Ano 13 - nº 127
SETEMBRO de 2008



Luis Fernando Verissimo
Enquanto o mundo se maravilhava com a festa de abertura da Olimpíada de Pequim, a Rússia invadia a Geórgia. Fogos de artifício de um lado, fogo de verdade do outro, e no mesmo dia.



Elisa Lucinda
Não consigo me soltar:
nem gases nem versos.
Hoje sou reverso de cantilena
antítese do poema



Fraga

Nem só de pássaros vivem os observadores: há gente que prefere observar palavras. Nem filólogos nem lingüistas, são ornitógrafos.



Marco Aurélio Weissheimer

A inauguração da pedra fundamental da nova fábrica da Aracruz em Guaíba, dia 27 de agosto, aprofunda o processo de transformação do Rio Grande do Sul em um grande produtor de eucalipto e celulose.

Especial - Sinpro/RS 70 anos de História




Como gerenciar IESPs
sem vender a alma


Existem hoje no Brasil 2,5 mil instituições de Ensino Superior, cerca de 20 mil cursos e 5 milhões de alunos. O MEC mantém instrumentos de avaliação institucional e de rendimento estudantil que denotam crescente deficiência tanto na rede pública quanto privada. Em recente entrevista à revista eletrônica da Secretaria de Educação Superior, o titular do setor, o físico Ronaldo Mota, admitiu a incapacidade do governo para fechar cursos com baixo rendimento nos exames de avaliação. “Se eu pudesse apontar nossa maior fragilidade, diria que é a incapacidade de, a partir do processo avaliativo, gerar um processo regulatório”, reconhece. Ao analisar as instituições de Ensino Superior privadas (IESPs) a partir deste lamentável quadro nacional, o mestre em Administração pela Universidade Mackenzie e professor dos programas de MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Luís Eduardo Machado, acredita que parte dessa situação é reflexo de práticas equivocadas de gerenciamento. Ele aborda o tema no livro Gestão Estratégica para IESPs, editado esse ano pela FGV. Em entrevista ao Extra Classe, Machado aprofunda o tema e aponta saídas.

Por Jacira Cabral da Silveira

Extra Classe – Como descreve e justifica a crise atual do Ensino Superior no Brasil?
Luís Eduardo Machado
– A crise atual se divide em três aspectos. Há uma crise de qualidade em que alguns cursos superiores brasileiros são ruins sob a ótica do ensino e da formação profissional. São cursos mal formatados, com professores mal preparados e principalmente com alunos ruins. A segunda crise é de competitividade, que tem a ver com a falta de posicionamento estratégico de mercado de muitas IESPs. Não há clareza de posicionamento e nem estratégias definidas. A terceira crise é derivada do aumento na competição: há um crescimento no número de concorrentes (incluindo o EAD) e muitas IESPs não têm preparo para enfrentar a concorrência. Caem na vala do “preço” que significa na maior parte do tempo “qualidade ruim”. É importante entender que a grande crise gira em torno da má qualidade dos alunos e da disposição de algumas IESPs de não fazer nada a respeito. O problema central é “brasileiro”: a nossa cultura não prima pela excelência e não valoriza o conhecimento, e isso reflete no Ensino Superior.

EC – O que é possível destacar em sua proposta de gestão estratégica quando salientas aspectos como simplicidade, praticidade e utilidade?
Machado
– A boa gestão estratégica tem que ser acessível, objetiva, simples e prática. Não se trata de um planejamento de 500 páginas cheio de palavrinhas bonitas e gráficos em 3D e sim de “direcionamento” para as pessoas que trabalham na IESP.

EC – O que representa atender o mercado para uma instituição de Ensino Superior?
Machado
– Representa a necessidade de entender que há um “produto” a ser “vendido” para um “cliente”. Todos esses termos têm conotação especial e diferenciada na área de Educação, mas mesmo assim eles sempre remetem ao mercado. O resumo simples: suponha que eu tenha curso excelente, professor excelente, estrutura excelente, mas não tenha alunos. Fecho as portas! Buscar responder as demandas do mercado é muito importante. Mas, “sem vender a alma”. Há algumas IESPs que estão bem longe do mercado, mas há outras que já venderam a alma ao mercado.

EC – A proliferação dos cursos não corresponde na mesma medida à qualificação do Ensino Superior no Brasil. Como mostrar-se uma instituição séria neste contexto?
Machado
– Creio que é possível ter um “negócio” na área de Educação com responsabilidade pelo “entorno”. IESP “séria” é aquela que respeita os professores (valorizando e desenvolvendo), respeita os alunos (oferecendo ensino de qualidade), respeita a comunidade (oferecendo profissionais qualificados e responsáveis), respeita a sociedade (não permitindo que profissionais despreparados cheguem ao mercado).

EC – O que mudaria a situação do Ensino Superior brasileiro?
Machado
– Para mim, o mais relevante seria parar com essa coisa cartorial das IESPs emitirem “diplomas” que testificam a capacidade profissional do aluno. Na sociedade do conhecimento, IESP deveria oferecer conhecimento, sem nota nem prova. O aluno vem e tem a oportunidade de receber conhecimento, não viria por causa do diploma. Quanto à qualificação profissional para exercer uma determinada profissão, isso deveria ficar a cargo dos Conselhos Federais de cada profissão. O que estou dizendo é o seguinte: as IESPs não deveriam atestar capacidade profissional de ninguém. O aluno viria à IESP, receberia conhecimento e então seria avaliado pelo Conselho para ver se de fato tem condição de exercer a profissão. Exatamente como faz a OAB. Penso que todas as profissões deveriam ser assim. Essa é a questão central: o problema não é necessariamente a qualidade do curso superior (pois às vezes o aluno em questão não tem a mínima condição de receber mais), o problema é atestar (através de um diploma) que esse “frágil” aluno é um profissional habilitado a exercer a profissão. Penso que as IESPs não deveriam “habilitar” (atestar capacidade profissional) ninguém, o papel delas seria de oferecer capacitação que seria atestada e julgada pelos Conselhos de cada profissão. Creio que isso mudaria tudo! E revolucionaria o Ensino Superior brasileiro. Sendo assim, como exemplo, alguns teriam feito curso de Administração e recebido conhecimento na área, e outros (atestados pelo Conselho) seriam de fato administradores profissionais com direito de portar o título e de usufruir dos benefícios. Isso acabaria com a “venda de diplomas” e focaria o ensino no que ele deveria sempre ser: conhecimento/capacitação para a profissão e para a vida!





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Notas





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