Os Mil Olhos do Mercado
Pouca gente sabe ou se deu conta que pode estar sendo filmada
no momento de comprar inocentemente um frasco de amaciante no supermercado.
Imagens sobre o comportamento de consumidores nas gôndolas
dos supermecados são utilizadas, sem qualquer autorização
prévia, para estudos de consumo. Mas não é só isso.
Somos observados nos bancos, na ruas, no shoppings, e tudo que
nos pedem é: sorria, você está sendo filmado.
A falta de segurança à privacidade pode começar
no momento em que adquirimos um telefone celular, uma assinatura
de revista; ao acessarmos a internet; ao realizamos uma operação
bancária; coisas corriqueiras em nosso dia-a-dia. Todos
sabem que empresas comercializam dados de clientes entre si, resultando
num bombardeamento de malas diretas e telemarketing indesejados.
Isso, sem contar as avalanches de e-mails publicitários
a que somos expostos, ou melhor, submetidos, todos os dias. Somemos
a isso a possibilidade de rastreamento eletrônico com a implantação
de chips nas mercadorias e até mesmo em seres humanos. Futuro?
Ficção científica? Não. Trata-se de
possibilidade real e imediata. Em breve, poderemos estar à mercê de
um olhar cego com poder de observar todos os nossos movimentos
e comportamentos de consumo, sem que nos seja pedida licença
e sem que nos concedam sequer frases de consolo do tipo: “Sorria,
você está sendo chipado”.
Jimi Joe

m
meados do século 19, o
anarquismo radical de
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), considerado um dos papas da dialética
moderna, anunciava a rejeição a todas as formas de controle do
Estado sobre o cidadão. Cerca de cem anos depois, em 1948, amargurado
pelo cenário britânico do pós-guerra, George Orwell escreveu
um dos pilares da ficção antitotalitária. Seu livro 1984,
trazia a figura do Big Brother, um líder sem rosto ou forma física
definida, mas onipotente e onipresente, em um suposto mundo futuro no qual, numa
espécie de megaparanóia, todos e tudo são constantemente
controlados e vigiados. A realidade do pós-guerra gerou outros medos nos
pobres seres humanos espalhados por todo o planeta. A divisão do mundo
em duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética,
e dois principais sistemas político-econômicos, capitalismo e comunismo,
levoram ao surgimento de uma nova paranóia: a eventualidade de uma hecatombe
nuclear que poderia, supostamente, ser deflagrada a qualquer instante por qualquer
motivo, por mais insignificante que fosse. Os medos gerados pela chamada Guerra
Fria serviram durante quase 50 anos para manter a população mundial
em um estado de tensão e, conseqüentemente, de autocontenção.
No começo dos anos 90, com a queda do muro de Berlim e o desmantelamento
da União Soviética, o planeta trocou o comunismo pelo consumismo.
O capitalismo parece ter vencido a batalha sem detonar nenhuma arma nuclear.
Em nome de instituições sagradas ao capitalismo, como lucro, redução
de custos, controle de qualidade e cadeia de suprimentos, novas tecnologias e
atitudes agressivas de mercado passaram a ser desenvolvidas e adotadas, pouco
importando até que ponto isso implica invasão da privacidade de
cada consumidor. É o caso do sistema de etiquetamento RFID, que vem sendo
desenvolvido e aplicado pelas empresas desde a segunda metade dos anos 90. RFID,
que quer dizer Radio Frequency Identification (Identificação por
Radiofreqüência) é um sistema de etiquetamento individual de
mercadorias que representa um passo à frente do já habitual código
de barras, incorporado ao dia-a-dia do comércio mundial. Ao mesmo tempo,
o sistema RFID vem sendo objeto de polêmicas e debates por significar uma
intromissão a mais no cotidiano de milhões de pessoas no mundo
todo.
Informação e dinheiro eletrônico
“Agora e cada vez mais, nos próximos anos, a informação
vai ser o grande trunfo a nível mundial”, diz Filipe Müller,
coordenador acadêmico da Escola Supeior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Para ele, as grandes empresas no mundo inteiro estão basicamente preocupadas
com um item em sua atuação: redução de custos. “E
para conseguir redução de custos, a obtenção de informações é vital”,
diz. Para obter essas informações necessárias a operações
igualmente básicas, como controle de estoque ou logística, Müller
afirma que as empresas vão cada vez mais “entrar na vida das pessoas”.
