Sistema Mundial em Transe
Quando Giovanni Arrighi publicou seu livro O Longo Século
XX, em 1994, deu uma contribuição decisiva para o
amadurecimento da tese de Immanuel Wallerstein, sobre a recorrência
das “crises mundiais de hegemonia”, dentro do Modern
World System1 , que nasceu no “longo século XVI” de
Fernand Braudel. Segundo Wallerstein, esse “Sistema Moderno” foi
responsável pelo milagre capitalista europeu, cuja originalidade
histórica combinou, de forma contraditória e dinâmica,
uma “economia-mundo transcontinental” com uma superestrutura
política formada por estados nacionais independentes e competitivos.
A guerra quase permanente entre os estados, entretanto, só não
degenerou em caos político e econômico, graças
ao comando – ao longo dos últimos 500 anos – de
três grandes potências hegemônicas que foram
capazes de organizar, dos pontos de vista político e econômico,
o funcionamento hierárquico do sistema: as Províncias
Unidas, no século XVII; a Grã-Bretanha, no século
XIX; e os Estados Unidos, no século XX. Essas hegemonias,
contudo, não eliminaram os processos subjacentes de competição,
acumulação e centralização da riqueza
e do poder responsáveis pela repetição periódica
de grandes crises e longos períodos de transição
e reorganização da base produtiva, assim como da
liderança mundial do sistema.
José Luís Fiori*

m
seu O Longo Século XX,
Giovanni Arrighi retomou
e desenvolveu essa tese de Wallerstein, a partir de uma idéia sugerida
pela leitura da passagem da Civilização Material, Economia e
Capitalismo,
2 em que Braudel
fala das economias que se dedicam a viver dos “rendimentos
especulativos”, fato que anunciaria “uma espécie de maturidade,
sinal de outono” dessas economias. Daí extraiu sua tese central
de que todas as “expansões financeiras assinalariam, através
da história, transições de um regime de acumulação
em escala mundial para outro”
3 .
No seu novo livro, Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial, lançado em 1999, Giovanni Arrighi, Beverly
Silver e vários outros pesquisadores retomam esta investigação,
voltam ao problema inicial da “crise americana” que se propõem
a caracterizar e explicar. Segundo os autores, as “crises de hegemonia” podem
ser identificadas através de três sintomas distintos, mas relacionados:
a intensificação da competição estatal e capitalista;
a escalada global dos conflitos sociais e coloniais ou civilizatórios;
e a emergência de novas configurações de poder capazes de
desafiar e vencer o antigo estado hegemônico, que já estaria fragilizado.
Além disso, em todas as transições, esses sintomas apareceriam
associados a grandes “expansões financeiras sistêmicas”,
que seriam o efeito combinado de uma crise de sobreprodução e do
aumento da disputa estatal pelos capitais circulantes. Segue-se a conclusão
de que “a expansão financeira dos últimos vinte anos do século
XX é o sinal mais claro de que estamos em meio a uma crise de hegemonia...”
4 .
O que é mais importante para os autores é que, segundo eles,
depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos aumentaram sua vantagem militar,
mas se fragilizaram como potência hegemônica devido:
a) ao crescimento de seu endividamento externo, que fez da “maior potência
militar do mundo a maior nação devedora mundial” (Idem,
ibidem, p. 105);
b) à “bifurcação” do poder mundial que resultou
do deslocamento do poder financeiro e do “cofre do sistema” para
outros centros econômicos. Fenômeno que transformou o leste asiático “na
nova oficina e no novo cofre do mundo, sob a liderança “invisível” de
um estado semelhante a uma empresa, o Japão...”( Idem, ibidem,
p. 297); e
c) à “sublevação” das “grandes empresas
multinacionais que receberam poderes dos Estados Unidos e de seus aliados europeus
para operar globalmente, mas que acabaram se independizando e solapando o poder
dos próprios Estados de que dependem para sua proteção e
manutenção “ (Idem, ibidem, p. 289).
