
Piadas infelizes
O Fernando Henrique fez uma piada no começo do seu governo
(aquela do “esqueçam tudo que eu escrevi”) que
o perseguiu durante oito anos. Era apenas uma piada simpaticamente
autodepreciativa, pelo menos para quem estivesse disposto a entendê-la
assim. Queria dizer que nenhum membro da classe teórica
passa à prática sem sacrificar algumas certezas acadêmicas
e que com ele não seria diferente. Mas quem já não
tinha muita boa vontade com o sociólogo de esquerda virado
político neoliberal tomou a frase como uma confissão
pública de cinismo. Fernando Henrique continuou fazendo
frases, boas e ruins, durante todo o seu mandato, o que significa
que não aprendeu o que deveria ser a primeira regra para
orações presidenciais: não improvisar. Se
tiver que improvisar, não fazer piadas. Se quiser fazer
piadas, treinar o improviso com bastante antecedência. Nunca é demais
enfatizar a importância, para uma presidência estável
e para a tranqüilidade geral da nação, da espontaneidade
bem ensaiada.
Seria impossível aplicar a regra no caso do Lula, que gosta
de improvisar e que em dois anos já superou a marca total
do Fernando Henrique na modalidade piada infeliz sem barreiras.
A esta altura – até porque ele não pára – já deveria
existir uma certa resignação entediada na imprensa
com as piadas sem preparação prévia, revisão,
teste de público, redação final e aprovação
pela sua assessoria de comunicação, do Lula. Todo
o mundo conhece o seu jeito e sabe que ele nunca vai se enquadrar
em qualquer padrão de cautela verbal. Mas repete-se a mesma
reação a cada nova frase impensada e “a última
do Lula” já se tornou quase uma seção
fixa dos jornais. Isso quando não se sugere que a espontaneidade
não é assim tão sem ensaio, que a frase foi
pensada e é uma mensagem sombria: o Lula sonharia, mesmo,
em ficar no poder tanto quanto um ditador africano, acha mesmo
jornalista covarde etc. O Fernando Henrique sobreviveu aos seus
improvisos porque nunca se identificou neles mais do que um deslize,
lamentável ou apenas incongruente, tratando-se de um homem “preparado”.
No caso de Lula, parece haver a preocupação de enfatizar
seu despreparo, na espreita da piada tão infeliz, tão
infeliz, que acabe numa crise política ou institucional.
Agora, que ele poderia pensar duas vezes, ou três, ou quatro,
antes de fazer a piada, poderia.
