CARLOS LESSA
Por um Brasil de Alma Grande
Carlos Lessa é economista e também professor
licenciado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde
foi eleito reitor pouco antes de ser convidado a assumir o Banco
Nacional de Desenvolvimento (BNDES). Na ocasião, optou por
aceitar o convite do Presidente da República e hoje está à frente
do segundo maior banco de desenvolvimento do mundo, acima no ranking,
inclusive, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A
estimativa é de que, em 2005, as aplicações
do banco superem os 60 bilhões, o que pode colocá-lo à frente
do Banco Mundial. Se isso ocorrer, o BNDS praticamente terá triplicado
a sua capacidade de fomento desde o início do Governo. Lessa
se diz neonacionalista e neopopulista e apresenta esses números
como resposta aos que criticaram a escolha de um professor para
um cargo que foi ocupado anteriormente por pessoas ligadas ao mercado
financeiro. Ele atribui ao otimismo de sua equipe e à ousadia
o fato de ter alcançado o maior lucro bancário do
país e o maior da história do Banco. Se diz cansado
de ser acusado por setores da imprensa por ineficiência. “E
estamos atingindo essas marcas recuperando esqueletos das privatizações
feitas em outros governos”, alfineta. Lessa esteve em Porto
Alegre em agosto para participar do seminário Desenvolvimento
Econômico e o Papel do Estado, promovido pela CUT, Associação
Brasileira de Empresários pela Cidadania (Cives), Centro
de educação Popular (Camp) e Agência de Desenvolvimento
Solidário (ADS). Na ocasião, concedeu ao Extra Classe
a entrevista que segue.
César Fraga*
EC – Como foi assumir o BNDES, vindo de uma trajetória
acadêmica?
Carlos Lessa – Herdamos um banco cheio de problemas que vinham
desde a década de 90. A gestão anterior foi tecnicamente
pouco responsável e acumulou uma quantidade imensa de inadimplentes.
Para não declarar a inadimplência, as dívidas
foram roladas para não reconhecer a perda. Na ocasião,
fui criticado por montar minha diretoria basicamente com professores.
Houve quem dissesse que não saberíamos gerir bancos.
O mais engraçado é que quem disse isso está sendo
indiciado pelo ministério público por ter gerido
bancos de forma que o MP não considera conveniente. Não
vou nominar a pessoa, mas parte da imprensa comprou a idéia.
Foto: Inês Arigoni
EC – O senhor está satisfeito com os atuais patamares
de investimento na produção?
Lessa – Crescimento de produção leva, na sua
continuidade, a uma retomada do investimento. O crescimento que
houve até agora ainda não produziu as decisões
de investimento de que nós gostaríamos. Por exemplo,
as pequenas e médias empresas estão aumentando suas
solicitações junto ao BNDS e possuem em seu conjunto
um comportamento muito afirmativo. Neste ano, estamos projetando
um crescimento acima de 40% nas operações do Banco,
com pequenas e médias empresas.
EC – Quanto esse setor da economia representa na
carteira do banco?
Lessa – Cerca de 35% do total das nossas aplicações,
o que representa mais de 15 bilhões em financiamento, que é,
na verdade, investimento.
EC – E as grandes empresas?
Lessa – Pois é. As grandes ainda estão muito
retraídas, mas não em todos os setores. Os ramos
de papel e celulose, construção naval (o Brasil está voltando
a ser o segundo maior produtor mundial de navios), cadeia do petróleo
e transporte ferroviário estão com um desempenho
bom.
EC – Há motivo para essa retração?
Lessa – Não vejo como retração, mas
como uma timidez, vamos dizer assim. Quando a pequena empresa percebe
que a economia está dando sinais de crescimento, ela procura
se expandir. Existe um motivo prático para isso: essa empresa
não é tão pressionada pelo mercado, pois,
pelo seu tamanho, sempre tem condições de encontrar
uma brecha. Já a grande empresa, das duas, uma: se ela se
endividar para realizar um projeto, precisará ter certeza
de que a economia vai crescer; caso contrário, ela já ficará com
uma planta ociosa. Hoje a grande indústria no Brasil ainda
está com capacidade ociosa em muitos setores. Vamos usar
o exemplo do cimento, que ocupa menos de 80% de sua capacidade.
Esse setor vai precisar que a construção civil se
reative, que as obras de infra-estrutura sejam confirmadas e que
o poder de compra das pessoas aumente para comprar “formiguinhas” (em
pequenas quantidades).
EC – Quais os setores com maior capacidade ociosa?
Lessa – Tecidos, ramo mobiliário, cimento, segmentos
da indústria mecânica. Só temos esse levantamento
por setor.
EC – Então o Brasil tem recursos para investir em
produção e o que faltam são projetos?
Lessa – Projetos entram no BNDES o tempo todo. O
problema não é esse. O que queremos é provocar
uma avalanche. Mas eu sou um otimista. No ano passado, nosso orçamento
foi de 33 bilhões. Nós aumentamos, neste ano, para
48,3 bilhões. Estamos apostando que o Brasil vai crescer.