Nesses fatores, sustentam sua tese de que os Estados Unidos estariam perdendo
o controle do sistema mundial, uma hipótese ousada, mas apoiada em conceitos
imprecisos e evidências frágeis. Senão, vejamos:
1) Apesar da importância decisiva do conceito – verdadeira pedra
angular da interpretação de Arrighi –, não está claro
em Braudel nem na história econômica o verdadeiro significado das “expansões
financeiras” no desenvolvimento da economia capitalista mundial, porque
tampouco é consensual a interpretação que Arrighi dá às
metáforas utilizadas por Braudel, com relação à “maturidade” e
ao “outono” do capitalismo em Gênova e Amsterdam. Não
há dúvida de que Braudel diagnostica, nos dois casos, uma superabundância
de capitais baratos e “especulativos”, em alguns momentos dos séculos
XVI e XVIII. Mas Braudel também nos conta que os holandeses sempre investiram
e emprestaram dinheiro para governos e negócios de outros países,
e os genoveses foram, desde o século XV, uma espécie de cidade-banco
que viveu de emprestar para príncipes e negócios de todo tipo,
inclusive o dos “descobrimentos”. Seriam, portanto, cidades em estado
permanente de expansão financeira, de tal maneira que não é impossível
deduzir da narrativa de Braudel uma tese diferente da de Arrighi: em primeiro
lugar, a expansão do capital financeiro seria uma tendência permanente
e essencial do capitalismo e, em segundo, sua abundância e baixo preço
teria sido uma conseqüência transitória da própria perda
de poder de Gênova e Amsterdam, e não o produto de qualquer tipo
de “crise de sobreprodução”. No tempo posterior à pesquisa
de Braudel, no caso inglês, a expansão financeira do início
do século XIX acompanhou a consolidação e não a crise
da hegemonia inglesa. E não se transformou em empréstimos especulativos;
pelo contrário, financiou a sua própria revolução
industrial, deslocando-se da indústria algodoeira para a indústria
metalúrgica das estradas de ferro. Logo em seguida, na segunda metade
do século XIX, uma nova expansão financeira foi contemporânea
da “crise de sobreprodução” que atingiu a Inglaterra
depois de 1873. Mas tampouco deu origem a empréstimos especulativos, sustentando
a venda, no exterior, dos produtos ingleses, além de injetar recursos
na montagem do Império através do mundo, depois que a Índia
se transformou na pérola da sua Coroa. Por último, a “financierização
capitalista” do final do século XX tampouco parece confirmar a hipótese
de Arrighi. Na década de 70, a “expansão financeira” foi
sobretudo uma conseqüência da abundância de petrodólares
no mercado europeu; nos 80, foi um fenômeno que se restringiu quase que
só aos mercados desregulados anglo-saxões, tendo sido acompanhado
pela retomada do crescimento da economia norte-americana, que se prolongou através
de toda a década seguinte. É nos anos 90 que ocorre, de fato, uma “expansão
financeira sistêmica”; mas esta foi conseqüência da desregulação
generalizada dos mercados de capitais através do mundo, além de
ter-se dado num dos períodos de mais intenso e continuado crescimento
da economia norte-americana, dos investimentos, da produção, do
consumo e da produtividade. Nesses 30 anos, por outro lado, apesar da migração
de capitais para o leste asiático, os Estados Unidos seguiram sendo o
principal território econômico de aplicação e investimento
dos capitais do mundo inteiro.
2) Não há evidências suficientes (nem no livro, nem na historiografia
econômica) que permitam sustentar que o acirramento da competição
interestatal e interempresarial tenha ocorrido apenas nos momentos das grandes
transições, entre distintos ciclos de acumulação.
Não parecem ser causa, nem são um indicador suficiente de uma crise
de hegemonia. Por outro lado, mesmo que pareça uma questão de senso
comum prever o aumento da “conflitividade social” em períodos
de erosão dos poderes dominantes, é muito mais complicado demonstrar
que as lutas revolucionárias e os movimentos sociais tenham aumentando
durante os períodos de transição da hegemonia. Pelo contrário,
a “era das revoluções” de Hobsbawm coincidiu com o
período de consolidação e não de crise da hegemonia
inglesa, enquanto a crise mundial dos últimos vinte anos do século
XX, ao contrário do previsto pelo modelo, foi uma conjuntura de desaceleração
dos conflitos e de derrota dos movimentos trabalhistas e sociais em quase todo
o mundo. Além disso, é interessante constatar que as grandes ondas
de descolonização e independência dos novos estados, que
tiveram lugar no início do século XIX e através do século
XX, coincidiram com a ascensão e não com a crise das hegemonias
inglesa e norte-americana.
