Como
gerenciar IESPs
sem vender a alma
Existem hoje no Brasil 2,5 mil instituições de Ensino Superior,
cerca de
20 mil cursos e 5 milhões de alunos. O MEC mantém instrumentos
de
avaliação institucional e de rendimento estudantil que denotam
crescente
deficiência tanto na rede pública quanto privada. Em recente entrevista
à
revista eletrônica da Secretaria de Educação Superior, o
titular do
setor, o físico Ronaldo Mota, admitiu a incapacidade do governo para
fechar cursos com baixo rendimento nos exames de avaliação. “Se
eu
pudesse apontar nossa maior fragilidade, diria que é a incapacidade de,
a
partir do processo avaliativo, gerar um processo regulatório”, reconhece.
Ao analisar as instituições de Ensino Superior privadas (IESPs)
a partir
deste lamentável quadro nacional, o mestre em Administração
pela Universidade
Mackenzie e professor dos programas de MBA da Fundação Getúlio
Vargas (FGV), Luís Eduardo Machado, acredita que parte dessa situação é
reflexo de práticas equivocadas de gerenciamento. Ele aborda o tema no
livro Gestão Estratégica para IESPs, editado esse ano pela FGV.
Em entrevista
ao Extra Classe, Machado aprofunda o tema e aponta saídas.
Por Jacira Cabral da Silveira
Extra
Classe – Como descreve e justifica a
crise atual do Ensino Superior no Brasil?
Luís Eduardo Machado – A crise atual se
divide em três aspectos. Há uma crise de qualidade
em que alguns cursos superiores brasileiros
são ruins sob a ótica do ensino e da formação
profissional. São cursos mal formatados,
com professores mal preparados e principalmente
com alunos ruins. A segunda crise é de competitividade,
que tem a ver com a falta
de posicionamento estratégico de mercado
de muitas IESPs. Não há clareza de
posicionamento e nem estratégias definidas.
A terceira crise é derivada do aumento na
competição: há um crescimento no número
de concorrentes (incluindo o EAD) e muitas
IESPs não têm preparo para enfrentar a
concorrência. Caem na vala do “preço” que
significa na maior parte do tempo “qualidade
ruim”. É importante entender que a grande
crise gira em torno da má qualidade dos
alunos e da disposição de algumas IESPs de
não fazer nada a respeito. O problema central é
“brasileiro”: a nossa cultura não prima
pela excelência e não valoriza o conhecimento,
e isso reflete no Ensino Superior.
EC – O que é possível destacar em sua proposta
de gestão estratégica quando salientas
aspectos como simplicidade, praticidade e utilidade?
Machado – A boa gestão estratégica tem
que ser acessível, objetiva, simples e prática.
Não se trata de um planejamento de 500 páginas
cheio de palavrinhas bonitas e gráficos
em 3D e sim de “direcionamento” para as pessoas
que trabalham na IESP.
EC – O que representa atender o mercado
para uma instituição de Ensino Superior?
Machado – Representa a necessidade de
entender que há um “produto” a ser “vendido” para
um “cliente”. Todos esses termos têm
conotação especial e diferenciada na área
de
Educação, mas mesmo assim eles sempre remetem
ao mercado. O resumo simples: suponha que eu tenha curso excelente,
professor
excelente, estrutura excelente, mas não tenha
alunos. Fecho as portas! Buscar responder
as demandas do mercado é muito importante.
Mas, “sem
vender a alma”. Há algumas
IESPs que estão bem longe do
mercado, mas há outras que já venderam
a alma ao mercado.
EC – A proliferação dos cursos
não corresponde na mesma medida à
qualificação do Ensino
Superior no Brasil. Como mostrar-se uma instituição
séria
neste contexto?
Machado – Creio que é possível
ter um “negócio” na área
de Educação com responsabilidade pelo “entorno”.
IESP “séria” é aquela que respeita
os professores (valorizando e desenvolvendo),
respeita os alunos (oferecendo ensino
de qualidade), respeita a comunidade (oferecendo
profissionais qualificados e responsáveis),
respeita a sociedade (não permitindo
que profissionais despreparados cheguem
ao mercado).
EC – O que mudaria a situação do Ensino
Superior brasileiro?
Machado – Para mim, o mais relevante seria
parar com essa coisa cartorial das IESPs
emitirem “diplomas” que testificam a capacidade
profissional do aluno. Na sociedade
do conhecimento, IESP deveria oferecer conhecimento,
sem nota nem prova. O aluno
vem e tem a oportunidade de receber conhecimento,
não viria por causa do diploma.
Quanto à qualificação profissional para exercer
uma determinada profissão, isso deveria
ficar a cargo dos Conselhos Federais de cada
profissão. O que estou dizendo é o seguinte:
as IESPs não deveriam atestar capacidade
profissional de ninguém. O aluno viria à IESP,
receberia conhecimento e então seria
avaliado pelo Conselho para ver se de fato
tem condição de exercer a profissão. Exatamente
como faz a OAB. Penso que todas as
profissões deveriam ser assim. Essa é a questão
central: o problema não é necessariamente
a qualidade do curso superior
(pois às vezes o aluno em questão
não tem a mínima condição de receber
mais), o problema é atestar
(através de um diploma) que esse “frágil” aluno é um
profissional habilitado a exercer a profissão. Penso
que as IESPs não deveriam “habilitar” (atestar
capacidade profissional) ninguém, o papel delas seria
de oferecer capacitação que seria
atestada e julgada pelos Conselhos
de cada profissão. Creio que
isso mudaria tudo! E revolucionaria
o Ensino Superior brasileiro. Sendo
assim, como exemplo, alguns teriam feito
curso de Administração e recebido conhecimento
na área, e outros (atestados pelo Conselho)
seriam de fato administradores profissionais
com direito de portar o título e de usufruir
dos benefícios. Isso acabaria com a “venda
de diplomas” e focaria o ensino no que ele
deveria sempre ser: conhecimento/capacitação
para a profissão e para a vida!
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br