No entanto, ele destaca que a redução de custos é apenas
um dos grandes enfoques das grandes empresas sob o ponto de vista de processos/logísticos. “As
empresas também buscam fortemente o aumento de valor percebido pelo consumidor
de modo a manter ou obter uma vantagem competitiva sustentável. Mas quem
exige isso somos nós mesmos”.
| Foto: René
Cabrales |
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"Agora
e cada vez mais, nos próximos
anos, a informação vai ser o grande
trunfo a nível mundial"
, diz
Filipe Muller,
coordenador
acadêmico
da ESPM
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O sistema de rastreamento dos produtos por radiofreqüência, embora
ainda não totalmente implementado, é uma realidade mais do que
latente. A rede americana Wall Mart, uma das maiores redes de supermercados do
mundo todo com vendas anuais de até 300 bilhões de dólares,
está exigindo que os seus 100 maiores fornecedores se adaptem à nova
tecnologia no máximo até 2005. A adoção do RFID é favorecida
por alguns fatores básicos. Um deles é o baixo custo do sistema.
Cada chip/etiqueta aplicado ao produto tem um custo irrisório de centavos
de dólar e a tendência é a de cair ainda mais com a sua adoção
massiva. Outro, já mencionado, é a redução de custos.
Com a chipagem dos produtos, as lojas e supermercados vão acabar eliminando
custos com pessoal que atualmente trabalha em setores como manutenção
de estoques. O chip, em contato com uma central, vai informar quando o estoque
está baixo, e devendo ser reposto sem necessidade de uma verificação
visual por funcionários.
A soma da chipagem dos produtos com o uso cada vez mais freqüente de cartões
de débito por parte dos consumidores vai acabar eliminando até mesmo
a figura dos caixas de supermercados, analisa Müller. “Chegou a hora
de repensar a maneira como a sociedade trabalha”, diz ele, prevendo um
futuro não muito agradável em termos de relações
do trabalho. Mais que uma mexida no mercado de trabalho em busca de custos mais
baixos, Müller diz que as novas tecnologias vão invadir cada vez
mais a privacidade do cidadão.
Ao que parece, com a adoção do RFID, o fantasma do Big Brother
de Orwell ganha novas e inusitadas proporções. Se com o código
de barras havia um controle de estoques de mercadorias, com o RFID cada produto
ganha um número individual. Quando o produto é adquirido em uma
loja, os dados são enviados por radiofreqüência para uma central,
sediada nos Estados Unidos, claro. Adicionando o chip do produto ao cartão
de débito de quem o comprou, aquele consumidor pode passar a ser localizado
em qualquer lugar para onde tenha levado o produto. Além disso, todos
os dados do consumidor que caírem no sistema vão passar a ser divididos
por todas as empresas com acesso ao Auto Id Center, a tal central mundial de
controle dos produtos etiquetados com chips e antenas de radiofreqüência.
Até que ponto essa rede de informações, teoricamente para
ser utilizada como ferramenta de mercado, não poderá sofrer interferências
de órgãos governamentais em busca de controle dos cidadãos?
Afinal, nesses tempos modernos de consumismo desbragado, as fronteiras entre
governos e empresas privadas são cada vez mais tênues e os envolvimentos
cada vez mais comprometedores. O premiado documentário Farenheit 9/11,
de Michael Moore, sobre os atentados de 11 de setembro e a subseqüente guerra
do Iraque, deixa isso bem claro ao explicitar as relações comerciais
entre a família Bush e a família Bin Laden, supostamente mocinhos
e bandidos nos traumáticos ataques terroristas. Se a idéia de novos
ataques terroristas vai ou não levar governos e empresas a usarem o novo
sistema de etiquetagem como mais uma ferramenta para rastreamento de pessoas
suspeitas ou indesejáveis não é a questão fundamental.
O fundamental é que tecnologia para isso já existe. Ou seja, mais
uma grande parcela, senão tudo o que ainda resta de nossa privacidade,
pode estar indo pelo ralo graças a essas novas tecnologias.
E apesar de dizer que a sociedade precisa repensar esses novos comportamentos,
Müller afirma que aparentemente a adoção de tecnologias como
o RFID é irreversível. “Tanto porque as grandes corporações
no mundo inteiro são favoráveis a questões econômicas
quanto porque a maior parte da população provavelmente vai aceitar
esse novo tipo de controle eletrônico, seja por comodidade ou por desinformação.” Ele
lembra ainda que o projeto do RFID prevê que lojas e supermercados disponibilizem
para seus consumidores balcões eletrônicos para “desetiquetar” os
produtos adquiridos unitariamente. Mas quem, na pressa de sair de um supermercado,
vai parar para “limpar” um rancho de 50 itens, um a um?
