EDUCAÇÃO A DISTÃNCIA
O professor bidimensional

unicípio
de Rosário do Sul, 50 mil habitantes, a 400 quilômetros
de distância de Porto Alegre, região da fronteira
com o Uruguai. Em uma noite de segunda-feira fria de agosto, com
menos de cinco graus positivos, cerca de 40 alunos de graduação
do curso Normal Superior, iniciado já há um ano,
assistem rotineiramente à aula. Nada demais, não
fosse o fato, de não haver uma Instituição
de Ensino Superior sediada na cidade. A mais próxima fica
num raio de 64 quilômetros, em São Gabriel. Outra
opção é Santana do Livramento, a 100 quilômetros.
Porém, esses alunos prestaram vestibular e estão
matriculados em uma universidade paranaense sediada em Londrina,
a Universidade do Norte do Paraná (Unopar). Há alguns
anos, isso poderia parecer bizarro; hoje, com as novas tecnologias
de comunicação, já podem ser conferidas as
primeiras experiências em Educação a Distância
(EaD) em todo o Brasil.
| Foto:
René Cabrales |
|
Alunos
de graduação, em Rosário do Sul,
acompanham a aula via satélite
|
A sala ampla, escurecida para a projeção, pertence
a uma escola da rede privada que trabalha em convênio com
a universidade. Uma tela imensa ocupa a parede, diante dos olhares
atentos do grupo de estudantes, na grande maioria constituído
por professores das redes privada, estadual e municipal que buscam
maior qualificação para o exercício da profissão.
Nessa tela está projetada a imagem da professora Cleide
Mussini Batista, que conversa com os alunos diretamente de Londrina,
sobre os conteúdos de redação (coesão,
coerência e intertextualidade), via satélite com imagens
geradas de um estúdio de TV a milhares de quilômetros
e sob uma temperatura de 26 graus. O contraste das roupas pesadas
dos alunos com os trajes de verão da professora é apenas
um detalhe diante do malabarismo tecnológico e operacional
necessário para o funcionamento desta aula. Essa realidade
traz uma novo tipo de docente : o professor bidimensional, cujo
raio físico de ação se dá apenas nas
duas dimensões que a parede da sala onde está projetada
sua imagem lhe permite. Porém, do ponto de vista geográfico,
possibilita que outras 199 cidades assistam à mesma aula
e interajam em tempo real por chat e microfones. Esse professor
tem por objetivo enganar a distância. Para isso, a modalidade é chamada
pela instituição de presencial-conectato, utiliza-se
de ferramentas midiáticas: clips, videotextos, edições,
reproduções parciais de filmes, comerciais, etc.
Durante a aula, os alunos das várias cidades interferem
e fazem questionamentos utilizando principalmente os chats mediados
pelos tutores, que têm por função orientar
os alunos na ausência do professor virtual. Aos poucos, também
são transmitidos flashes com imagens das salas de todas
as cidades participantes.
Testemunho
No caso de Rosário do Sul, Marcele Araújo, que é pedagoga,
atua como tutora. Ela diz que é uma exigência da universidade
que todos os tutores do Normal Superior tenham formação
em Pedagogia. “Não estudei para isso, mas vislumbrei
uma possibilidade de colocação no mercado de trabalho
e estou gostando muito. O sistema é fascinante e sinto os
alunos muito motivados. Atribuo a isso os próprios recursos
tecnológicos que tornam as aulas bem atraentes”, relata.
Os estudantes têm à disposição laboratórios
de informática e bibliotecas virtuais e digitais com os
conteúdos relativos às aulas. “Aperfeiçoei
práticas didáticas e senti um crescimento do meu
desempenho ao passar os resultados obtidos nas aulas para os meus
alunos”, explica Darlene Nunes, 37 anos, professora estadual.
Já para Eloá Sampaio, 40 anos, professora de Educação
Infantil, estudar nos municípios próximos é inviável
pelos custos e pelo deslocamento. O caso dela é uma síntese
do que grande parte dos alunos entrevistados argumenta. Em geral,
estranharam no início, mas logo se adaptaram à presença
do professor por meios tecnológicos.
EaD ainda engatinha
No Rio Grande do Sul, apenas três instituições estão
credenciadas pelo MEC para atuarem na área de graduação
a distância (Ulbra, Pucrs, UCS) de um total de 31 universidades no âmbito
nacional. “A oferta ainda é pequena e voltada, na grande maioria,
para licenciaturas e qualificação de professores. Até porque é essa
a prioridade do ministério”, diz Rubens Oliveira Martins, que é assessor
da Secretaria de Ensino a Distância da Sesu/Mec. Segundo ele, ainda não
existe uma avaliação mais profunda no que se refere à qualidade
dos cursos oferecidos, pois os primeiros reconhecimentos estão ocorrendo
ou ocorrerão ao longo desse ano, mas até agora todas as experiências
já avaliadas estão funcionando satisfatoriamente e dentro das determinações
do MEC, que possui regras mais rígidas do que as exigidas no sistema presencial.
