Brincando
de salvar o mundo
Arte:
Luciano Lobelcho sobre
foto
de René Cabrales |
Em meio ao marketing do Dia da Criança,
pare e pense: que jogos da sua infância você lembra
com mais
carinho? O videogame que era o último modelo, ou o jogo
da amarelinha num pátio arborizado? O
carrinho de lomba feito com a tábua improvisada, ou o importado,
que funcionava quase sozinho? Na
onda de preservação do meio ambiente em que cuidar
do planeta Gaia é a necessidade antiga mais
urgente, os adultos conscientes buscam na própria natureza
os motivos para brincar. E as empresas
de brinquedos vislumbram aí um novo mercado de consumidores.
Por Clarinha Glock

indústria
da brincadeira se
rendeu ao marketing do respeito
ao meio ambiente. Um
dos jogos mais tradicionais da Estrela,
o Banco Imobiliário, criado
em 1944, foi relançado este ano
com uma versão intitulada “Sustentável”.
Em vez de bairros e ruas, as casas do tabuleiro
são reservas naturais
como Pantanal, Rio São Francisco,
Chapada dos Veadeiros,
Serra da Mantiqueira e locais
de produção de cana-de-açúcar
,como Ribeirão Preto (SP), Três
Lagoas (MS), Teotônio Vilela
(AL). No lugar de companhias tradicionais
de transporte, há a Companhia
de Reciclagem Energética,
a Companhia de Reflorestamento,
de Agricultura Orgânica, a de Reciclagem
Mecânica.
Mais inovador, no entanto, não é
nem o tema do Banco Imobiliário
da Estrela – jogos e brinquedos
sobre ecologia têm se multiplicado
ao longo dos últimos anos –, mas
sua proposta desde a origem. As
peças do jogo são feitas de plástico
verde, à base de cana-de-açúcar
desenvolvida pela Petroquímica
Braskem, que se gaba de ser um “
divisor de águas no mercado de
polímeros” por conter matérias-primas
100% renováveis. O tabuleiro,
a caixa e as cartas são feitos
com papel reciclado. “O jogo tenta
traduzir o que a sociedade está vivendo no
momento na área
de utensílios, moda e tecnologia”,
explica Aires Leal Fernandes, diretor
de Marketing da Estrela. A
intenção é expandir essa idéia para
outros produtos. Em agosto, começou
a ser distribuído o Novo Mundo,
da Estrela, com perguntas e respostas
sobre meio ambiente, também
feito em papel reciclado.
Empresas nem tão conhecidas
da mídia quanto a Estrela já apostam
no mercado dos ecológicos
com qualidade e criatividade
há mais tempo, dentro da linha dos
brinquedos educativos. O Coleta
Correta, da Toyster, por exemplo,
tem um tabuleiro dividido com as
cinco cores de acordo com o padrão
mundial de recipientes da
coleta seletiva. A Carimbrás lançou
o Jogo Eco, com uma trilha
ecológica – quando
se cai no verde, é porque se está contribuindo
com a
natureza. A Carlu tem a Ecoteca,
composta por duas maletas com 22
jogos, entre eles o quebra-cabeças
dos Elementos da Natureza, o jogo
de tabuleiro “Para onde vai nosso
lixo?”, jogo de seqüência lógica
sobre Desperdício, Poluição, Aquecimento
Global.
|
Versão
ecológica do clássico Banco Imobiliário |
O diferencial atualmente é a
preocupação com o material de
produção destes brinquedos, tanto
por parte de grandes, como de
pequenos fabricantes. Zaira Machado,
diretora da Editora Verdeperto,
de Porto Alegre, e sua sócia,
Taís Vicari, apostam na mudança
de visão dos consumidores
para lançar em breve uma linha de
brinquedos de animais ameaçados
de extinção e outra de mitos regionais
produzidos a partir de papel
reciclado, plástico reaproveitado
das garrafas PET
e madeira de reflorestamento.