3) Durante o período da euforia americana dos anos 90, fez parte da ideologia
globalitária atribuir às grandes corporações multinacionais
e aos mercados financeiros um poder maior que o dos seus próprios estados
de origem. Passado o período das grandes compras e fusões transnacionais,
todos os balanços feitos indicam que, no caso dos setores estratégicos – do
ponto de vista tecnológico e militar –, o fator nacional foi decisivo
e houve intervenções estatais das grandes potências sempre
que alguma de suas grandes corporações se viu ameaçada por
capitais estrangeiros. Com relação ao problema do poder e da relação
entre a competição interestatal e a acumulação de
capital, o esquema interpretativo de Arrighi e seus discípulos ficam prisioneiros
de grandes analogias históricas sobre os momentos e os processos de “transição
da hegemonia”. Falta-lhes uma análise mais detalhada do processo
de competição fora do momento da transição e da disputa
central, assim como das relações desta competição
com os “lucros extraordinários” que são a própria
razão de ser do sistema. É neste ponto que mais se sente a ausência,
no livro de Arrighi, de uma discussão analítica mais cuidadosa
sobre as relações originárias entre o poder político
e os processos de valorização do capital e da sua multiplicação
na forma de dinheiro, antes e depois do longo século XVI, como nos ensinou
Braudel
5 .
4) Por fim, existe um último problema sério no encaminhamento das
conclusões do livro: a idéia de que os Estados Unidos se fragilizaram
nas últimas décadas ao se endividarem excessivamente e ao permitirem
a transferência do “caixa” do sistema para o leste asiático.
Com relação ao problema do endividamento, os autores confundem
o funcionamento do atual sistema monetário internacional – “dólar-flutuante” – com
o que foram os sistemas monetários internacionais anteriores, baseados
nos padrões ouro-libra e ouro-dólar. Nestes dois últimos, “os
países que emitiam a moeda-chave podiam fechar o saldo de sua balança
de pagamentos com déficits globais, mas tinham que se preocupar permanentemente
com sua posição externa, para impedir que se alterasse o preço
oficial da sua moeda em ouro” (Serrano, 1998, p. 1)
6 .
Entretanto, no novo sistema monetário internacional – que se consolidou nas décadas
de 80/90 – “os Estados Unidos podem incorrer em déficits de
balanço de pagamentos de qualquer monta e financiá-los tranqüilamente
com ativos denominados em sua própria moeda. Além disso, a ausência
de conversibilidade em ouro dá ao dólar e aos Estados Unidos a
liberdade de variar sua paridade em relação às moedas dos
outros países conforme sua conveniência. E, nesse sentido, a ausência
de conversibilidade em ouro elimina pura e simplesmente o problema da restrição
externa para os Estados Unidos” (Idem, ibidem, p. 8 e 9). Assim, ao contrário
do que pensa Arrighi, a crise dos anos 70, a “expansão financeira” posterior
e o fim da Guerra Fria transferiram para os Estados Unidos uma centralidade militar,
monetária e financeira sem precedentes na história da economia-mundo
capitalista. E não há nada, portanto, no cenário mundial
que sustente a idéia de que ocorreu uma “bifurcação” entre
o poder militar e o poder financeiro globais nos últimos vinte anos do
século XX. Pelo contrário, ambos estão concentrados nas
mãos de uma única potência, que responde ainda pelo nome
de Estados Unidos. Neste contexto, fica difícil imaginar que possa surgir
uma “nova configuração de poder” com capacidade hegemônica
mundial em territórios que não passam de protetorados militares
e cujo dinamismo econômico depende radicalmente da evolução
dos acontecimentos nos próprios Estados Unidos.
Concluindo, não há dúvida de que o Sistema Mundial está em
transe e é bem provável que os Estados Unidos enfrentem dificuldades
crescentes, nas próximas décadas, para manter o seu controle global.
O mais provável é que, se a história mantiver as regras
do passado, tampouco os Estados Unidos consigam construir um Império Mundial.
Mas se isso acontecer, será por razões e caminhos que não
se encaixam bem no modelo sistêmico de Arrighi e seus discípulos.
1 A esse respeito, ver o artigo “Crisis as
Transition”,
em S. Amin et alii, DYNAMICS OF THE GLOBAL CRISIS, Mac Millan Press,
London; e também o livro THE POLITICS OF THE WORLD-ECONOMY,
Cambridge University Press, Cambridge, 1984.
2 Braudel, F. (1996), O TEMPO DO
MUNDO, Martins Fontes, São
Paulo, p. 226.
3 Arrighi, G. ( 1996), O LONGO SÉCULO
XX, Contraponto/Unesp, Rio de Janeiro.
4 Arrighi, G. e Silver, B. (2001), Caos e governabilidade no Moderno Sistema
Mundial, Contraponto/Editora UFRJ, Rio de Janeiro.
5 Braudel, F. (1996) OS JOGOS DAS TROCAS, Martins
Fontes, São Paulo.
6 Serrano F. (1998), “Do Ouro Móvel
ao Dólar Flexível,
Mimeo, Instituo de Economia da URJ, Rio de Janeiro.
*Cientista Político