. Aos poucos, também são transmitidos flashes com imagens das salas de todas as cidades participantes.

Testemunho

No caso de Rosário do Sul, Marcele Araújo, que é pedagoga, atua como tutora. Ela diz que é uma exigência da universidade que todos os tutores do Normal Superior tenham formação em Pedagogia. “Não estudei para isso, mas vislumbrei uma possibilidade de colocação no mercado de trabalho e estou gostando muito. O sistema é fascinante e sinto os alunos muito motivados. Atribuo a isso os próprios recursos tecnológicos que tornam as aulas bem atraentes”, relata. Os estudantes têm à disposição laboratórios de informática e bibliotecas virtuais e digitais com os conteúdos relativos às aulas. “Aperfeiçoei práticas didáticas e senti um crescimento do meu desempenho ao passar os resultados obtidos nas aulas para os meus alunos”, explica Darlene Nunes, 37 anos, professora estadual. Já para Eloá Sampaio, 40 anos, professora de Educação Infantil, estudar nos municípios próximos é inviável pelos custos e pelo deslocamento. O caso dela é uma síntese do que grande parte dos alunos entrevistados argumenta. Em geral, estranharam no início, mas logo se adaptaram à presença do professor por meios tecnológicos.


EaD ainda engatinha

No Rio Grande do Sul, apenas três instituições estão credenciadas pelo MEC para atuarem na área de graduação a distância (Ulbra, Pucrs, UCS) de um total de 31 universidades no âmbito nacional. “A oferta ainda é pequena e voltada, na grande maioria, para licenciaturas e qualificação de professores. Até porque é essa a prioridade do ministério”, diz Rubens Oliveira Martins, que é assessor da Secretaria de Ensino a Distância da Sesu/Mec. Segundo ele, ainda não existe uma avaliação mais profunda no que se refere à qualidade dos cursos oferecidos, pois os primeiros reconhecimentos estão ocorrendo ou ocorrerão ao longo desse ano, mas até agora todas as experiências já avaliadas estão funcionando satisfatoriamente e dentro das determinações do MEC, que possui regras mais rígidas do que as exigidas no sistema presencial. Um exemplo disso é que as autorizações não são permanentes como no caso presencial, elas precisam ser revalidadas periodicamente.

O especialista em EaD Franz Semmelmann, que é secretário de Educação a distância da Ufrgs, apesar de não ter certeza de que a rigidez dos critérios do MEC por si só funcionem com um efeito regulador para o setor educacional, no sentido de desestimular as instituições de qualidade duvidosa, é um entusiasta da modalidade. Segundo ele, o déficit de qualificação para os professores da Educação Básica no Estado estaria na casa dos milhares. Além disso, ele ressalta que o conceito do EaD inverte a lógica tradicional do ensino. “No EaD, o ator principal é o aluno, e o professor é um facilitador”. Semmelmann observa que o professor/aluno passa a ter de dominar as novas ferramentas em todas as suas potencialidades, indo muito além de um mero apertador de botões. Abre-se também uma possibilidade de qualificar o ensino de uma forma nunca antes vista, por meio da capacitação de professores nos lugares mais longínquos”, argumenta. “São absurdas as situações de risco e desgaste a que se submetem professores do interior do Estado que viajam rotineiramente para se qualificar na capital e em outras cidades. Condições que certamente comprometem a qualidade do aprendizado, inclusive”, completa. Semmelmann destaca que a EaD não representa um barateamento da educação. “O investimento para implementação de cursos a distância e treinamento é altíssimo”, explica.

Investimento

Conforme Paulo Ricardo Diniz, que coordena o departamento de EaD da Unopar, em Londrina, os procedimentos para autorizar os cursos de graduação da instituição junto ao MEC duraram mais de três anos. A universidade investiu cerca de R$ 10 milhões e está adquirindo o primeiro teleporto do Brasil para uso exclusivo em Educação. Com o novo equipamento, a Unopar poderá transmitir dados para os satélites sem precisar locar. “Precisamos mudar a cultura do mercado educacional que vê a EaD como artigo de segunda categoria, e é muito difícil para as caça-níqueis entrarem nesse mercado, em função tanto do rigor das normas quanto do alto investimento necessário”, expõe Diniz. “Nós já tivemos experiências traumáticas com estabelecimentos aventureiros que, pensando apenas no lucro fácil, não honraram compromissos assumidos”. Diniz afirma que o retorno financeiro para a instituição é demorado. No caso da Unopar, o retorno do investimento é esperado para somente depois de 2006.