Um exemplo disso é que as autorizações não são
permanentes como no caso presencial, elas precisam ser revalidadas periodicamente.
O especialista em EaD Franz Semmelmann, que é secretário de Educação
a distância da Ufrgs, apesar de não ter certeza de que a rigidez
dos critérios do MEC por si só funcionem com um efeito regulador
para o setor educacional, no sentido de desestimular as instituições
de qualidade duvidosa, é um entusiasta da modalidade. Segundo ele, o déficit
de qualificação para os professores da Educação Básica
no Estado estaria na casa dos milhares. Além disso, ele ressalta que o
conceito do EaD inverte a lógica tradicional do ensino. “No EaD,
o ator principal é o aluno, e o professor é um facilitador”.
Semmelmann observa que o professor/aluno passa a ter de dominar as novas ferramentas
em todas as suas potencialidades, indo muito além de um mero apertador
de botões. Abre-se também uma possibilidade de qualificar o ensino
de uma forma nunca antes vista, por meio da capacitação de professores
nos lugares mais longínquos”, argumenta. “São absurdas
as situações de risco e desgaste a que se submetem professores
do interior do Estado que viajam rotineiramente para se qualificar na capital
e em outras cidades. Condições que certamente comprometem a qualidade
do aprendizado, inclusive”, completa. Semmelmann destaca que a EaD não
representa um barateamento da educação. “O investimento para
implementação de cursos a distância e treinamento é altíssimo”,
explica.
Investimento
Conforme Paulo Ricardo Diniz, que coordena o departamento de EaD da Unopar, em
Londrina, os procedimentos para autorizar os cursos de graduação
da instituição junto ao MEC duraram mais de três anos. A
universidade investiu cerca de R$ 10 milhões e está adquirindo
o primeiro teleporto do Brasil para uso exclusivo em Educação.
Com o novo equipamento, a Unopar poderá transmitir dados para os satélites
sem precisar locar. “Precisamos mudar a cultura do mercado educacional
que vê a EaD como artigo de segunda categoria, e é muito difícil
para as caça-níqueis entrarem nesse mercado, em função
tanto do rigor das normas quanto do alto investimento necessário”,
expõe Diniz. “Nós já tivemos experiências traumáticas
com estabelecimentos aventureiros que, pensando apenas no lucro fácil,
não honraram compromissos assumidos”. Diniz afirma que o retorno
financeiro para a instituição é demorado. No caso da Unopar,
o retorno do investimento é esperado para somente depois de 2006.
Conforme a pró-reitora de Planejamento e Desenvolvimento Institucional
e coordenadora do EaD da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Gelça Regina
Prestes, o projeto que coordena já teve investimentos de mais de R$ 7
milhões desde a implantação. Não está incluído
nessa soma os gastos que estão sendo feitos com preparação
de pessoal e implantação de sistema de teleconferência. A
UCS atende cerca de 200 alunos, desde março deste ano por meio de convênios
com as secretarias municipais de Educação de das cidades de Antônio
Prado, São Marcos, Bento Gonçalves, Vacaria, Canela, Caxias do
Sul, Guaporé, Montenegro e São Sebastião do Caí.
Críticas
“
No início, algumas instituições avançaram estado
adentro sem a mínima estrutura de laboratórios e biblioteca”,
alfineta a pró-reitora em uma crítica direta a concorrente Unopar,
que atua em algumas das localidades também atendidas pela UCS. Gelça
Prestes também alerta para outra questão: “é preciso
ter muito cuidado com o planejamento do EaD para que não se transforme
em um trabalho artificial de venda de diplomas”. Para ela, além
da democratização do acesso, que não ocorre no sistema tradicional,
se desenvolve maior autonomia no estudante.
Já a Pucrs, pioneira em EaD no Estado, oferece apenas uma alternativa
de graduação na área de Engenharia Química, em regime
semi-presencial com uso de videoconferência. O professor José Nicoletti
Filho, que coordena o curso, explica que esse ele surgiu a partir de um convênio
com uma empresa do pólo petroquímico de Triunfo e que não é aberto
ao público. A única turma, que iniciou com 29 alunos, chegará ao
final com apenas nove. O curso não será reeditado.
São dez os itens básicos sugeridos pelo MEC que devem merecer a atenção das instituições
que preparam seus programas de graduação a distância:
1 - integração com políticas, diretrizes e padrões de qualidade definidos para
o ensino superior como um todo e para o curso específico;
2 - desenho do projeto: a identidade da educação a distância;
3 - equipe profissional multidisciplinar;
4 - comunicação/interatividade entre professor e aluno;
5 - qualidade dos recursos educacionais;
6 -
infra-estrutura de apoio;
7 - avaliação de qualidade contínua e abrangente;
8 - convênios e parcerias;
9 - edital e informações sobre o curso de graduação a distância;
10 - custos de implementação e manutenção da graduação a distância.