Está em estudo
também o uso do bambu como nova
fonte de matéria-prima. Zaira e Taís
seguem uma tendência internacional.
Em todo o mundo, começam a
pipocar notícias de “brinquedos
ecológicos”. No blog de Brinquedo
(http://blogdebrinquedo.com.br/category/ecologicos/) há informações
sobre jogo de xadrez com peças de
carro recicladas, quebra-cabeças de
madeira atóxica, robôs e carros movidos à
luz solar. O crescimento deste
segmento de mercado é tamanho,
que os brinquedos educativos (nos
quais se incluem os ecológicos) foram
o destaque da Feira de Brinquedos
deste ano em Nuremberg, na
Alemanha, considerada uma das
maiores, em negócios, do mundo.
Ainda que extremamente positiva,
a
defesa da
ecologia por meio
dos jogos não elimina
a necessidade de um acompanhamento
dos adultos para
ajudar a desenvolver nas crianças
o espírito crítico. Nas cartas de
Sorte ou Revés do Banco Imobiliário
Sustentável, por exemplo, o
jogador é multado porque a empresa
dele poluiu demais, ou ganha
pontos por proteger terras do
desmatamento. No lugar do dinheiro,
valem os Créditos de Carbono.
Muito louvável. Mas o marrketing
derrapa no texto de descrição
do jogo no site da Estrela,
onde dá a entender que não é só pelo
respeito ao meio ambiente que vale a pena ganhar a partida: “Versão
Especial do Banco Imobiliário
produzida com material
reciclado – adquira reservas naturais,
regiões produtoras de
cana-de-açúcar e proteja suas
terras para poder ganhar dinheiro
com o turismo”!
| Fotos:
divulgação |
 |
Brinquedos
movidos à energia solar divulgados no blogdebrinquedo.com.br |
Legislação rígida
e impostos altos
O que mais chamou a atenção da gaúcha Eunice
Ferreira Ehlers Duarte, proprietária da Be-abá Brinquedos
Educativos, ao visitar a Feira de Brinquedos de Nuremberg, em fevereiro
deste ano,
foram os reciclados de madeira seringueira. “Hoje
a maior parte das fábricas de madeira da Ásia usam
a seringueira, e não o pinho, porque ela tem uma
vida útil para retirada do látex e depois precisa
ser
abatida – é uma madeira leve, macia e não tem
os
refugos do pinho”, explica Eunice. “É uma visão
mais européia, de longo prazo, porque a seringueira
leva anos para ficar no ponto de corte, e o pinho
tem um crescimento muito rápido”, avalia.
Se as empresas no exterior têm a preocupação
de divulgar que seus produtos são elaborados com
madeira certificada e oferecem selo de garantia,
isto ainda é um problema no Brasil. Em parte, pelo
custo. Eunice ressalta a dificuldade dos artesãos
de conseguirem a aprovação do Inmetro. “Para
fazer o teste de qualidade anual é preciso pagar
entre R$ 600 a R$ 800 por produto”, informa. Além
disso, as regras que funcionam no Brasil não são
as mesmas do exterior. “Na Europa, são permitidos
brinquedos de madeira para bebês, no Brasil,
não. Sem falar que não há incentivos na área
de
impostos – eletrônicos e educativos pagam as mesmas
taxas”, reclama Eunice.
| Foto:
René Cabrales |
|
Eunice:
destaque para os brinquedos
de seringueira em Nuremberg |
A questão da reciclagem ainda é, portanto,
não só um desafio do ponto de vista técnico,
como de legislação. “A norma brasileira
não permite, aliás proíbe, a fabricação
de brinquedos com quaisquer materiais
reciclados – podem contaminar
as crianças”, diz Synésio Batista da Costa,
presidente da Associação Brasileira
dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq).
Ele prevê inclusive um mercado restrito
para estes produtos: “O ambiente da
ecologia nacional não tem encantado
muito as crianças. No passado houve experimentação
de produção de Saci Pererê,
foquinhas, antinhas, oncinhas (em
pelúcia), mas não venderam. Prejuízo
total”, informou, por e-mail, à reportagem
do Extra Classe.