Para o ano que vem, a estimativa é de 60 bilhões.
EC – Qual a capacidade ociosa do BNDES?
Lessa – (risos) É zero. Vou explicar. O meu vice-presidente
diz o seguinte: “financiamos de um alfinete a um foguete”.
O BNDS não é uma unidade fiscal, ou seja, não
trabalha com verba. Temos uma captação de recursos,
uma geração de recursos e uma previsão do
que vai ser feito. Agora, não adianta eu dizer que quero
namorar a Fulana. É preciso que ela também queira
me namorar. É esse o caso.
EC – O que o senhor considera uma taxa de crescimento plausível?
Lessa – Se você quer saber de que taxa eu gosto, digo
que é da de 7% ao ano. Pois essa foi a taxa de crescimento
do país durante quase 50 anos. No século passado,
por exemplo, o Brasil foi o país que teve a segunda melhor
média de crescimento, perdendo apenas para o Japão.
EC – O senhor parece mais do que otimista.
Lessa – Há poucas semanas, o presidente Lula lançou
a campanha dos meus sonhos, que pretende estimular a auto-estima
dos brasileiros. Para justificar minha posição, vou
parafrasear o poeta Fernando Pessoa: “Nada vale à pena
quando a alma é pequena”. O que eu quero dizer com
isso? Quando você acha que não pode, você não
faz. Mas o contrário também ocorre. É preciso,
antes de mais nada, querer e acreditar.
EC – Mas não há um tom de populismo nesse discurso,
que é o mesmo do Governo? Afinal, conjuntura internacional
também influi na capacidade de crescimento?
Lessa – (irritado, em voz alta) Ora bolas, há, sim,
um pessimismo excessivo e um discurso derrotista de alguns segmentos
e que reverberam isso pela imprensa há muito tempo. Precisamos
entender corretamente como as coisas funcionam. Qual é a
maior empresa brasileira? A Petrobras. Nos anos 50, as “Cassandras” diziam
que o Brasil não podia ter uma indústria de petróleo.
Os motivos alegados eram os seguintes: não tínhamos
engenharia, operários qualificados, indústria com
competência para satisfazer os padrões mínimos
de qualidade; não havia mercado externo para consumir nosso
produto nem mercado interno que absorvesse a produção.
Quando a campanha “O petróleo é nosso” foi
para a rua, o congresso da época, que era extremamente conservador,
aprovou o monopólio nacional do petróleo. E o que
temos 50 anos depois? Simplesmente a maior empresa brasileira.
Qual a diferença com o início da Petrobras e sua
história recente? É que Getúlio Vargas teve
a coragem de empurrar pra frente a empresa, e Fernando Henrique,
há pouco tempo, quis mudar o nome, além de esquartejá-la
e vendê-la. O que eu tenho a dizer com isso é o seguinte:
nós, que presenciamos essa história, e os que estão
chegando agora não temos o direito de ter dúvida
quanto à capacidade do Brasil, pois, caso contrário,
as próximas gerações viverão em um
país de “merda”. E é isso que o presidente
Lula, de forma mais polida, está dizendo com a campanha
de auto-estima.
EC – E a questão dos juros, que a equipe econômica
e o Banco Central insistem em manter altos. O senhor, dentro dessa
perspectiva otimista, ainda acredita, como em diversas declarações
suas anteriores, que possam realmente baixar?
Lessa – Tenho absoluta certeza de que a TJLP pode baixar.
Condições para isso existem. Continuo invocando o
Fernando Pessoa. Nesse ponto, eu tenho um certo voluntarismo e
continuo apostando no Brasil. Até porque não tenho
e não quero ter outra opção. Meus netos são
brasileiros. Eu nasci aqui. Não posso trocar de país.
Esse é o discurso do não pode, não dá...
Não sei mais o que é que não tem mais cabimento.
(muito irritado)
EC – Como o senhor vê a questão das
cooperativas?
Lessa – A legislação brasileira, para
lidar com esses casos, é uma verdadeira pedreira. Está se
tentando melhorar com Lei de Falências. A legislação
atual é uma verdadeira tragédia, pois, entre o momento
em que a empresa passa a não funcionar mais até o
momento em que se resolve a falência, há um intervalo
de tempo gigantesco em que a empresa se destrói completamente.
Com isso, se perdem muitas unidades produtivas que poderiam passar
para o controle dos funcionários, o que ocorre somente em
alguns casos. Nenhum país pode sucatear unidades produtivas.
