Ano 13 - nº 127
SETEMBRO de 2008



Luis Fernando Verissimo
Enquanto o mundo se maravilhava com a festa de abertura da Olimpíada de Pequim, a Rússia invadia a Geórgia. Fogos de artifício de um lado, fogo de verdade do outro, e no mesmo dia.



Elisa Lucinda
Não consigo me soltar:
nem gases nem versos.
Hoje sou reverso de cantilena
antítese do poema



Fraga

Nem só de pássaros vivem os observadores: há gente que prefere observar palavras. Nem filólogos nem lingüistas, são ornitógrafos.



Marco Aurélio Weissheimer

A inauguração da pedra fundamental da nova fábrica da Aracruz em Guaíba, dia 27 de agosto, aprofunda o processo de transformação do Rio Grande do Sul em um grande produtor de eucalipto e celulose.

Especial - Sinpro/RS 70 anos de História




O avanço dos desertos verdes
no Rio Grande do Sul


Marco Aurélio Weissheimer

A inauguração da pedra fundamental da nova fábrica da Aracruz em Guaíba, dia 27 de agosto, aprofunda o processo de transformação do Rio Grande do Sul em um grande produtor de eucalipto e celulose. Os protestos de entidades ambientalistas e movimentos sociais não vêm sendo capazes de deter a invasão dos chamados “desertos verdes” no estado. A ofensiva econômica e publicitária das grandes empresas do setor é fortíssima. A imensa maioria da imprensa gaúcha já se perfilou ao lado da celulose apresentando-a como um caminho para a redenção econômica do RS. Os problemas ambientais e legais levantados contra a expansão da monocultura de eucalipto (e outras espécies utilizadas para a produção de celulose) são tratados de forma secundária, como efeitos colaterais aceitáveis em nome de uma promessa de progresso futuro.

Artes: Rodrigo Vizzotto/D3 Comunicação

Jornalista relata o preço da devastação

as há uma exceção midiática nesta louvação à celulose. No final de agosto, o jornalista Lúcio Vaz, do jornal Correio Braziliense, publicou a terceira reportagem da série O preço da devastação, que apresenta os impactos econômicos, sociais e ambientais da produção de celulose no país. Nesta nova matéria, ele mostra como, com o apoio do governo da Bahia e de prefeitos do sul do estado, as papeleiras Veracel, Suzano e Aracruz ocuparam cerca de 300 mil hectares com plantações de eucaliptos nas últimas duas décadas, gerando impactos ambientais negativos. A Veracel, por exemplo, informa a reportagem, sofre ações por irregularidades na á rea ambiental e por supostas práticas de corrupção. Em julho deste ano, a Justiça Federal anulou as licenças concedidas à empresa na implantação de sua base florestal. Além disso, determinou a retirada de 47 mil hectares de eucaliptos, com a recomposição da Mata Atlântica, e multou a empresa em R$ 20 milhões.

A condenação da Veracel foi resultado de uma denúncia feita em 1992 por entidades como o Greenpeace e o SOS Mata Atlântica que registraram a derrubada de 64 hectares de vegetação nativa com o uso de correntes amarradas a tratores. A matéria do Correio Braziliense relata: “O juiz federal Márcio Mafra Leal, de Eunápolis, município onde está instalada a fábrica da Veracel, entendeu que as plantações de eucaliptos deveriam ter sido precedidas de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA), com o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (Rima). O plantio em quantidades espetaculares de eucaliptos não só elimina a Mata Atlântica, mas também altera o quadro paisagístico da região”.

O juiz denunciou que não houve avaliação de impacto ambiental na região e que toda a abordagem foi feita sob o ângulo da empresa e de suas estratégias. Ele qualificou o parecer do Centro de Estudos Ambientais (CRA), que embasou as licenças, como uma cópia do estudo feito pela própria Veracel.

As reportagens publicadas no Correio Braziliense também mostram como as empresas de celulose distribuíram R$ 8,6 milhões em doações eleitorais a políticos nas últimas três eleições. Lúcio Vaz percorreu cerca de 7,5 mil quilômetros, registrando as conseqüências da implantação de quase 1 milhão de hectares de eucaliptos no Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Bahia, além dos plantios no Uruguai.

Consenso midiático

Não se vê nada parecido com essas matérias na imprensa gaúcha. Por aqui, o que aparece é um grande consenso midiático em defesa das empresas. O que aparece também é um grande volume de anúncios publicitários destas empresas nos meios de comunicação mais variados. Resta saber se essa relação simbiótica entre empresas de celulose e imprensa não se transformará em uma relação parasitária para o futuro do meio ambiente gaúcho.



  Agronegócio quer flexibilizar leis ambientais
Nos dias que correm todos são a favor do meio ambiente e repetem discursos peremptórios sobre a importância do desenvolvimento sustentável. O que se vê na prática, porém, é uma crescente flexibilização da legislação ambiental em nome do lucro e da promessa de prosperidade. Além do caso da celulose, o agronegócio como um todo mobiliza-se para combater o que chama de “rigidez” das leis ambientais.

No dia 26 de agosto, parlamentares e entidades ligadas ao agronegócio solicitaram ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, uma completa revisão do Decreto 6.514, de 22 de julho de 2008, que torna a Lei de Crimes Ambientais mais rígida. Em audiência com o ministro, representantes do agronegócio entregaram uma carta expondo o que chamaram de “reflexos negativos da norma para a atividade econômica nacional, como a redução de área produtiva e da produção de alimentos, da renda do produtor e da geração de empregos”. E propuseram a criação de um Grupo de Trabalho para a “revisão” do decreto e da legislação ambiental brasileira. A idéia é flexibilizar a legislação, considerada demasiadamente restritiva pelo agronegócio.

Um dos líderes deste grupo, o deputado federal gaúcho Luis Carlos Heinze (PP), defendeu o “aprofundamento” das discussões sobre as leis ambientais vigentes no Brasil, com o objetivo de apresentar, em 120 dias, “propostas equilibradas entre a preservação ambiental e a produção agropecuária”.

Tudo isso vem acontecendo num ambiente de absoluta normalidade. O discurso em defesa do meio ambiente cada vez mais é apenas... um discurso.


E-mail: marcoweiss@uol.com.br
Blog: http://rsurgente.zip.net









Abelhas mortas
Deu no blog da Ecoagência que um apicultor de Barra do Rio Azul, interior do estado, perdeu 48 colméias das 60 que possuía.



A polêmica repor-tagem de Veja
A reportagem da revista Veja, veiculada na semana do dia 20 de agosto, intitulada Prontos para o Século XI causou forte repercussão no meio educacional.



Urcamp: dívidas com INSS
Passados quase dez anos desde que o Conselho Nacional de Assistência Social rejeitou à Urcamp a condição de instituição filantrópica, a União está cobrando a...



Fiscalização eletrônica
Comissão Mista de Orçamento da Câmara Federal lançou um mecanismo que permitirá a qualquer cidadão com acesso à internet checar os recursos empenhados e depois pagos às cidades pela União.
 




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