A norma da ABNT que rege os brinquedos é
a NM (Norma Mercosul) 300, explica
Mariano Bacellar Netto, diretor técnico
do Instituto Brasileiro de Qualificação
e Certificação (IQB). Esta norma indica
que o material com o qual são produzidos
brinquedos não pode estar
contaminado. “Como se pode garantir
isso? Só usando material novo”,
observa. “A Anvisa autorizou o uso
de PET reciclado para alimentos,
desde que seja verificado
que o lote não contém impurezas,
mas para brinquedos
não há mecanismos de
controle”, informa Netto. Ele
lembra que é difícil obter
uma garantia da origem do material reciclado.
Ao mesmo tempo, critica a legislação atual,
que não protege tanto quanto devia. Um
exemplo: a Lei 11.762, de 1º de agosto deste
ano, proíbe a comercialização de produtos
com
concentrado de chumbo. “Mas essa lei faz tantas
exceções de uso – em estruturas metálicas,
eletrodomésticos
etc. – por pressão de terceiros, que
têm interesses econômicos, que a proteção é falha”,
enfatiza. “Por acaso as crianças também não
têm acesso a estas coisas? Se estes produtos podem ter chumbo,
então não pode haver reciclagem
de nada”, alerta.
Na opinião de Netto, “brinquedos de madeira
são ecológicos e deveriam ser valorizados,
com isenção de impostos, usando
material nacional, acessível, com madeira
corretamente plantada”. Mas
como os impostos são muito altos, é mais
conveniente e barato importar os brinquedos
de plástico da China. Além disso,
ele cita outro problema: no Brasil
há restrições de usar madeiras de reflorestamento
ou de manejo aprovado porque
são utilizados alguns preservativos
venenosos para evitar as manchas provocadas
por fungos. “No mundo todo,
começa-se a usar produtos que não contenham
arsênico, ou pó da China, mas
no Brasil ainda se usam estes venenos”,
explica. Por estas e outras, o país não
consegue exportar seus produtos.
A riqueza dos jogos sem grife
É crescente também a preocupação
de educadores
e escolas
com a
questão
ambiental.
Brinquedos e
brincadeiras
com mote da
sustentabilidade
fazem parte de um
contexto e não precisam
estar restritos a
nenhuma classe social,
defende a pedagoga Gislaine
Machado, fundadora
da Escola Arco-Íris, de
Porto Alegre. A escola trabalha
com a Pedagogia Waldorf, que defende
a percepção do ser humano
de forma integral, antroposófico – “
um ser que se cura e cura a Terra”.
Uma das primeiras coisas que a escola
fez ao adotar esta pedagogia foi
substituir os materiais industrializados
dos brinquedos. Um cesto de toras
de madeira tiradas da natureza
informa mais aos pequenos sobre textura,
calor, forma, que os de plástico,
e pode ser um substitutivo para
os caros jogos de montar, ensina Gislaine: “A
cada estação, a natureza
nos traz uma riqueza de sementes e
formas que, ao brincar, a criança vai
vivenciando e absorvendo por todos
os seus sentidos”. Na contramão do
uso cada vez mais freqüente de
DVDs e vídeos, Gislaine argumenta
que é no movimento e na fantasia
que se desenvolve a brincadeira
até os sete anos de idade.
Portanto, um bonequinho feito de
retalhos de pano macio, enfeitado
apenas com uma manta de tricô feita
pela professora no recreio, e recheado
de lã de ovelha, é um convite
e tanto para um aconchegante
abraço infantil e uma história a ser
inventada. “Nós, educadores, estamos
pecando, correndo para comprar
tanto material pronto, quando a própria
criança pode desenvolver seus
filtros sobre o que é matéria viva e
morta”, diz a educadora.
| Foto:
René Cabrales |
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Stella
Branco: as brincadeiras em casa
seguem a linha do colégio
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Hoje a Arco-Íris tem continuidade
na Escola Querência, de Ensino
Fundamental, em que os pais fazem
parte do conselho gestor. Nas
escolas há horta, jardim, e as crianças
participam cuidando. Stella
Maria Correa Branco, mãe de Julia
e Pedro Chaves, gêmeos de nove
anos de idade, faz parte da turma
de pais fundadores da escola. As
brincadeiras com os filhos em casa
seguem a mesma linha do colégio.