Além desses aspectos, a instituição proponente poderá acrescentar outros mais
específicos e que atendam a particularidades de sua organização e necessidades
socioculturais de sua clientela, cidade, região.
Uma experiência nova
O Extra Classe entrevistou a professora Cleide Massini Batista, Pós-Doutoranda
em Psicologia e professora a distância. Conversamos via e-mail sobre questões
referentes ao EaD e sobre sua experiência como profissional nesta área.
Leia a seguir trechos dessa conversa.
EC - Ainda há muita resistência ao EaD?
Cleide Massini - Sei que ainda há muita resistência por parte de
muitos professores e Departamentos de Educação de Universidades
quanto ao ensino à distância. Sabemos que muitos são os fatores,
dentre eles, a qualidade do mesmo.
É
claro que, não diferente de muitos professores, tinha lá minhas
dúvidas e críticas quanto ao ensino à distância.
Trabalho há algum tempo (10 anos) no Ensino Superior e você pensa
no modelo presencial, no formato de aula proposta por este, na relação
professor-aluno, qualidade etc. E, quando se depara com um “novo” formato
há uma certa desestruturação de toda uma idéia de
educação formal, ou seja, de um modelo formal onde as aulas tinham
que seguir todo um padrão.
EC - A distânica atrapalha?
Cleide - Posso dizer assim, que esta distância se torna relativa, pois
estar presente não significa que a uma relação de empatia
com seus alunos e que é possível estabelecer uma relação
mesmo estando longe. É possível sentir o carisma do aluno, as suas
dificuldades etc. Muitas vezes quando estou preparando minha aula (nós
que preparamos as aulas e os técnicos nos auxiliam quanto à imagem
que queremos colocar para enfatizar o tema abordado) fico pensando como os alunos
do conectado têm uma aula muito mais rica em detalhes, imagens que posso
utilizar para exemplificar o que estou abordando. Fato este, que no presencial
não dá para fazer até mesmo devido às condições
de falta de equipamento, muitas vezes, principalmente nas universidades públicas.
EC - Não há o risco de uma padronização das aulas
e acabar caindo num padrão televisivo e impessoal demais?
Cleide - Com relação ao modelo de aula, formato, cada professor
tem o seu, é claro que tem toda uma filosofia da instituição,
mas ela lhe dá abertura para criar sua aula. A minha, por exemplo, é cheia
de imagens, gosto de contar histórias, faço micagens, “gracinha” no
ar porque é meu jeito. As aulas, posso dizer, tem a cara do professor.
Há diferentes professores e diferentes aulas. Todas as aluas são
revistas pelo pessoal técnico e pela coordenação.
EC - O fato de apenas um docente trabalhar com 200 turmas simultaneamente
não
mercado de trabalho dos professores presenciais?
Cleide - Quanto tirar outros professores do mercado não vejo desta forma.
Penso mais que entramos numa área não explorada. Muitos de nossos
alunos vivem em cidades distantes de uma universidade ou até mesmo não
têm condições de se locomover diariamente para tais lugares
pela distância, situação financeira etc. Poder levar a estes
uma capacitação tem uma validade muito grande e ainda mais quando
temos um feedback deles através dos e-mails e chats falando da contribuição
das aulas para melhoria de sua prática em sala de aula com seus alunos.
| INSTITUIÇÕES
CREDENCIADAS PARA EaD |
Centro Universitario Herminio Ometto de Araras  Faculdade
de Administração de Brasília  Faculdade
de Tecnologia e Ciências  Faculdade
Integrada da Grande Fortaleza  Instituto
UVB.BR  Pontifícia
Universidade Católica
do Rio Grande do Sul  Universidade
de Brasília  Universidade
de Brasília  Universidade
de Caxias do Sul  Universidade
de Salvador  Universidade
de Salvador  Universidade
do Estado de Santa Catarina  Universidade
do Estado do Rio de Janeiro  Universidade
do Sul de Santa Catarina  Universidade
do Tocantins  Universidade
Estadual de Ponta Grossa  Universidade
Estadual do Ceará  Universidade
Estadual do Maranhão  Universidade
Estadual do Norte Fluminense  Universidade
Federal de Alagoas  Universidade
Federal de Minas Gerais  Universidade
Federal de Ouro Preto  Universidade
Federal de Santa Catarina  Universidade
Federal do Ceará  Universidade
Federal do Espirito Santo  Universidade
Federal do Mato Grosso  Universidade
Federal do Mato Grosso do Sul  Universidade
Federal do Pará  Universidade
Federal do Paraná  Universidade
Federal do Rio de Janeiro  Universidade
Federal Fluminense  Universidade
Luterana do Brasil  Universidade
Norte do Paraná.
|
|
Mais Educação:
Aulas
para Inglês ver
Notas