LITERATURA
A volta
do Gaúcho a Pé
Por Naira Hofmeister
No ano do centenário de Cyro Martins, o épico que narra o êxodo
rural na Campanha
gaúcha é lançado pela primeira vez com os três
livros em edição conjunta (Sem Rumo, Porteira
Fechada e Estrada Nova) e notas
explicativas.
Em 1912, o Rio Grande do Sul possuía
1, 6 milhão de habitantes. Menos
de 9% vivia em Porto Alegre e, ao
todo, apenas 30% da população
vivia em cidades. Segundo
o mais recente levantamento
realizado pelo IBGE, em
2006, dos 10 milhões de habitantes
do estado, mais de
8 milhões vivem nas cidades.
A fria estatística que caracteriza
o êxodo rural – e cujo ápice se deu na década
de 1950 – foi a inspiração
do mais célebre romance
de Cyro Martins. No ano
do centenário do autor, a
Trilogia do Gaúcho a Pé, que
narra a saga do homem do
campo em busca do futuro
na cidade, é relançada.
Com tiragem de 2 mil exemplares, a obra
será distribuída gratuitamente em escolas e bibliotecas
públicas. Pela primeira vez, Sem Rumo,
Porteira Fechada e Estrada Nova são editados
como uma coleção. “Eles foram publicados conforme
eram escritos: 1937, 1944 e 1953. Cada
vez que esgotava um livro, reeditávamos”, revela a filha de Cyro,
Maria Helena
Martins, que fez o acompanhamento
editorial.
Outra novidade da edição são
as notas de
rodapé. “Fizemos
uma edição
para leitores
do século
XXI, desprevenido
com relaçãoà
literatura
de Cyro
Martins, sem
experiência da
vivência rural”,
revela Maria
Helena.
Nos livros,
as expressões
típicas da
Campanha gaúcha no
século passado ganham
traduções e notas
explicativas escritas pelo romancista
e crítico literário Flávio Aguiar. “O burrico Tamanco,
que se parara alarifão
com o rebuliço, bufava e troteava em roda,
mui potranco” (Sem Rumo), ganha duas notas.
Alarifão é o mesmo que exibido e ‘mui
potranco’ tem a
seguinte
explicação:
“Mui é a forma apocopada de muito, expressão
usada com freqüência no linguajar
campeiro do Sul do Brasil. Potranco é o cavalo
jovem, de menos de dois anos. Já se vê que o burrico andava à solta,
mui feliz”.
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A opção por fazer
literatura regional sem exaltar a
figura do gaúcho – como fizeram Simões
Lopes Neto e
Erico Verissimo, em O Tempo e o Vento – rendeu
inimizades
a Cyro Martins.
“Mexendo
na correspondência do pai, descobri
uma
carta de um amigo de Quarai contando a repercussão
de Porteira Fechada”, conta Maria Helena. Na
carta, o
conterrâneo de Cyro Martins revela que os “nãocyrenses
estão bufando”.
“Não entendiam porque um homem como
Cyro, que poderia exaltar a cidade onde nasceu, preferia
denegrir
sua imagem e de seu povo”, avalia Maria Helena.
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