Conforme a pró-reitora de Planejamento e Desenvolvimento Institucional e coordenadora do EaD da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Gelça Regina Prestes, o projeto que coordena já teve investimentos de mais de R$ 7 milhões desde a implantação. Não está incluído nessa soma os gastos que estão sendo feitos com preparação de pessoal e implantação de sistema de teleconferência. A UCS atende cerca de 200 alunos, desde março deste ano por meio de convênios com as secretarias municipais de Educação de das cidades de Antônio Prado, São Marcos, Bento Gonçalves, Vacaria, Canela, Caxias do Sul, Guaporé, Montenegro e São Sebastião do Caí.

Críticas

“ No início, algumas instituições avançaram estado adentro sem a mínima estrutura de laboratórios e biblioteca”, alfineta a pró-reitora em uma crítica direta a concorrente Unopar, que atua em algumas das localidades também atendidas pela UCS. Gelça Prestes também alerta para outra questão: “é preciso ter muito cuidado com o planejamento do EaD para que não se transforme em um trabalho artificial de venda de diplomas”. Para ela, além da democratização do acesso, que não ocorre no sistema tradicional, se desenvolve maior autonomia no estudante.

Já a Pucrs, pioneira em EaD no Estado, oferece apenas uma alternativa de graduação na área de Engenharia Química, em regime semi-presencial com uso de videoconferência. O professor José Nicoletti Filho, que coordena o curso, explica que esse ele surgiu a partir de um convênio com uma empresa do pólo petroquímico de Triunfo e que não é aberto ao público. A única turma, que iniciou com 29 alunos, chegará ao final com apenas nove. O curso não será reeditado.

São dez os itens básicos sugeridos pelo MEC que devem merecer a atenção das instituições que preparam seus programas de graduação a distância:

1 - integração com políticas, diretrizes e padrões de qualidade definidos para o ensino superior como um todo e para o curso específico;
2 - desenho do projeto: a identidade da educação a distância;
3 - equipe profissional multidisciplinar;
4 - comunicação/interatividade entre professor e aluno;
5 - qualidade dos recursos educacionais;
6 - infra-estrutura de apoio;
7 - avaliação de qualidade contínua e abrangente;
8 - convênios e parcerias;
9 - edital e informações sobre o curso de graduação a distância;
10 - custos de implementação e manutenção da graduação a distância.

Além desses aspectos, a instituição proponente poderá acrescentar outros mais específicos e que atendam a particularidades de sua organização e necessidades socioculturais de sua clientela, cidade, região.

Uma experiência nova

O Extra Classe entrevistou a professora Cleide Massini Batista, Pós-Doutoranda em Psicologia e professora a distância. Conversamos via e-mail sobre questões referentes ao EaD e sobre sua experiência como profissional nesta área. Leia a seguir trechos dessa conversa.

EC - Ainda há muita resistência ao EaD?
Cleide Massini
- Sei que ainda há muita resistência por parte de muitos professores e Departamentos de Educação de Universidades quanto ao ensino à distância. Sabemos que muitos são os fatores, dentre eles, a qualidade do mesmo.

É claro que, não diferente de muitos professores, tinha lá minhas dúvidas e críticas quanto ao ensino à distância.

Trabalho há algum tempo (10 anos) no Ensino Superior e você pensa no modelo presencial, no formato de aula proposta por este, na relação professor-aluno, qualidade etc. E, quando se depara com um “novo” formato há uma certa desestruturação de toda uma idéia de educação formal, ou seja, de um modelo formal onde as aulas tinham que seguir todo um padrão.

