Citibank para todos!
Se depender do que se viu da campanha até agora, o PT deve
ganhar mais uma vez e com boa folga as eleições municipais
em Porto Alegre, completando em 2008 vinte anos consecutivos na
administração da cidade. É uma prova inegável
de acerto e vitalidade de um projeto político ao qual ninguém
consegue opor proposta mais consistente e convincente, e desarma
a tese de que o partido sofreria um desgaste natural depois de
tanto tempo à frente da prefeitura. Sem falar no valor de
um candidato como Raul Pont, que cumpriu sua primeira gestão
como prefeito com altos índices de aprovação.
O PT deve ganhar, então. Mas algum desgaste o partido há de
acusar, sim, nessa eleição, e não há nada
de “natural” nisso. Natural seria esperar que o governo
Lula fosse em tudo diferente do governo FHC, e não uma réplica
mal disfarçada. Como vai a militância petista brandir
seus tradicionais slogans contra o neoliberalismo, rechaçando
o FMI, clamando por justiça social e distribuição
de renda, como vai insistir coerentemente nessa linha sem gritar “Fora
Meirelles!” e “Fora Palocci!”, por exemplo?
As questões municipais devem dominar o debate, claro, e
sempre se há de considerar que o PT daqui é diferente,
que é autêntico e fiel aos seus princípios
e crítico dos rumos do governo federal. Vá lá que
assim seja, podemos estar absolutamente corretos e elegendo a melhor
opção para Porto Alegre, mas isso apenas consolida,
na necessidade de relativizar o PT “daqui” e o “de
lá”, o mal-estar que o governo Lula vem proporcionando.
Uma das boas coisas que a ascensão do PT no RS nos trouxe,
um dos pilares do modo petista de tratar a política, digamos
assim, é a idéia de fortalecimento dos partidos,
a noção de que propostas, programas e decisões
partidárias devem prevalecer democraticamente às
convicções pessoais. Por esse motivo o voto na legenda
do PT é sempre significativo, e a militância mais
abnegada carrega a sua bandeira como a representação
de uma idéia, uma idéia que deveria transcender às
gestões e mandatos, ao tempo e à geografia do país.
Agora já não sabe, esse anônimo e devotado
militante, ao acenar seu estandarte pelas ruas, nas janelas, nos
comícios, vaidoso da estrela amarela sobre o pano vermelho,
mas talvez também saudoso de outras campanhas em que tal
complexidade não o atormentava, já não sabe
se está a defender o Orçamento Participativo ou a
posição acionária do Citibank.