Ilustração: Claudete Sieber
 O debate sobre a invasão de privacidade
via colocação de chips e radiotransmissores em praticamente
todos os produtos industrializados como forma de redução
de custos e mais segurança na prevenção de
roubos chegou ao Brasil este ano, mas já é assunto
polêmico na Europa há muito tempo. Quem lembra isso é a
artista plástica alemã e pioneira em networking Rena
Tangens, fundadora de um grupo em defesa da privacidade. Rena diz
ainda que “não consegue ver aspectos positivos na
adoção de sistemas como o RFID para consumidores
e cidadãos”. Além disso, observa Rena, já ficou
evidente que as companhias vão poder colocar dispositivos
de radiofreqüência nos produtos disfarçadamente
sem que os consumidores sequer saibam disso. Do outro lado da linha,
presidindo uma empresa de segurança, a RSA Security, Art
Coviello não discorda muito da posição de
Rena. “O fundamental sobre tecnologia é que é preciso
haver cooperação entre governos, consumidores e vendedores.
Os consumidores não podem ficar passivos. Eles devem estabelecer
seus direitos e dizer como eles querem ser protegidos.”
Dan Schell, editor da revista Business Solution, acredita que as
preocupações com a polêmica quanto à privacidade
concernente ao uso de tecnologia como o RFID é prematura. “Lembre-se,
a utilização em larga escala da chipagem de produtos
com o sistema RFID ainda vai levar muitos anos para acontecer devido
justamente a questões sobre pivacidade que vem sendo levantadas,
custos de equipamentos e problemas de integração
que ainda estão por ser resolvidos”, diz ele. Além
disso, Schell lembra que o sistema atual de código de barras
para controle de estoque de produtos ainda vai permanecer em uso.
Sobre a possibilidade de se usar o RFID para monitoramento da população,
Schell acredita que “esse é um medo infundado”.
Primeiro, segundo ele, o alcance de leitura dessas etiquetas é mínimo. “De
fato, as questões e preocupações sobre o uso
do RFID são controversas e assim acabam se tornando mais
interessantes às agências de notícias. Infelizmente,
o valor real da nova tecnologia está sendo menosprezado.
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Chipados e apocalípticos
De qualquer maneira, a utilização do RFID não parece tão
longe da realidade como sugere Schell. O sistema já vem sendo utilizado
não apenas na monitoração de estoques de produtos industrializados
como também para localizar animais de estimação perdidos
e para multar motoristas infratores nas auto-estradas de vários países.
E até mesmo seres humanos já estão se dispondo a serem “chipados”,
como vem acontecendo em um clube noturno de Barcelona, na Espanha. Talvez por
acharem que se trata de apenas mais uma moda passageira, muitos dos freqüentadores
do Baja Beach Club tem aceitado a colocação de um chip em seus
corpos. Com isso, eles não precisam mais nem sequer pedir seu drinque
favorito no balcão. Basta passar o ponto do chip em um leitor e o garçon
já vai saber o que o cliente bebe, pois o chip tem todas as informações
sobre seu portador. A utilização de chips em pessoas pode se tornar útil
na saúde pública, lembra Filipe Müller. “Pacientes que
chegam ao hospital podem ter todo seu histórico médico avaliado
em segundos pela leitura do chip implantado”, diz ele. “Mas ao mesmo
tempo é uma faca de dois gumes, pois como o chip vai conter todas as informações
sobre o paciente, inclusive nível de renda, ele pode acabar sendo discriminado
por questões econômicas, por exemplo, na hora de ser atendido.”
O que é esse tal de RFID que tem gerado tanta polêmica e preocupação?
O RFID se baseia em microchips miniaturizados e relativamente baratos. Menores
do que um grão de areia, os chips são programados para “ouvir” uma
freqüência de rádio específica e transmitir em resposta
a um único sinal. É o uso da nova tecnologia na rede mundial de
comércio e indústria, no entanto, que tem gerado toda uma discussão
envolvendo a questão da privacidade. Quem advoga contra a adoção
da nova tecnologia argumenta que, mais do que uma ferramenta inovadora para os
negócios, o RFID é uma ultrajante invasão da privacidade
do cidadão. O fato de as etiquetas permanecerem ativas mesmo depois de
o consumidor deixar a loja tem gerado uma miríade de discussões
sobre privacidade. A organização norte-americana Consumidores Contra
Invasão de Privacidade pelos Supermercados está exigindo nos Estados
Unidos que haja uma legislação federal e que os produtos etiquetados
com RFID tenham essa informação no rótulo. Além disso,
a organização quer que a mesma legislação traga artigos
que tornem ilegal às companhias fazer uma conexão entre os chips
dos produtos com as informações pessoais do consumidor que os está adquirindo.
Para saber mais sobre a tecnologia RFID e suas possibilidades de invasão
de privacidade, visite os sites
www.nocards.org e
www.notags.co.uk .