EC - A distânica atrapalha?
Cleide
- Posso dizer assim, que esta distância se torna relativa, pois estar presente não significa que a uma relação de empatia com seus alunos e que é possível estabelecer uma relação mesmo estando longe. É possível sentir o carisma do aluno, as suas dificuldades etc. Muitas vezes quando estou preparando minha aula (nós que preparamos as aulas e os técnicos nos auxiliam quanto à imagem que queremos colocar para enfatizar o tema abordado) fico pensando como os alunos do conectado têm uma aula muito mais rica em detalhes, imagens que posso utilizar para exemplificar o que estou abordando. Fato este, que no presencial não dá para fazer até mesmo devido às condições de falta de equipamento, muitas vezes, principalmente nas universidades públicas.

EC - Não há o risco de uma padronização das aulas e acabar caindo num padrão televisivo e impessoal demais?
Cleide
- Com relação ao modelo de aula, formato, cada professor tem o seu, é claro que tem toda uma filosofia da instituição, mas ela lhe dá abertura para criar sua aula. A minha, por exemplo, é cheia de imagens, gosto de contar histórias, faço micagens, “gracinha” no ar porque é meu jeito. As aulas, posso dizer, tem a cara do professor. Há diferentes professores e diferentes aulas. Todas as aluas são revistas pelo pessoal técnico e pela coordenação.

EC - O fato de apenas um docente trabalhar com 200 turmas simultaneamente não mercado de trabalho dos professores presenciais?
Cleide
- Quanto tirar outros professores do mercado não vejo desta forma. Penso mais que entramos numa área não explorada. Muitos de nossos alunos vivem em cidades distantes de uma universidade ou até mesmo não têm condições de se locomover diariamente para tais lugares pela distância, situação financeira etc. Poder levar a estes uma capacitação tem uma validade muito grande e ainda mais quando temos um feedback deles através dos e-mails e chats falando da contribuição das aulas para melhoria de sua prática em sala de aula com seus alunos.


 INSTITUIÇÕES CREDENCIADAS PARA EaD
Centro Universitario Herminio Ometto de Araras Faculdade de Administração de Brasília Faculdade de Tecnologia e Ciências Faculdade Integrada da Grande Fortaleza Instituto UVB.BR Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Universidade de Brasília Universidade de Brasília Universidade de Caxias do Sul Universidade de Salvador Universidade de Salvador Universidade do Estado de Santa Catarina Universidade do Estado do Rio de Janeiro Universidade do Sul de Santa Catarina Universidade do Tocantins Universidade Estadual de Ponta Grossa Universidade Estadual do Ceará Universidade Estadual do Maranhão Universidade Estadual do Norte Fluminense Universidade Federal de Alagoas Universidade Federal de Minas Gerais Universidade Federal de Ouro Preto Universidade Federal de Santa Catarina Universidade Federal do Ceará Universidade Federal do Espirito Santo Universidade Federal do Mato Grosso Universidade Federal do Mato Grosso do Sul Universidade Federal do Pará Universidade Federal do Paraná Universidade Federal do Rio de Janeiro Universidade Federal Fluminense Universidade Luterana do Brasil Universidade Norte do Paraná.





Mais Educação:
Aulas para Inglês ver
Notas


 
José Luis Fiori

Sistema Mundial em Transe
Quando Giovanni Arrighi publicou seu livro O Longo Século XX, em 1994, deu uma contribuição decisiva para o amadurecimento da tese de Immanuel Wallerstein, sobre a recorrência das “crises mundiais de hegemonia”, dentro do Modern World System , que nasceu no “longo século XVI” de Fernand Braudel.





Literatura no olho da rua
O Na Tábua, uma iniciativa que junta imagens e literatura, é muito bem-vinda, no sentido de expor em espaços públicos peças literárias curtas e ilustrações, à disposição tanto de leitores quanto de leitores em potencial.





Mais de 80 escolas já regularizaram contratos
Está aumentando o número de instituições de educação infantil que estão efetivando a regularização do contrato de trabalho dos seus professores. O caso mais recente é o da Escola de Educação Infantil...







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