Contos de Vista
Tive um amor que era fotógrafo e ia na Central do Brasil
pegar um trem e comprar papel “efequatro” mais em conta.
Pegava o trem e ia lá na fartura de fatos que méires
e santacruzes têm. Voltava, e eu perguntava animada: “E
aí, me conta?” “Me conta o quê, Nega?” “Me
conte o que viu, o que da alquimia alegórica dos fatos cotidianos
teve a honra de se desvendar aos seus olhos?” Ele dizia: “Foi
tudo normal, ué!” Eu pensava: “Meu Deus, o mundo é tão
bem dotado de tramas e cenas, de personagens e rendas, bordadas
todos os dias na nossa cara. É impossível que ele,
que é fotógrafo, não tenha visto nada.” E
ele pensava: “Ela é doida!”
Sei hoje que meus olhos são viciados em ouvir a conversa dos outros nos ônibus,
nos bancos, nos banheiros, nas filas. Meus olhos são viciados em despir
senhoras pudicas e bichas halterofilistas que cruzam com elas em Copacabana.
Meus olhos têm ganas pralém do que tateiam.
Tecem mudos segredos que guardam a cara dos trocados no polegar intencionado
a raspar minha palma em meio a aparente normalidade do troco. Meus cílios
se escancaram para que eu veja a moça Selma que deve ser noiva e mora
durante o expediente numa saia de tergal da repartição e que é sempre
feliz às quartas, sábados e domingos. Já sabe o nome dos
filhos que há de gerar no garantido casamento com Jaime. Tem bobs infalíveis
no impecável cabelo de Henê e mexas pontuais que soltará no
torpor dos pagodes de sábado à tarde. Vai com Jaime.
Ah, Jaime, onde estará você que não é meu pralém
de poder ser meu? Ah, Jaime, por onde bares andará você que me faz
ser feliz assim, simples, sem teorias inférteis sobre o assunto felicidade?
Ah, Jaime da Selma, que vejo na rua e batizo, e nomeio, e amo.
Meus olhos navegam no script alheio. No bom da vida dos outros no ponto em que
a invejo só por não ser a minha. Meus olhos constroem roteiros
com as cicatrizes e risos dos passantes, com matizes e rugas, vigas e costuras
maleáveis que tecem o enredo alheio. Meus olhos não descansam e
se contam o que contam é porque estão condenados. A inspiração
que segue a orquestra desse respirar os obriga a tocar o instrumento das versões.
Os obriga a visões de vista e visita.
Ai, a verdade e sua infinita tentação de tentáculos! Quantas
infinitas pernas possui uma verdade! Meus olhos estão viciados em lira.
Dependentes do sublime e animado tráfico de aconteceres que os corteja
todos os dias.
Meus olhos vêem os tantos cinco sentidos do dia e copia a cria. Como quem
vê o que todo mundo vê, mas usa o olhar como anzol. Rede. Cardumes
se aproximam... e assim, sem nome de pescadores, pescam. Pescam. Olham o mundo
como quem abre as cortinas.
Como quem passa rímel.
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