Um pequeno papelão pode virar um
carrinho para descer o morro. Ela
considera que os brinquedos de
material natural proporcionam uma
noção de verdade e realidade que
nenhum de plástico pode dar. E isso
faz diferença na independência e
criatividade dos futuros adultos. “Tenho amigos
com filhos apáticos,
que até para brincar precisam de
ajuda”, compara.
Experiências como a da Escola
Municipal Areias de Palhocinha, de
Garopaba, Santa Catarina, ensinam
também que a criatividade e a participação
das crianças vale mais do que
muito jogo bonito e caro. Os alunos e
professores foram estimulados pela
Mostra Professor José Lutzenberger – um
evento anual que envolve todas
as escolas da região e movimenta mais
de 5 mil pessoas na cidade famosa por
suas praias – a se engajarem em projetos
ligados ao meio ambiente. O professor
de Educação Física Amauri dos
Santos Rodrigues não teve dúvida:
aproveitou o material reciclado coletado
pelos pais e estudantes como
parte das atividades da Mostra e sugeriu
criar brinquedos. Os alunos
contribuíram com idéias, e desde
então os jogos reciclados são a salvação
nos dias de chuva, quando
não podem sair para jogar no pátio.
| Foto:
René Cabrales |
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Escola
utiliza matéria-prima
encontrada na natureza
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Foi assim que surgiu, entre outros,
o Pebolim Ecológico, construído
com restos de madeira de tapume
de construção, cabos de vassoura
(para os bonequinhos) e uma bolinha de desodorante do tipo Rolon.
As mudanças não aconteceram
somente ao reutilizar materiais
velhos e sem uso. Estimulados
pela idéia, os alunos ajudaram
a recuperar a entrada da escola, colocando floreiras e transformando
a relação entre brincadeiras,
natureza e educação. Os
exemplos de iniciativas nesse sentido
são inúmeros em todas as redes
de ensino e níveis.
Na carona
das crianças,
surgem novos jogos para adultos
Fábio Ferreira Carralo é funcionário público,
tem 38 anos, duas filhas pequenas, e um hobby
que traz dos tempos de criança: adora brincar
com a inteligência. Aos oito anos, costumava jogar
xadrez com o avô. Agora, fim de semana sim,
outro não, ele divide a mesa com a mulher, que é
dermatologista, o irmão e a namorada para disputar
no tabuleiro jogos que têm sua origem nos
vikings, como o Tablut e o Brandubh.
As brincadeiras modernas que trazem em sua
história uma parte da cultura dos povos da Índia,
China, África, Egito, entre outros, fazem a
delícia dos marmanjos. Além de incentivar o
convívio, mexem com o raciocínio. Carralo descobriu
sua nova mania ao visitar uma loja em
busca de brinquedos educativos para suas filhas.
Este pai moderno não pretende se deixar levar
por nenhuma tendência ou modismo. Por estar
mais familiarizado com os jogos, na hora de
escolher os próximos brinquedos de suas crianças,
está seguro: “Comprarei não por ser reciclado,
mas se for interessante mesmo”.
Mitra – linha de jogos
que “resgatam
pensamentos e hábitos culturais que
contam a história do brinquedo e do
brincar da humanidade”.
www.mitracriacao.com.br
Ludens Planet – fabrica jogos
e objetos lúdicos relacionados à história
de povos
antigos. Tem uma parceria com a ONG
Pró Rio Grande
www.ludensspirit.com/
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