Os maus empresários é que devem ser afastados, mas
esse afastamento não pode significar a destruição
da empresa. Uma das fórmulas é a da autogestão
que pode se dar de várias formas, mas todas elas formam
um aprendizado que tanto esses novos protagonistas quanto o BNDES
estão começando a trilhar. Estamos muito satisfeitos
de, no ano passado, termos resolvido o caso da Conforja, que deu
origem a Uniforja, uma empresa metal-mecânica que estava
falida e passou para o controle dos trabalhadores e que deverá faturar
150 milhões de reais já no ano que vem. Um exemplo
de cooperativa aqui no estado é a Aurora, na área
vinícola, que mostra a olhos vistos a viabilidade. Existem
vários casos bem-sucedidos. O BNDS quer ser parceiro desses
novos protagonistas.
| "Nada
vale à pena quando a alma é pequena." O que eu quero
dizer com isso? Quando você acha que não pode, você
não faz. Mas o contrário também ocorre. É preciso,
antes de mais nada, querer e acreditar. |
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(N.E. - A aquisição dos ativos da massa falida da
Conforja S.A. pelos trabalhadores da Uniforja é um projeto
100% financiado pelo BNDES, com um total de R$ 29,5 milhões,
dos quais o Banco já liberou R$ 22,2 milhões. As
liberações foram feitas neste ano pela nova direção
do BNDES e destinadas à quitação da compra
do terreno, da planta industrial e dos equipamentos, arrematados
em leilão por R$ 17,3 milhões, além de R$
4,8 milhões para composição de capital de
giro e de R$ 150 mil para programas de capacitação
da mão-de-obra. A Conforja foi criada em 1954 e teve sua
falência decretada em 1999.)
EC – Onde o senhor considera que a auto-estima do
brasileiro ficou mais prejudicada?
Lessa – Para a minha geração, ficou o hábito
de ver o Brasil ser a oitava economia industrial do mundo. Não
posso admitir a idéia de que o país não tem
jeito. Infelizmente a alma das novas gerações foi
marcada pelos “Fernandos”. Começou com o Collor
dizendo que nosso automóvel era uma carroça. Nossa
indústria automobilística sempre foi motivo de orgulho.
Com ele, o país acabou conhecendo a corrupção
em uma escala monumental. Depois, veio o Fernando Henrique, que
se elegeu duas vezes. E nessa década de FHC, a alma brasileira
foi dilapidada. Prevaleceu o discurso do “não podemos
ser protagonistas por causa da globalização que determina
um outro caminho, e esse outro caminho é dissolvam-se no
mundo. O que é isso? (muito enfático)
EC – O senhor se considera um nacionalista?
Lessa – Sim, na verdade me considero um neonacionalista.
Aliás, eu acho que, fora da nação, não
tem salvação. Além do povo, não existe
mais nada. Portanto, isso me faz também um neopopulista.
A nação é o povo.
Extra Classe – Existe um programa de socorro às companhias
aéreas, em especial à Varig? Há muita gente
criticando essa possível ajuda do governo à empresa.
Carlos Lessa – Não há programa nenhum. No entanto,
não se pode misturar alhos com bugalhos. Nenhum governo
pode virar as costas para a aviação, principalmente
o brasileiro. Temos uma extensão territorial imensa e mais
de 160 aeroportos organizados. Além disso, precisamos de
dólares, e a aviação comercial brasileira
gera alguma coisa em torno de 1 bilhão de dólares
por ano. Então, isso torna evidente que o setor é matéria
de Estado. Inclusive o setor é tão importante que
as coisas ligadas à aeronáutica são tratadas
e coordenadas pelo ministério da Defesa, inclusive porque
o Brasil possui um regime muito inteligente, pois os aeroportos
brasileiros são civis e militares, o que permite um conjunto
de operações muito mais eficiente como um todo.
EC – Qual a extensão da crise neste setor?
Lessa – As empresas aéreas brasileiras, de um modo
geral, estão vivendo uma situação muito problemática.
E obviamente a mais problemática de todas é a Varig,
pois ao longo de anos acumulou um passivo colossal. Uma companhia
de aviação não consegue voar com esse peso.
Então, o problema do governo é o seguinte: o país
não pode abrir mão de sua aviação civil.
E dadas as condições das empresas do setor e da maior
delas, inclusive com uma imagem internacional a zelar, o problema é difícil
de equacionar. O Brasil não pode abrir mão de ter
uma frota de aviação comercial robusta. Isso é estratégico.
EC – Quanto tempo o senhor acha que levará para ter
uma definição sobre o assunto?
Lessa – Impossível calcular. Pessoalmente,
gostaria que ocorresse uma definição até o
final do ano, pois muitas situações desagradáveis
já começam
a ocorrer nos aeroportos devido a não-equalização
desta questão. Há um excesso de cancelamento de vôos
e atrasos. Isso não tem sido noticiado, mas é reflexo
da crise do setor. O problema é na quantidade e na idade
do equipamento. A frota está velha também. Mas o
BNDES não é credor dessas companhias e nem tem capacidade
de decisão. Essa é uma decisão de governo.
Inclusive, o potencial de risco do BNDES nesse setor é muito
pequeno, diria até que representa uma “mixaria” no
conjunto das carteiras do Banco.
(N.E. - Posteriormente a essa
entrevista, o presidente do BNDES admitiu à imprensa que
até o final de outubro seria anunciada pelo governo uma
posição.)